Poemas neste tema
Amor Romântico
Matilde Campilho
Chapéu de Palha
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
680
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 007
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
708
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
975
Matilde Campilho
Estação do Trem
Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 356
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 500
Matilde Campilho
Rua do Alecrim
Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
1 381
Fernão Garcia Esgaravunha
Ora Vej'eu o Que Nunca Cuidava,
Ora vej'eu o que nunca cuidava,
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
677
Nuno Fernandes Torneol
Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo
Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
734
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Que Sempre Servi
Senhor fremosa, que sempre servi
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
638
Pero da Ponte
Ai Madr', o Que Me Namorou
- Ai madr', o que me namorou
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
865
Nuno Fernandes Torneol
Trist'anda, Mia Madr[E], o Meu Amigo
Trist'anda, mia madr[e], o meu amigo,
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
695
Pero da Ponte
Pois Vos Ides Daqui, Ai Meu Amigo
Pois vos ides daqui, ai meu amigo,
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
735
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
656
Nuno Fernandes Torneol
Assi Me Traj'ora Coitad'amor
Assi me traj'ora coitad'Amor
que nunca lh'home vi trager tam mal;
e vivo com el ũa vida tal
que já mia morte seria melhor.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E pera qual terra lh'eu fugirei
log'el saberá mandado de mi,
ali u for; e pois me tever i
em sa prisom, sempr'eu esto direi:
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E a mim faz hoj'el maior pesar
de quantos outros seus vassalos som
e a [e]ste mal nom lh'hei defensom:
u me tem em poder, quer-me matar.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
que nunca lh'home vi trager tam mal;
e vivo com el ũa vida tal
que já mia morte seria melhor.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E pera qual terra lh'eu fugirei
log'el saberá mandado de mi,
ali u for; e pois me tever i
em sa prisom, sempr'eu esto direi:
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E a mim faz hoj'el maior pesar
de quantos outros seus vassalos som
e a [e]ste mal nom lh'hei defensom:
u me tem em poder, quer-me matar.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
489
Nuno Fernandes Torneol
Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom
Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
647
Nuno Fernandes Torneol
Ir-Vos Queredes, Mia Senhor
Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
753
Pero da Ponte
Por Deus, Amig', E Que Será de Mi
Por Deus, amig', e que será de mi,
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
704
Nuno Fernandes Torneol
Levad', Amigo, Que Dormides As Manhanas Frias
Levad', amigo, que dormides as manhanas frias
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
leda m'and'eu.
Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
leda m'and'eu.
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
leda m'and'eu.
Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
leda m'and'eu.
1 531
Fernão Garcia Esgaravunha
Meu Senhor Deus, Venho-Vos Eu Rogar
Meu Senhor Deus, venho-vos eu rogar
com a maior coita que nunca vi
haver a home: havede de mi
doo, Senhor, e nunca tal pesar
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
Ca estou eu hoj'a mui gram pavor
de o veer, e meu sem est atal
de vos rogar por est'e nom por al:
que nunca tal pesar de mia senhor
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
E bem sei eu, de pram, ca se fezer
mia senhor o que tem no coraçom,
ca perderei eu o corpo; mais nom
tam gram pesar nunca, se vos prouguer,
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
com a maior coita que nunca vi
haver a home: havede de mi
doo, Senhor, e nunca tal pesar
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
Ca estou eu hoj'a mui gram pavor
de o veer, e meu sem est atal
de vos rogar por est'e nom por al:
que nunca tal pesar de mia senhor
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
E bem sei eu, de pram, ca se fezer
mia senhor o que tem no coraçom,
ca perderei eu o corpo; mais nom
tam gram pesar nunca, se vos prouguer,
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
417
Fernão Garcia Esgaravunha
Se Vos Eu Amo Mais Que Outra Rem
Se vos eu amo mais que outra rem,
senhor fremosa que sempre servi,
rog'[eu] a Deus que tem em poder mi
e vós, senhor, que me dê vosso bem!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor.
Se vos eu amo mais doutra molher,
nem ca outr'home, mais ca mi nem al,
rog'eu a Deus, que muito pod'e val,
que El mi dê vosso bem se quiser!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor!
senhor fremosa que sempre servi,
rog'[eu] a Deus que tem em poder mi
e vós, senhor, que me dê vosso bem!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor.
Se vos eu amo mais doutra molher,
nem ca outr'home, mais ca mi nem al,
rog'eu a Deus, que muito pod'e val,
que El mi dê vosso bem se quiser!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor!
686
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
694
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
878
Fernão Garcia Esgaravunha
Punhei Eu Muit'em Me Quitar
Punhei eu muit'em me quitar
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
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