Poemas neste tema
Paixão
Cesário Verde
Arrojos
Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" (1) e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.
Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.
Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" (1) e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.
Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.
Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.
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8
Affonso Romano de Sant'Anna
Confluência
Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.
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7
José Régio
Ode a Eros
Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...
Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?
Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!
Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?
Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa
Em que se bebe sempre a mesma sede,
Se come
A mesma fome?
Divindade nocturna
Que te cinges de rosas,
Suprema fúria mascarada
Que a porta abres do céu... escancarada
Sobre o negro vazio duma furna,
Que a urna de cristal nas mãos formosas
Vens ofertar às bocas sequiosas
E escorres sangue do cristal da urna,
Que tens tu afinal, ao fundo da caverna
Sempre aos mortais vedada:
A eterna morte... o nada,
Ou a vida eterna?
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...
Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?
Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!
Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?
Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa
Em que se bebe sempre a mesma sede,
Se come
A mesma fome?
Divindade nocturna
Que te cinges de rosas,
Suprema fúria mascarada
Que a porta abres do céu... escancarada
Sobre o negro vazio duma furna,
Que a urna de cristal nas mãos formosas
Vens ofertar às bocas sequiosas
E escorres sangue do cristal da urna,
Que tens tu afinal, ao fundo da caverna
Sempre aos mortais vedada:
A eterna morte... o nada,
Ou a vida eterna?
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7
Manuel Bandeira
Cântico Dos Cânticos
— Quem me busca a esta hora tardia?
— Alguém que treme de desejo.
— Sou teu vale, zéfiro, e aguardo
Teu hálito... A noite é tão fria!
— Meu hálito não, meu bafejo,
Meu calor, meu túrgido dardo.
— Quanto por mais assegurada
Contra os golpes de Amor me tinha,
Eis que irrompes por mim deiscente...
— Cântico! Púrpura! Alvorada!
— Eis que me entras profundamente
Como um deus em sua morada!
— Como a espada em sua bainha.
— Alguém que treme de desejo.
— Sou teu vale, zéfiro, e aguardo
Teu hálito... A noite é tão fria!
— Meu hálito não, meu bafejo,
Meu calor, meu túrgido dardo.
— Quanto por mais assegurada
Contra os golpes de Amor me tinha,
Eis que irrompes por mim deiscente...
— Cântico! Púrpura! Alvorada!
— Eis que me entras profundamente
Como um deus em sua morada!
— Como a espada em sua bainha.
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7
Raul Bopp
Coco de Pagu
Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.
Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.
Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
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7
Luís Gama
Meus Amores
Pretidão de amor,
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.
CAMÕES - Endechas
Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.
Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.
Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.
O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.
A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
— É coisa de sentir, não de contar.
Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.
Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.
Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.
Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.
São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.
Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,
Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.
.........................................
Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.
Mas já que o fato iníquo não consente,
Que amor, além da campa, faça vasa,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.
Imagem - 00190004
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.141-142. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema publicado no DIABO COXO de 3 set. 186
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.
CAMÕES - Endechas
Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.
Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.
Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.
O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.
A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
— É coisa de sentir, não de contar.
Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.
Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.
Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.
Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.
São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.
Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,
Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.
.........................................
Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.
Mas já que o fato iníquo não consente,
Que amor, além da campa, faça vasa,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.
Imagem - 00190004
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.141-142. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema publicado no DIABO COXO de 3 set. 186
11 598
6
Manuel Bandeira
Primeira Canção do Beco
Teu corpo dúbio, irresoluto
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!
Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem.
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!
Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso.
O trauma, o estupor, o decúbito!
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!
Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem.
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!
Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso.
O trauma, o estupor, o decúbito!
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6
Manuel Bandeira
Bacanal
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
— Vinhos... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
1918
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
— Vinhos... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
1918
15 550
6
Luiz de Miranda
Abril
Quero tudo em abril
o que é doce e juvenil
na mão de uma menina
em breve alucina
é o amor que se declara
presença matutina
em quem antes não amara
Quero amar em abril
mais do que em março
assim a voz da paixão
é onde coloco o abraço
Quero tudo em abril
o sonho vem logo abrir
o que em mim era pueril
para o canto fazer-se ouvir
entre as ruas da cidade
Quero tudo em abril
do feliz aniversário
ao amor ordinário
da namorada cheirosa
que seja rosa e morada
luz aberta na madrugada
Quero tudo em abril
as formas de ser gentil
o que nunca é servil
o que serve só ao Brasil
toda a rima em il
que nunca será febril
pois nunca é noite em abril
In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas).
o que é doce e juvenil
na mão de uma menina
em breve alucina
é o amor que se declara
presença matutina
em quem antes não amara
Quero amar em abril
mais do que em março
assim a voz da paixão
é onde coloco o abraço
Quero tudo em abril
o sonho vem logo abrir
o que em mim era pueril
para o canto fazer-se ouvir
entre as ruas da cidade
Quero tudo em abril
do feliz aniversário
ao amor ordinário
da namorada cheirosa
que seja rosa e morada
luz aberta na madrugada
Quero tudo em abril
as formas de ser gentil
o que nunca é servil
o que serve só ao Brasil
toda a rima em il
que nunca será febril
pois nunca é noite em abril
In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas).
5 042
6
Chacal
20 anos recolhidos
chegou a hora de amar desesperadamente
apaixonadamente
descontroladamente
chegou a hora de mudar o estilo
de mudar o vestido
chegou atrasada como um trem atrasado
mas que chega
apaixonadamente
descontroladamente
chegou a hora de mudar o estilo
de mudar o vestido
chegou atrasada como um trem atrasado
mas que chega
6 417
6
Maria Teresa Horta
As nossas madrugadas
Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciume
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes
Despertas-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciume
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes
Despertas-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
6 226
6
Eugénio de Andrade
Nas ervas
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
7 148
6
Thiago de Mello
Faz Mormaço na Floresta
Não quero
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.
De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce
Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.
A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.
Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.
Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.
Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.
Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço
Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria
É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.
Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos
nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.
Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.
Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.
Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.
Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.
De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce
Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.
A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.
Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.
Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.
Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.
Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço
Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria
É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.
Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos
nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.
Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.
Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.
Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.
Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.
8 713
6
Vinicius de Moraes
Soneto de Agosto
Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.
Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco
Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.
Oxford, 1938
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.
Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco
Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.
Oxford, 1938
8 957
6
Almeida Garrett
Seus Olhos
Seus olhos --- se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
8 004
6
António Ramos Rosa
O amor cerra os olhos
O amor cerra os olhos,não para ver mas para absorver:a obscura transparência,a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria.Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.O amor conhece-se sobre a terra coroada:animal das águas,animal do fogo,animal do ar:a matéria é só uma,terrestre e divina.
de Três Lições Materiais(1989)
de Três Lições Materiais(1989)
5 524
6
Florbela Espanca
Volúpia
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...
8 777
6
Luís de Camões
Qual tem a borboleta por costume
Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,
Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.
Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;
Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,
Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.
Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;
Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.
6 799
6
Luiz de Miranda
Viagem
O que viaja em nós
às vezes é infeliz
como a alegria do meu país.
Mas o que ama brilha,
viaja além do ônibus, da tristeza,
na estrada, na estrela,
principalmente no amor
que cala nossa dor,
inventa a esperança
e faz a fala da paixão.
Publicado no livro Livro do passageiro (1992).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.4
às vezes é infeliz
como a alegria do meu país.
Mas o que ama brilha,
viaja além do ônibus, da tristeza,
na estrada, na estrela,
principalmente no amor
que cala nossa dor,
inventa a esperança
e faz a fala da paixão.
Publicado no livro Livro do passageiro (1992).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.4
1 603
5
Osório Duque-Estrada
Esquecimento
Se queres inda ver como escondida
Guardo no peito a tua imagem pura,
— Imagem que no céu da minha vida
É como um sol ardente que fulgura;
Convida o coração na sepultura
A viver e pulsar por ti; convida
Minh'alma para amar de novo; cura
A, que lhe abriste, cáustica ferida...
Só pedira a paixão com que me iludo
Que um raio apenas d'essa luz me desses,
E uma palavra do teu lábio mudo;
Mas nem ouves, sequer, as minhas preces;
E enquanto, para amar-te, esqueço tudo,
Tu, por um nada, o meu amor esqueces.
Poema integrante da série Segunda Parte: Livro de Isa.
In: DUQUE-ESTRADA, Osório. Flora de maio, 1899/1901: versos. Pref. Alberto de Oliveira. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902
Guardo no peito a tua imagem pura,
— Imagem que no céu da minha vida
É como um sol ardente que fulgura;
Convida o coração na sepultura
A viver e pulsar por ti; convida
Minh'alma para amar de novo; cura
A, que lhe abriste, cáustica ferida...
Só pedira a paixão com que me iludo
Que um raio apenas d'essa luz me desses,
E uma palavra do teu lábio mudo;
Mas nem ouves, sequer, as minhas preces;
E enquanto, para amar-te, esqueço tudo,
Tu, por um nada, o meu amor esqueces.
Poema integrante da série Segunda Parte: Livro de Isa.
In: DUQUE-ESTRADA, Osório. Flora de maio, 1899/1901: versos. Pref. Alberto de Oliveira. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902
2 054
5
Bruno de Menezes
Filmando
Ó figurinha de cinema!
Passaste,
em ondas de "organdy",
esvoaçante e serpentina.
Os braços nus, em gestos de haste,
a boca rubra e tão pequena
que nunca vi
mais pequenina.
Meu jarro ideal de Becerril...
E o teu olhar...
Ó minha "girl", loura e risonha!
Queres um rei? Sou Boabdil!...
Dou-te um riquíssimo alcaçar,
dou-te a Avenida do Bolonha!
Publicado no livro Bailado Lunar: versos (1924). Poema integrante da série Ba-ta-clan.
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.83. (Lendo o Pará, 14
Passaste,
em ondas de "organdy",
esvoaçante e serpentina.
Os braços nus, em gestos de haste,
a boca rubra e tão pequena
que nunca vi
mais pequenina.
Meu jarro ideal de Becerril...
E o teu olhar...
Ó minha "girl", loura e risonha!
Queres um rei? Sou Boabdil!...
Dou-te um riquíssimo alcaçar,
dou-te a Avenida do Bolonha!
Publicado no livro Bailado Lunar: versos (1924). Poema integrante da série Ba-ta-clan.
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.83. (Lendo o Pará, 14
3 026
5
Mário de Sá-Carneiro
Bárbaro
Enroscam-se-lhe ao trono as serpentes doiradas
Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África.
Mima a luxúria a nua — Salomé asiática...
Em volta, carne a arder — virgens supliciadas...
Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges —
Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição —
Os teus coleios vis, nas infâmias que finges,
Alastram-se-me em febre e em garras de leão.
Sibilam os répteis... Rojas-te de joelhos...
Sangue e escorre já da boca profanada...
Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada —
Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos...
Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas
Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto...
As tranças desprendeste... O teu cabelo, incerto,
Inflama agora um halo a crispações e aromas...
Embalde mando arder as mirras consagradas:
O ar apodreceu da tua perversão...
Tenho medo de ti num calafrio de espadas —
A minha carne soa a bronzes de prisão...
Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo...
A luz enrijeceu zebrada em planos de aço...
A sangue se virgula e se desdobra o espaço...
Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!...
Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta,
Caio sobre a maldita... Apunhalo-a em estertor..
.................................................
— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta,
Ou a minha Alma só que me explodiu de cor...
Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África.
Mima a luxúria a nua — Salomé asiática...
Em volta, carne a arder — virgens supliciadas...
Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges —
Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição —
Os teus coleios vis, nas infâmias que finges,
Alastram-se-me em febre e em garras de leão.
Sibilam os répteis... Rojas-te de joelhos...
Sangue e escorre já da boca profanada...
Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada —
Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos...
Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas
Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto...
As tranças desprendeste... O teu cabelo, incerto,
Inflama agora um halo a crispações e aromas...
Embalde mando arder as mirras consagradas:
O ar apodreceu da tua perversão...
Tenho medo de ti num calafrio de espadas —
A minha carne soa a bronzes de prisão...
Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo...
A luz enrijeceu zebrada em planos de aço...
A sangue se virgula e se desdobra o espaço...
Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!...
Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta,
Caio sobre a maldita... Apunhalo-a em estertor..
.................................................
— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta,
Ou a minha Alma só que me explodiu de cor...
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Jorge de Sena
Quantos na Vida Corpos
Quantos na vida corpos conheci?
Uns de passagem, outros repetidos, outros demorados
a ponto de não querer já conhece-los ou
conhece-los fazer que mais agudamente
a outros desejasse. É incrível se pensa.
E às vezes descendência de primeiros poderá ter sido.
Que me deixaram? Uma ciência inútil,
tão doce e tão amarga, de saber de mais
como corpos se entregam ou se negam.
Que deixei neles? Uma ciência? Culpa?
Uma memória cínica? Saudade?
ou quando se recordam do amor feito
algum estranho vazio a persegui-los
mais vazio se torna e de vazio estranho?
É isto o conhecer sem nome e sem conversa
em que se estendem corpos antes que o pensar
transforme o amor que é feito
no amor que se apaixona.
Uns de passagem, outros repetidos, outros demorados
a ponto de não querer já conhece-los ou
conhece-los fazer que mais agudamente
a outros desejasse. É incrível se pensa.
E às vezes descendência de primeiros poderá ter sido.
Que me deixaram? Uma ciência inútil,
tão doce e tão amarga, de saber de mais
como corpos se entregam ou se negam.
Que deixei neles? Uma ciência? Culpa?
Uma memória cínica? Saudade?
ou quando se recordam do amor feito
algum estranho vazio a persegui-los
mais vazio se torna e de vazio estranho?
É isto o conhecer sem nome e sem conversa
em que se estendem corpos antes que o pensar
transforme o amor que é feito
no amor que se apaixona.
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