Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Noel Nascimento
Astrovate
Fazedor de artes,
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
872
Nascimento Moraes Filho
Homem
homem,
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
933
Ismael Nery
A Noiva do Poeta
A minha noive se reparte toda nas minhas quatro amantes
Sara, Ester, Rute e raquel
Sara tem o seu ar e o seu corpo,
Ester a sua cor e os seus cabelos,
Rute tem o seu olhar e seu andar,
Raquel tem sua boca e sua voz,
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.
Sara, Ester, Rute e raquel
Sara tem o seu ar e o seu corpo,
Ester a sua cor e os seus cabelos,
Rute tem o seu olhar e seu andar,
Raquel tem sua boca e sua voz,
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.
831
Myriam Fraga
O Avião
Somente as asas
Aço-metal
Linear o traço.
E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,
Devorando intuições,
Cansaços.
Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.
Aço-metal
Linear o traço.
E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,
Devorando intuições,
Cansaços.
Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.
1 095
Neide Archanjo
Neste mezzo del camin
Neste mezzo del camin
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
1 006
Marcelo Perrone
Sonhos
Que são sonhos?Só sonhamos dormindo?E a nossa imaginação?Será que é de lá que vêm os sonhos?
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
915
Mário Pederneiras
Caminho Errado
(fragmento)
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
1 237
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 132
Martins Napoleão
O Poema da Forma Eterna
(Ó infinito sonho!
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)
Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.
Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.
Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.
Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...
E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...
E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.
A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...
E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.
E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.
E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...
E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.
E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.
Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.
Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.
930
Micheliny Verunschk
Déjà Vu
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.
1 080
João José Menescal de O. Saldanha
Qualquer Coisa
Quando a claridade abortar
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
783
Milena Azevedo
O Cinema
Luzes, estrelas, milhões
Fama, sorte, canastrões
Humor, terror, drama, fantasia
Este é o mundo onde o cinema gira.
Eleva o nosso sonho
à condição de super-astro
Faz da nossa imaginação
a estrela principal.
Faz-nos emocionar,
rir, chorar, cantar
Embeleza o nosso caminho,
glorifica o nosso mundinho.
Ganhei, perdi, morri, revivi...
Nem sei quantas lições aprendi,
nem sei como posso agradecer-te
meu bom e velho cinema.
Fama, sorte, canastrões
Humor, terror, drama, fantasia
Este é o mundo onde o cinema gira.
Eleva o nosso sonho
à condição de super-astro
Faz da nossa imaginação
a estrela principal.
Faz-nos emocionar,
rir, chorar, cantar
Embeleza o nosso caminho,
glorifica o nosso mundinho.
Ganhei, perdi, morri, revivi...
Nem sei quantas lições aprendi,
nem sei como posso agradecer-te
meu bom e velho cinema.
772
Carlos Anísio Melhor
Elegia para Hart Crane
Escuro é o espaço em que vivemos,
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
909
Mário Donizete Massari
Inverno
Ao amigo e poeta Américo Rosário
Dia frio
Dia quente
hoje nevou, e em meu peito
a chama está acesa.
Dia frio
Dia quente
a mensagem trouxe-ma o vento
"alerta companheiro
abra o peito, mas não se mostre
nem busque abrigo de deuses"
E esse dia frio
dia de ficar à beira do fogão de lenha
mãos gélidas, esquentá-las
guarnecê-las de sonhos.
Dia frio
Dia quente
hoje nevou, e em meu peito
a chama está acesa.
Dia frio
Dia quente
a mensagem trouxe-ma o vento
"alerta companheiro
abra o peito, mas não se mostre
nem busque abrigo de deuses"
E esse dia frio
dia de ficar à beira do fogão de lenha
mãos gélidas, esquentá-las
guarnecê-las de sonhos.
871
Mário Donizete Massari
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
588
Mário Donizete Massari
O natal de Raimundo
Raimundo ganhou
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
893
Mário Donizete Massari
O sonho do poeta
Sonhou o poeta
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
911
Mário Donizete Massari
O Poeta
Olhou para o céu
Brincou com a lua
Apalpou as estrelas
Subiu nos montes
Alcançou o horizonte
Emergiu na loucura
Saciou a sede
na mais linda e pura
fonte da vida
Esperou amanhecer
e para o orvalho gelado
Disse bom dia
"Nasceu a poesia"
Brincou com a lua
Apalpou as estrelas
Subiu nos montes
Alcançou o horizonte
Emergiu na loucura
Saciou a sede
na mais linda e pura
fonte da vida
Esperou amanhecer
e para o orvalho gelado
Disse bom dia
"Nasceu a poesia"
910
Maurício Batarce
Sonhos de Um Poeta
Palavras soltas surgem ao vento.
Em um turbilhão confuso de letras
O poeta acompanha o passar do tempo.
O poeta não racionaliza as palavras,
Não raciocina, sente...
Os sonhadores gostariam de escrever neve
Mas não sabem como se escreve.
Sonham com o campo
Para sentir seu aroma;
Imaginam o horizonte
Mas não o encontram no distante...
São narrados nesse momento
Apenas dissentimentos.
Uma voz ecoa ao vento...
O poeta pega carona nas ondas
E envereda-se para o fim do tapete azul...
Em um turbilhão confuso de letras
O poeta acompanha o passar do tempo.
O poeta não racionaliza as palavras,
Não raciocina, sente...
Os sonhadores gostariam de escrever neve
Mas não sabem como se escreve.
Sonham com o campo
Para sentir seu aroma;
Imaginam o horizonte
Mas não o encontram no distante...
São narrados nesse momento
Apenas dissentimentos.
Uma voz ecoa ao vento...
O poeta pega carona nas ondas
E envereda-se para o fim do tapete azul...
729
Maurício Batarce
Sonhador
Heis o sonhador...
O Sonhador imagina o céu
E navega na bruma;
O Sonhador vive no ar
E pensa saber amar.
Heis o Sonhador...
Heis o Sonhador
Que pensa nas flores frágeis e formosas;
Heis o Sonhador
Que caminha pelo campo em sorrisos;
Heis o Sonhador
Que confia em seus grandes amigos;
Heis o sonhador...
Heis o sonhador
Que insiste em sonhar;
Heis o sonhador
Que procura o momento de acordar...
O Sonhador imagina o céu
E navega na bruma;
O Sonhador vive no ar
E pensa saber amar.
Heis o Sonhador...
Heis o Sonhador
Que pensa nas flores frágeis e formosas;
Heis o Sonhador
Que caminha pelo campo em sorrisos;
Heis o Sonhador
Que confia em seus grandes amigos;
Heis o sonhador...
Heis o sonhador
Que insiste em sonhar;
Heis o sonhador
Que procura o momento de acordar...
1 035
Maurício Batarce
Um Rumar
Com pés descalços, olhos de luz
E um sorriso estampado no rosto,
O menino caminhava
Por entre estrepes no solo.
Como querendo chegar
Ao fim do arco-íris,
Mesmo sabendo que não conseguiria,
Andava a passos firmes e cautelosos.
Olhar voltado para o infinito,
O menino ouvia o rumor da brisa
Em sua face rósea.
Mandava beijos para o sol
E prosseguia em sua jornada...
Pouco-a-pouco
Seus pés deixaram de tocar o solo
E milhões de cores
Iluminaram seu voar-andando.
Depois pisou na relva macia,
Ganhou um pote-de-ouro,
Encontrou gnomos
E conviveu com várias fadas.
Nadou no espelho de sua vida
E acabou se encontrando...
A luz de seu olhar
Iluminou o mundo
E com passos de sonho,
Acordou no mundo real.
Sua jornada acabou
E ele chegou em seu fim...
E um sorriso estampado no rosto,
O menino caminhava
Por entre estrepes no solo.
Como querendo chegar
Ao fim do arco-íris,
Mesmo sabendo que não conseguiria,
Andava a passos firmes e cautelosos.
Olhar voltado para o infinito,
O menino ouvia o rumor da brisa
Em sua face rósea.
Mandava beijos para o sol
E prosseguia em sua jornada...
Pouco-a-pouco
Seus pés deixaram de tocar o solo
E milhões de cores
Iluminaram seu voar-andando.
Depois pisou na relva macia,
Ganhou um pote-de-ouro,
Encontrou gnomos
E conviveu com várias fadas.
Nadou no espelho de sua vida
E acabou se encontrando...
A luz de seu olhar
Iluminou o mundo
E com passos de sonho,
Acordou no mundo real.
Sua jornada acabou
E ele chegou em seu fim...
743
Marcão de Barros
Haicai
Gato faminto,
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.
Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.
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