Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Vicente de Carvalho
A Ternura do Mar
No firmamento azul, cheio de estrelas de ouro
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 038
Sebastião Uchoa Leite
Tiranossauro, Penso em Ti
Há 100 milhões de anos
Apoiado na cauda
Dentes em serra o Terror
Dos ornitisquianos
Grande réptil predatório
A vida muda
Passou rápido o tempo
Em alegoria giratória
Penso em outros predadores
E também nas presas
Nos devorados
Nos vencidos
1989
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
Apoiado na cauda
Dentes em serra o Terror
Dos ornitisquianos
Grande réptil predatório
A vida muda
Passou rápido o tempo
Em alegoria giratória
Penso em outros predadores
E também nas presas
Nos devorados
Nos vencidos
1989
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 295
Mário Faustino
Carpe Diem
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 778
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Fonte
Passado, sombra de uma nuvem
na água trêmula
Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
na água trêmula
Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 131
Carlos Nejar
Mora Judicial
Demorou o processo
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
1 137
Mário Faustino
Não Quero Amar o Braço Descarnado
Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
À luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e morte em que me deito
À luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a Morte chama ao longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 475
Fernando Paixão
91 [Não se revê a imagem
Não se revê a imagem
do espelho
na mesma lâmina.
Não se vê a mulher
duas vezes
com o mesmo espanto.
Não se vê o outro
em si próprio:
à procura do mesmo.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.60
NOTA: Poema concebido a partir do fragmento 91 do filósofo Heráclito: "Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se
do espelho
na mesma lâmina.
Não se vê a mulher
duas vezes
com o mesmo espanto.
Não se vê o outro
em si próprio:
à procura do mesmo.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.60
NOTA: Poema concebido a partir do fragmento 91 do filósofo Heráclito: "Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se
1 450
Alberto da Costa e Silva
Triste Vida Corporal
Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.7
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.7
1 537
Carlos Felipe Moisés
O Sol Quando
O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
1 081
Joaquim Cardozo
Aves de Rapina
Há muitos anos que os caminhos se arrastavam
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
2 944
Lila Ripoll
Canção de Agora
Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.
Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.
Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.
Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.
Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
2 342
Alcides Villaça
Viagem Antiga
Havia vezes eu me via
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
1 541
da Costa e Silva
As Horas
As Horas cismam no ar parado:
— Passado.
As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.
As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.
Publicado no livro Verônica (1927). Poema integrante da série Imagens da Vida e do Sonho.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.24
— Passado.
As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.
As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.
Publicado no livro Verônica (1927). Poema integrante da série Imagens da Vida e do Sonho.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.24
1 919
Ronald de Carvalho
Anoitece
Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 030
Armando Freitas Filho
Vou gota a gota
Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 310
Armando Freitas Filho
O que se lê, ali
O que se lê, ali
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
1 154
Nelson Ascher
Onde Há Fumaça
"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 074
Eudoro Augusto
78 [a uva da luxúria depois de seca
a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa
dizem
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
dá uma passa deliciosa
dizem
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
931
Eunice Arruda
Sentença
Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas
E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
971
Max Martins
Isto por Aquilo
Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa
Ou isto
(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade
o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
— ruídos
Belém, maio 84
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.74. (Verso & reverso, 2
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa
Ou isto
(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade
o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
— ruídos
Belém, maio 84
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.74. (Verso & reverso, 2
1 225
Antônio Barreto
Ária de América por um Antigo Marinheiro
Árvore ser de alvorecer e sendo
assim em raiz em nua face e foice
(alvorossonho foi-se, mente e lavra)
que de tão-somente semeou palavra
Por de onde sol anzolazul em céu
de peixe e mar esculpido e pronto
: frontisprefácio : em seta dor dedilha
a ária em arpa : peixe arpoador
arma da terra ameri ca me tengo
mi na vida nota cor de lheira
por de onde ondeias oceano
a tantas noites a tlanti cais me vengo
atlantas noches de mandar te andes
e ar vou ser em nada: serenata
peixe tecla dor de pescantar
anzolazul em punho, espada nua e n'antes
morrer de américa os relógios de neruda.
In: BARRETO, Antônio. O sono provisório. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978. p.38. Poema integrante da série Fantasias da Fala
assim em raiz em nua face e foice
(alvorossonho foi-se, mente e lavra)
que de tão-somente semeou palavra
Por de onde sol anzolazul em céu
de peixe e mar esculpido e pronto
: frontisprefácio : em seta dor dedilha
a ária em arpa : peixe arpoador
arma da terra ameri ca me tengo
mi na vida nota cor de lheira
por de onde ondeias oceano
a tantas noites a tlanti cais me vengo
atlantas noches de mandar te andes
e ar vou ser em nada: serenata
peixe tecla dor de pescantar
anzolazul em punho, espada nua e n'antes
morrer de américa os relógios de neruda.
In: BARRETO, Antônio. O sono provisório. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978. p.38. Poema integrante da série Fantasias da Fala
1 232
Moacyr Felix
Porque
A Márcia e Jorge Vanderley
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
1 278
Antônio Barreto
A Sombra
Estou atrasado, lá vou eu correndo
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
2 088
Raimundo Correia
O Vinho de Hebe
Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
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