Poemas neste tema
Angústia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual
Altas marés no tumulto me ressoam
E paredes de silêncio me reflectem
E paredes de silêncio me reflectem
2 808
Sophia de Mello Breyner Andresen
Crepúsculo Dos Deuses
Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cedrenus, Resumo da História).
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cedrenus, Resumo da História).
2 442
Sophia de Mello Breyner Andresen
Naquelas Noites
Naquelas noites,
Enquanto o suor das árvores escorria,
A face dos anjos tornara-se evidente,
Como se a terra tivesse entrado em agonia.
Enquanto o suor das árvores escorria,
A face dos anjos tornara-se evidente,
Como se a terra tivesse entrado em agonia.
1 830
Sophia de Mello Breyner Andresen
Janela
Janela rente ao mar e rente ao tempo
— Ó mãos poisadas sobre um Junho antigo —
De ano em ano de hora em hora
Caminho para a frente e cega me persigo
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
— Ó mãos poisadas sobre um Junho antigo —
De ano em ano de hora em hora
Caminho para a frente e cega me persigo
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
2 795
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno da Graça
Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.
Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.
Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.
Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.
Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.
Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.
Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.
2 212
Sophia de Mello Breyner Andresen
Casas
à Luiza Neto Jorge
Casas — casas roucas
Atentos muros — umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987
Casas — casas roucas
Atentos muros — umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987
2 034
Sophia de Mello Breyner Andresen
Homens À Beira-Mar
Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
O apelo do silêncio que os arrasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
O apelo do silêncio que os arrasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
3 085
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estranha Noite Velada
Estranha noite velada,
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.
Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita cada linha.
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.
E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.
Tudo o que era certo se dissolve;
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.
Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita cada linha.
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.
E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.
Tudo o que era certo se dissolve;
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.
2 547
Sophia de Mello Breyner Andresen
Senhora da Rocha
Tu não estás como Vitória à proa
Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura
Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe sempre
O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no mar
Homens e barcos pressentem o naufrágio
E por isso não caminhas cá fora com o vento
No grande espaço liso da luz branca
Nem habitas no centro da exaltação marinha
O antigo círculo dos deuses deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento
Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena
Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura
Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe sempre
O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no mar
Homens e barcos pressentem o naufrágio
E por isso não caminhas cá fora com o vento
No grande espaço liso da luz branca
Nem habitas no centro da exaltação marinha
O antigo círculo dos deuses deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento
Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena
3 169
Nuno Júdice
Soneto 3
Duvido dos espelhos, não sei ler os reflexos.
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
601
Sophia de Mello Breyner Andresen
Navegação
Distância da distância derivada
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.
2 653
Nuno Júdice
Última ceia
Com que monotonia penso em mim;
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.
(E se disser que não como?)
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.
(E se disser que não como?)
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 457
Susana Thénon
Amor
Agora conhece o que assovia o sangue
à noite
como a escura serpente extraviada.
à noite
como a escura serpente extraviada.
920
Susana Thénon
Resto
Ficam os movimentos elementares
do sangue
e o rosto, espelho cego
onde se precipita o meio-dia.
Ficam as mãos, apenas,
suavemente desenhadas
nas costas negras do ar.
Ficam as palavras, não a música,
não o rumor equidistante do sol
quando faz noite, dor e medo.
Ficam os animaizinhos cansados
de golpear, cara e estio,
em sua jaula de ossos.
do sangue
e o rosto, espelho cego
onde se precipita o meio-dia.
Ficam as mãos, apenas,
suavemente desenhadas
nas costas negras do ar.
Ficam as palavras, não a música,
não o rumor equidistante do sol
quando faz noite, dor e medo.
Ficam os animaizinhos cansados
de golpear, cara e estio,
em sua jaula de ossos.
725
Susana Thénon
A Sós
É certo:
A seriedade de seu sorriso.
Imagina-se a sós
com tanto grito à sua volta?
O tempo caminha entre os perfumes,
destampa um frasco, perde minutos a deixar morrer
entre os trajes para meio vivos,
como recém afogados.
Compreendo:
os gritos silenciados,
os peixes, nascimento perpétuo.
Antes, uma vez...
Ninguém nunca saberá.
Imagina-se a sós
com tanto abismo à sua volta?
A seriedade de seu sorriso.
Imagina-se a sós
com tanto grito à sua volta?
O tempo caminha entre os perfumes,
destampa um frasco, perde minutos a deixar morrer
entre os trajes para meio vivos,
como recém afogados.
Compreendo:
os gritos silenciados,
os peixes, nascimento perpétuo.
Antes, uma vez...
Ninguém nunca saberá.
Imagina-se a sós
com tanto abismo à sua volta?
593
Susana Thénon
O Morto
Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
810
Nuno Júdice
A incerteza
A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco das ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco das ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
1 801
Susana Thénon
Nomes
Na desolação do meu sangue,
sob a angústia que me cega
eu busco nomes para meu amor:
meu amo quase ódio,
apenas sol.
sob a angústia que me cega
eu busco nomes para meu amor:
meu amo quase ódio,
apenas sol.
797
Susana Thénon
Um
Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
953
Susana Thénon
Ela
Pela madrugada
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
824
Raquel Nobre Guerra
Vir às mãos / Aforismos terceiros
subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
1 305
José Miguel Silva
Faculdade
Não me deixa a sensação
de estar aqui para expiar
a culpa de ter fome,
cinco nós por desatar
em cada linha de cabelo.
O truque é não erguer
As sobrancelhas,
colocar no cabeçalho
um nome falso,
sorrir a 100%.
As perguntas que levantas
são perdizes abatidas
por calibres ideais.
Afias outro lápis, aprendes
a calar o que te dói.
Mais um ano e sairás
daqui formado em miudezas
de futuro gradeado. E o mundo
vai abrir-se, já o sabes,
num esgoto cor de prata.
de estar aqui para expiar
a culpa de ter fome,
cinco nós por desatar
em cada linha de cabelo.
O truque é não erguer
As sobrancelhas,
colocar no cabeçalho
um nome falso,
sorrir a 100%.
As perguntas que levantas
são perdizes abatidas
por calibres ideais.
Afias outro lápis, aprendes
a calar o que te dói.
Mais um ano e sairás
daqui formado em miudezas
de futuro gradeado. E o mundo
vai abrir-se, já o sabes,
num esgoto cor de prata.
1 032
José Miguel Silva
5
Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
978