Amor Romântico
Bocage
Proposição das rimas do poeta
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.
Fernando Pessoa
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
23/08/1934
Amélia Rodrigues
Desejo
Perpassa sobre o meu corpo
Nu...
Quando os teus dedos longos
Acariciam a minha pele
Envolvendo-me
Num sentimento rico,
Infinito...
Quando os teus músculos
Contraem-se sob mim,
Elevando-me às estrelas,
À lua, ao prazer...
Quando sorvo o teu sêmen
Doce
Entre carícias e afagos...
Sinto que te amo!
Enlouqueço ao pensar
Que vais partir
Levando contigo
Toda a beleza do teu corpo,
Da tua alma.
Sinto que te amo
E tenho ganas de gritar,
Ao mundo,
Todo o meu amor,
Entregando-te a minha vida
Para suprir a tua
Nas carências do teu coração.
Desejo o teu calor
Abrasante,
Queimando as minhas mucosas
E ardendo-me de prazer ...
Desejo a tua voz,
O teu sorriso,
O teu amor...
Desejo você,
TODO,
Sem mistérios, sem afrontas,
Simplesmente...
Quero envolver-te em meus braços
Fazer-te líquido
Na solidez dos meus carinhos,
Sorver-te por inteiro
E saborear o teu gozo
Sedenta de amor.
Fernando Pessoa
Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!
No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.
Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.
12/12/1919
Pedro Tamen
Como o Caeiro, sabes, digo adeus
aos versos que se vão e aos que chegam,
marcados desde dentro como teus
como sons imperfeitos que se entregam
a quem passe e repasse, e já não sabe
se a conjunção de como que assim ligo
é dele ou de quem é. Como se acabe,
o dia em que te escrevo é que te sigo,
e mais importa, e mais me livra inteiro
do que não tu, a ti, minha mulher,
meu caso e minha casa, meu bom cheiro
a ti ou a mim mesmo, ao que vier
deste completo inverno em que me abeiro
da verdade que entenda quem puder.
Fernando Pessoa
DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Conclusão
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Matilde Campilho
Coqueiral
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca
E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão — terno é o seu rosto
Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.
Matilde Campilho
Fevereiro
Anda, escuta que isso é sério!
O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?
Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.
O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?
Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.
Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.
[suspiro]
O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.
De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.
É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.
Escuta, isso é sério!
Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.
Portanto, escute.
Isto é muito serio!
Isto é uma proposta aos trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!
Notas para um século surpreendente
Está tarde já. Parece muito cedo, mas está tarde. Tem gente morrendo por aí, gente íntima e gente privada, há explosões acontecendo bem no meio de nossos quartos, em nossos banheiros, na testa de nossos filhos. Alguns de nossos filhos pertencem ao futuro. Está tarde, por enquanto está tarde, faz tanto tempo desde a última vez que fomos até à entrada do rochedo, mais tempo ainda desde que mergulhámos na enseada e nos deparámos com o coral, com o brilho, com a coloração perfeita que fazia lembrar a transumância. Tenho pensado na palavra transumância. Tenho pensado muito naquele excerto do diário de Pavese que fala dos mitos e da atenção, dos símbolos, dos nomes. Nalgum momento, ele diz qualquer coisa como: estamos convencidos de que uma grande revelação só poderá sair da teimosa insistência numa mesma dificuldade. E também: sabemos que o modo mais seguro — e mais rápido — de nos espantarmos é fitarmos impávidos sempre o mesmo objeto. Segundo Cesare Pavese, é pela atenção e pela repetição que acontece o estouro do milagre. Ainda acredito em milagres. Ficou tarde de repente e alguns de nós não podem dormir, por muito que nos esforcemos só sabemos passar noites em branco fixando a parede e as sombras na parede. Ficamos até de madrugada brincando com as mãos e com o recorte delas, pelo menos a luz ainda incide sobre nossas mãos, há qualquer coisa de magia nos desenhos noturnos que se projetam nos tapumes de nossas casas, de nossas cavernas, de nossos ilusórios covis. Sim, fitamos impávidos sempre o mesmo objeto. Somos pessoas atentas, pelo menos deveríamos ser, piscamos os olhos devagar para que não se cansem nossas pálpebras, está tudo entrando por nossa cara adentro ao ritmo de um murro de Joe Frazier. Joe chegou a derrotar Muhammad Ali, cuidado. É preciso poupar nossas caras, nossos narizes, nossas línguas. A língua, essa, está muito relacionada com o segredo — é debaixo dela que guardamos o tesouro. Como uma criança que guarda um caroço de cereja na boca durante um dia inteiro, nós seguramos nossos segredos por meses seguidos. Só o segredo nos salvará mais tarde, muito mais tarde do que isto, agora é o tempo da transição e dos desastres aéreos, o tempo da descoberta de planetas muito semelhantes ao nosso mas a 1400 anos-luz daqui, o tempo da morte dos campeões, dos camponeses e dos escritores. Nunca se viu um ano como este, ou talvez sim, todo ano é uma foice e a foice da temporada 2015 está levando tantas cabeças. Pense no Herberto, no Manoel, pense no Galeano, pense no James Tate, estávamos tão distraídos quando morreu Tate, e os poemas dele são círculos tão absurdos quanto costurados pela linha da esperança — às vezes acho que é só disso que precisamos, precisaríamos, um cordel tosco e ao mesmo tempo iluminado, um objeto meio bola de praia, meio ostra, meio plástico meio talismã. Está tarde, talvez estejamos só cansados. Somos os descendentes do passado e o passado sempre foi meio esquisito, aprendemos a ler pelo mapa dos transportes públicos, subiu tanto o preço dos transportes públicos, os mapas das cidades se alteraram, há um desenho novo a cada esquina, só o desenho de nosso corpo não mudou e até isso é mentira. Nossos corpos vão se renovando a cada dia, a cada hora, agora que penso nisso: graças a Deus. Somos o reflexo da cordilheira. Fomos abençoados com a possibilidade do movimento, o constante movimento entre as falésias, abençoados com as tardes de verão e com o cinema que surgiu das cabeças francesas debaixo de um certo sol, foi-nos dada a estufa fria para de dentro dela poder contemplar a natureza que rebenta com tudo lá fora, foram-nos concedidos os vidros e o poder dos vidros. Fomos abençoados com a manhã, com o suor e com as coisas que conseguimos fazer com nosso suor até aos trinta e oito anos, foram-nos concedidas igrejas e cavernas e toda a espécie de templos que impressionam o silêncio, temos a possibilidade do templo em nosso próprio eixo humano, veja bem que sorte a nossa. Estamos atentos, estamos calados, estamos fixando sempre o mesmo objeto. Repetimos os nomes e os gestos para que nos possamos aproximar da realidade. Mito e realidade, que surpresa, afinal é tudo o mesmo. Está tarde, hoje a morte não entrou por nossos túneis, e é muito devagar que vamos movendo os animais para a montanha, da planície para a montanha, de casa para casa. Talvez esta noite possamos dormir em paz. Porque agora em nossas mãos está escrito a carvão aquele trecho de um poema do Pavese, que diz: “Lá fora, depois do jantar, virão as estrelas tocar/ a grande planície da terra. É debaixo deste silêncio que acontece o estouro.”
23 de Agosto de 2015
Crónica. Notas para um século surpreendente
Está tarde já. Parece muito cedo, mas está tarde. Tem gente morrendo por aí, gente íntima e gente privada, há explosões…
www.publico.pt
Matilde Campilho é uma poeta portuguesa, nascida em Cascais, 1982, estudou Literatura em Lisboa e História da Arte em Milão. Morou no Rio de Janeiro, onde também trabalhou como jornalista e redatora freelancer entre os anos de 2010 e 2013 e foi nessa estadia entre Rio e Lisboa que deu vida a sua primeira obra, Jóquei, misturando a dicção das duas cidades.
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brincávamos a cair nos braços um do outro
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando
a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
Matilde Campilho
Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos No Exílio
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Filipa Leal
Vem à quinta-feira.
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro -sei que isto não está fácil podemos ir a Guimarāes
assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à quinta-feira.
A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.
Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso
profissional sabes que isto não está fácil talvez nos dê hipótese de imos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.
Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
--- viajar de autocaravana,
--- dançar na Estrada Nacional,
--- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da índia, as
fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube
como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor
--- Ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.
Matilde Campilho
Roma Amor
você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde os seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
Uau
você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
Quem sabe
se na centésima partícula
não será possível achar um pedacinho
do genoma do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó em genomas
que acontece brilhantemente
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
Quando apontou a concha de ouro
La deite a mano no tempo expresso diano
Você falou
é a forma como maio bate na janela
se refrate na geladeira
vai bater nos azulejos
se aloja em seus cabelos
respondi
é a época
das sementes e das explosões
amante de final de semana
não, meu bem
muito menos de quinta-feira
Pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro do tio das crianças
Veja só
nem todo mundo tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
Um dançarino suspenso
um dançarino su-suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo e a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper com a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para espulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
Você falou
vai embora
Desça as escadas e suma
Saia agora
Tem alguém chegando aí
e hoje
hoje é só segunda-feira
Matilde Campilho
M
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Matilde Campilho
Briga Entre Um Terreno Sagrado E Outro
sobre se você iria para o céu
ou para o inferno
Achava que com tanta gente
ferida por seu punhal
havia uma possibilidade
Sim uma possibilidade
de que você fosse parar
no inferno
Mas depois também tinha
aquela coisa de você nadando
na Praia da Amoreira
ou de você desenhando
com uma pedrinha branca
na pele do rochedo irregular
ou até de você aparecendo
sorrindo na minha frente
Tinha a forma como você
conversava com estranhos
na rua à hora dos lobos
Seu jeito de segurar a raqueta
quando jogava badminton
Aquela sua atrapalhação
quando você se atrasava
Você sempre se atrasava
e chegava correndo
se justificando
olhando o relógio
que você nem tinha
Você toda afogueada
subindo no banco de trás
de minha bicicleta
enquanto eu continuava
lendo o jornal internacional
calmamente
sempre calmamente
te esperando
Você dizia des-des-desculpa
eu lia a última parte da notícia
que falava de um barco
encalhado na Mesoamérica
e depois te dizia vamos?
Havia a possibilidade
é havia uma forte possibilidade
de que você terminasse no céu
ou no paraíso
O tempo que você levava
para se despertar
nas manhãs de dezembro
A atenção que você dedicava
a todas as partes de seu corpo
e de meu corpo
e do corpo do raminho
de magnólias
que adormeciam
e acordavam connosco
no hotel mais sujo da cidade
em dezembro e fevereiro
Isso dizia muito sobre
sua vocação para a meditação
e também para o desespero
Passei muito tempo pensando
sobre se tua inclinação
te levaria até o inferno
pouco depois de tua morte
E mais do que isso
eu também pensava
se você morrer eu morro
se você escolher o gole do diabo
eu bebo do mesmo cantil
Foi assim que me tornei ladrão
Assim que apontei o canivete
na têmpora de Xavier Tementree
Assim que assaltei a horta biológica
para levar todos os pés da salsa dourada
Foi assim que esbofeteei o policial
e pior que isso foi assim que esmurrei
meu colega samurai
quando eu sabia que ele fazia aquilo
só por diversão ou por imitação
Passei muito tempo pensando
num lado e no outro
E portanto nos intervalos do terror
para cobrir minha retaguarda
Eu dançava na quermesse
Alimentava os castores
Contava as línguas das tribos
Fazia vénias aos astrofísicos
Beijava todas as cabeças
dos pássaros e dos lampiões
Não fosse deus tecer a manta
e fazer-te escolher a água benta.
Para onde você vai eu não sei
Na verdade não me importa mais
Porque no caminho do post-mortem
Aconteceu que dei de caras com a vida.
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos, de Salomão
Amor melhor do que o vinho.
— Delicado é o aroma dos teus perfumes;
e teu nome, unguento que se derrama.
Por isso te amam as virgens.
Leva-me contigo, corramos juntos.
O rei levou-me para as suas câmaras.
— Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.
Matilde Campilho
Notícias Escrevinhadas Na Beira de Estrada
Matilde Campilho
O Último Poema do Último Príncipe
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Amor Mudo
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Matilde Campilho
Brincando Com Os Dentes do Tubarão
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom
tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters
Acompanhar teu percurso
natural
é muito bom
falar contigo
sobre tipos de alimentos
também
Neste começo d’hoje
tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu
My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.