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Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Cláudio Alex

Cláudio Alex

Te Espero

Todo amor tem que ser livre
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.

Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.

Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.

Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.

Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.

Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.

Todas essas manifestações
são manifestações de amor.

Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.

Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?

Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.

Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.

Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.

E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.

Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.

Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.

Te espero.

1 014
Cláudio Alex

Cláudio Alex

Bom Dia, Tristeza!

I
Bom dia, Tristeza!
Nada se absorve
ou se perde na beleza.
O inverno da desesperança
consentida.
O silêncio do pulsar
admitido.
Bon jour, Tristesse!

II
A conspiração noturna,
o advento da respiração
da brisa da madrugada,
um salutar reflexo de continuidade.
Implorar presença
que preencha a falta
do tudo.
Da totalidade de tudo.
Sinto muito,
se as manhãs são nuas,
se tuas tardes são vazias
e o tédio impercebido resvala nas quinas
dos móveis.
Se o volume da rádio-vitrola
faz as paredes purgarem
uma canção inesperável.

III
Se antes havia
um tênue ressonar
ao lado de minha abstinência,
hoje os resquícios
de presença
são absorvidos
pelos meus pêlos que se eriçam
ao toque invisível do desespero.

IV
Play me a ring!
Sing me a song!
A song of my desperate Christmas!
Im lost...

V
Um inexplicável
suor de nossa vadiagem.
Na tarde, na manhã,
na presença noturna,
a atmosfera que envolve a tudo.
Sinto saudades,
dessas tardes.
O telefone soar
e tudo ser...
A certeza do dia
frente à obscenidade
permitida.
O toque do espírito
na pele.
O contato profundo
nas partes impuras.

VI
Cravar os dentes
na ausência de tua carne.
Lamber o vazio
onde estariam tuas portas.
E o gosto amargo
da secura da falta de teus sumos
transborda em lágrimas
da mais pura incerteza.

VII
Deita comigo
o silêncio
da invalidez
das possibilidades.
Deita comigo
a fraqueza que nos levou
e te conduziu para perto do
cataclisma.
Permanece comigo
a falta de teu sussurro,
do teu gemido,
do ressuscitar
das velhas
e inesperadas
paixões.

VIII
Bom dia, Tristeza!
A porosidade da língua
que guarda o sabor
delicado
de tua saliva.

IX
Impressa em mim
cada emoção,
cada toque,
cada sensação
esculpida no fundo.
E as limalhas
da alma
permanecem
espalhadas
no ambiente do quarto.

X
Guardo comigo,
numa coleção
de fragmentos,
a ansiedade
da volta.

XII
Mas a desesperança
decompõe meu corpo,
leva minha noite...
Tristeza, bom dia!
Aqui fico eu,
permaneço,
jazente,
adormecendo,
aos poucos,
na inexistência
de tua presença.

737
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

Outro Testamento

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

1 972
Waldy Sombra

Waldy Sombra

Meu Chão, Minha Canção

Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.

Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.

Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.

Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.

Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.

Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.

Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.

Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.

Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.

Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.

Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.

Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?

Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!

Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.

460
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Desespero do Amante

Onde andará
quem um dia o meu passo transformou
e sutil e silenciosa e envolvente
acorrentada manteve-me a esperança

Nas insubmissas falanges do peito
em toda parte te busquei

Fiz-me do vento, das areias molhadas das praias,
dos clarões de lua que te viram nua,
dos raios de sol que te beijaram o dorso,
inimigos declarados porque cúmplices na tua fuga

De nada valeram as minhas dragonas
na tua busca
nem o rútilo da espada
tantas vezes entre os dosséis desembainhada
amedrontaram o tempo que implacável
te esconde e alcovita

Maldito para sempre
o tempo que em nós passou
qual ave de rapina, imensa,
erodiu o esvoaçar dos teus cabelos
transformou em ladeira abandonada
tuas curvas
antes precipício
onde o suicídio a cada instante eu cometia

Onde indescobertos ficaram
os altaneiros cimos de bicos acintosos
a desafiar a gravidade.

Onde o trigal às bordas do Vesúvio
em cinzas transformado

Onde a lassidão,
aquele sentimento enorme de morrer a dois
quando a maré entrechocada
confundia o sentimento e a razão

O tempo afugentou a sinuosidade do teu corpo
contido antes no leito de um vestido

Tempo, tempo, porque me obrigas
a ir buscá-la
montado na crina azul das minhas lembranças
se sabes a magia desfeita e desvanecido o encanto

Não te basta o sorver amargo
do veneno ensandecido
gota a gota
nos versos malditos
que cultivo

Arranque-a pedaço a pedaço
das minhas estrelas

Emudeça-me as mãos
petrifique-me a razão
faça-me calar no peito
a imagem que os meus galos madrugada
insistem envolver nos meus lençóis.

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