Poemas neste tema
Pai e Paternidade
João Marcio Furtado Costa
Pai
Pai
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.
Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.
Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.
És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.
824
Fernando José dos Santos Oliveira
A Meu Pai
A Meu Pai
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
1 113
Flávio Sátiro Fernandes
Ode aos noventanos
Ao meu pai,
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
853
Emílio Moura
Mar Alto
Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
1 213
Cleonice Rainho
Lição de Mitologia
Era deus com d pequeno
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
1 084
Cleonice Rainho
Lembrança
Neste cesto oval,
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
1 030
Cleonice Rainho
Meu Lenço
Um pedacinho de pano
florido ou não,
o lenço é útil
e gosto dele
no bolso ou na mão.
Da calçada
ou da janela
dou adeus com ele
para o papai,
quando vai trabalhar,
e para os passarinhos
que vejo voar.
Corro com o lenço
aberto ao vento
— a vela de um barco
ou uma bandeirinha
bem esticadinha...
Mas, de lenço molhado,
na fonte dos olhos,
não gosto não!
E pano encharcado
na água de tristeza
do coração.
florido ou não,
o lenço é útil
e gosto dele
no bolso ou na mão.
Da calçada
ou da janela
dou adeus com ele
para o papai,
quando vai trabalhar,
e para os passarinhos
que vejo voar.
Corro com o lenço
aberto ao vento
— a vela de um barco
ou uma bandeirinha
bem esticadinha...
Mas, de lenço molhado,
na fonte dos olhos,
não gosto não!
E pano encharcado
na água de tristeza
do coração.
1 306
Daniel Faria
Chamavas os bois com a mão
Chamavas os bois com a mão
Mais mansa. A mão
Com que adubavas a terra
Com que puxavas o banco
Para a frente da lareira
Com que me mediste
Palmo a palmo na infância.
de Dos Líquidos (2000)
Mais mansa. A mão
Com que adubavas a terra
Com que puxavas o banco
Para a frente da lareira
Com que me mediste
Palmo a palmo na infância.
de Dos Líquidos (2000)
1 666
Dylan Thomas
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
1 850
Gilson Nascimento
A n i v e r s á r i o
Um ano a mais tens hoje, caro filho
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
718
Gilson Nascimento
Segundo soneto aos invernos de outrora
Voltar, olhos no tempo, vendo a chuva
Do jacaré na bica se banhar
Plantar olhos no céu, na nuvem turva
Rir e do riso ir ao gargalhar
Ver de novo seu pai, bem humorado
Tangendo a água que invadia o bar
E o povo alegre, rosto transmudado
Dizer tempo bonito! Só no olhar
Névoa a linha da serra debruando
Beijando o verde, a ele se doando
Numa carícia leve como arminho
Lembranças gratas que afloraram agora
Porque a chuva que cai, forte, lá fora
Levou-me a queridíssimo caminho
Do jacaré na bica se banhar
Plantar olhos no céu, na nuvem turva
Rir e do riso ir ao gargalhar
Ver de novo seu pai, bem humorado
Tangendo a água que invadia o bar
E o povo alegre, rosto transmudado
Dizer tempo bonito! Só no olhar
Névoa a linha da serra debruando
Beijando o verde, a ele se doando
Numa carícia leve como arminho
Lembranças gratas que afloraram agora
Porque a chuva que cai, forte, lá fora
Levou-me a queridíssimo caminho
832
Gilson Nascimento
Escorrego
Manhãzinha. Meu pai e eu saindo
De toalha rumamos nós sozinhos
Amiudar de galos. Sol sorrindo
Brisa mansa e sossego nos caminhos
Passada a nossa rua, a Guabiraba
Um dos bairros descalços da cidade
Cruzar de gente. O rumo é do mercado
Tudo é tão simples que me dá saudade
A bica do Escorrego. O corpo encaroçado
Uma mão me amparando – a imagem do cuidado
Evitando que a água o filho derrubasse
A volta, o dia claro, caminhando
E meu pai, satisfeito, me contando
Histórias várias de seu mundo antigo
O bar, o abafador, o café quente
O pão cheirando a forno à nossa frente
E o sol brincando réstias pelo chão
Esse tempo envelhece, mas não morre
Se fraqueja a saudade logo acorre
É amiga, é terna, é leve a sua mão
De toalha rumamos nós sozinhos
Amiudar de galos. Sol sorrindo
Brisa mansa e sossego nos caminhos
Passada a nossa rua, a Guabiraba
Um dos bairros descalços da cidade
Cruzar de gente. O rumo é do mercado
Tudo é tão simples que me dá saudade
A bica do Escorrego. O corpo encaroçado
Uma mão me amparando – a imagem do cuidado
Evitando que a água o filho derrubasse
A volta, o dia claro, caminhando
E meu pai, satisfeito, me contando
Histórias várias de seu mundo antigo
O bar, o abafador, o café quente
O pão cheirando a forno à nossa frente
E o sol brincando réstias pelo chão
Esse tempo envelhece, mas não morre
Se fraqueja a saudade logo acorre
É amiga, é terna, é leve a sua mão
918
Jaumir Valença da Silveira
Iniciação
Diz-se que, quando menino,
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
945
Juscelino Vieira Mendes
Em Busca do Tempo Perdido
"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas
e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais
mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo,
como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais,
e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."
Marcel Proust, in No Caminho de Swann
Busco em reentrância,
minha vida em Conquista,
a infância
à semelhança do personagem
de Proust, que, aturdido,
busca a imagem
do tempo perdido
ao comer um pedaço de madalena.
Tem o seu passado presente,
ao tomar uma xícara de chá de tília na
casa de sua mãe: comovente!
Nessa visão em túnel, ouço um som.
Mesmo efeito embriagante do chá de tília.
É Garfunkel: Mr. Robinson;
Cecília!
E a suave música que passa,
de chofre, faz-me reviver o Beco dos Artistas; o Jurema
e o velho pé de Cajá, que virou praça.
Madalena!
Caleidoscópio de minha viagem que doura,
em busca do que sempre fui ali,
prossigo para o Beco da Tesoura
e ingresso no ‘Bar Aracy’:
"Que foi feito de meu arroz doce com canela?"...
Alegre e satisfeito, saio para o Colégio Anísio Teixeira
na doce irresponsabilidade do ser - e pensando nela -,
sem nenhum tostão na algibeira.
Redivivo, assim, meu cérebro emocional em
amálgama perfeito - hipocampo e amígdala - em doce recordação redolente
de uma vida distante que vem
trazer-me de volta: Clemente!
Campinas, águas de março de 1997.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais
mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo,
como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais,
e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."
Marcel Proust, in No Caminho de Swann
Busco em reentrância,
minha vida em Conquista,
a infância
à semelhança do personagem
de Proust, que, aturdido,
busca a imagem
do tempo perdido
ao comer um pedaço de madalena.
Tem o seu passado presente,
ao tomar uma xícara de chá de tília na
casa de sua mãe: comovente!
Nessa visão em túnel, ouço um som.
Mesmo efeito embriagante do chá de tília.
É Garfunkel: Mr. Robinson;
Cecília!
E a suave música que passa,
de chofre, faz-me reviver o Beco dos Artistas; o Jurema
e o velho pé de Cajá, que virou praça.
Madalena!
Caleidoscópio de minha viagem que doura,
em busca do que sempre fui ali,
prossigo para o Beco da Tesoura
e ingresso no ‘Bar Aracy’:
"Que foi feito de meu arroz doce com canela?"...
Alegre e satisfeito, saio para o Colégio Anísio Teixeira
na doce irresponsabilidade do ser - e pensando nela -,
sem nenhum tostão na algibeira.
Redivivo, assim, meu cérebro emocional em
amálgama perfeito - hipocampo e amígdala - em doce recordação redolente
de uma vida distante que vem
trazer-me de volta: Clemente!
Campinas, águas de março de 1997.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
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