Tempo e Passagem
Wisława Szymborska
Gente na ponte
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:
Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.
O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.
É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.
Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.
Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:
Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.
Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.
Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
Horst Bienek
A época seguinte
Lúcio Cardoso
o existir contínuo e líquido
(de Crônica da Casa Assassinada)
Max Martins
O caldeirão
que se abrem e fecham
fecham e abrem
carcomidas)
.....................ferve
a gordura e as unhas das palavras
seu licor umbroso, teus remorsos-pêlos
.....................Ferve
e entorna o caldo, quebra o caldeirão
.....................e enterra
teu faisão de jade do futuro
teu mavioso osso do passado
Agora que a madeira e o fogo de novo se combinam
e o inimigo nº 1 já não te enxerga
.....................ou vai-se embora
varre a tua cabana e expõe ao sol tua língua
tua esperança tíbia
.............o tigre da Coréia da parede
É lícito tomar agora a concubina
E despentear na cama a lua escura, o ideograma
Lalla Romano
Se é verdade que o gelo
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos
As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado
Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
:
Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi
Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato
Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente
Jaime Gil de Biedma
Voltar
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
Lalla Romano
O outono é um rei que dá sua última festa
se desfazem, lânguido é o lampejar
dos ouros
mas que importa?
pois que o rei a cada um já deu sua quota
distribuiu os frutos e as sementes
e desta riqueza é hora agora de gozar:
Nada será guardado
na solidão
do recolhimento e na pobreza deseja o rei
esperar a morte
:
L'autunno è un re che dà l'ultima festa
Sono stinti gli arazzi e ormai consunti
i bei broccati, languido è il brillìo
degli ori
ma che importa?
poichè già diede il re a ciascuno il suo
distribuì i frutti e le seminagioni
e di questa ricchezza ora si goda:
Nulla sarà riposto
in solitario
raccoglimento e in povertà la morte
vuole aspettare il re
Orpingalik
Meu fôlego
Abū al-Qāsim ash-Shābbī
A estranha narrativa
Vasco Graça Moura
As aves migram em Setembro
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.
escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola
até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui
de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
Octavian Paler
Autorretrato ante o espelho quebrado
Donizete Galvão
Fachada
Luís Filipe Castro Mendes
A CAMILO PESSANHA, PASSANDO EM JAIPUR
Herberto Helder
As Musas Cegas - I
Em noites assim eu extinguiria minha alma
cantando humildemente. Fecharia os olhos
sob os anéis dos astros, e entre os violinos
e os fortes poços da noite descobriria
a ardente ideia da minha vida.
Em noites assim amaria o fogo
da minha idade. Cantaria como um louco este grande
silêncio do mundo, vendo queimarem-se nas trevas
as vísceras tensas e os ossos e as flores dos nervos
e a cândida e ligeira arquitectura
de uma vida.
Bruxelas com as traves da minha cabeça
e uma grinalda de carvões em torno dos testículos
de um homem
bêbado da sua idade. Cantaria com esses testículos
negros, as lágrimas, o coração ao meio do nevoeiro
derramando o seu baixo e aéreo sangue,
a sua dor, o lírico
fervor, o fogo de porta entre os símbolos nocturnos.
Era tão pura a ideia de que o tempo começava
depois do verde e fértil e exaltado
mês da carne. Vergada sobre o livro onde o meu rosto
ardia,
a vida esperava com suas torres
vibrantes, seus grandes lagos
límpidos. E eu adormecia
e sonhava um homem em voz alta, um vidro
i ncandescente, uma fina flor
vermelha colocada sobre a mesa. Era tão violenta
a ideia de cantar sem fim,
até que a voz consumisse esta garganta sombreada
de estreitos vasos puros.
— Cantar fixa e fria e intensamente
sobre a minha rasa
luminosa vida, ou sobre os campos transparentes e sombrios
de bruxelas do mundo.
Luís Filipe Castro Mendes
Glosa a uns versos de Nemésio
Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?
Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?
Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.
Maria Azenha
quase tudo foi escrito
grandes homens o fizeram muito antes
e da melhor maneira
mesmo assim surpreende-me o milagre da luz nos dedos
na escrita contínua da areia
precipitando mares impossíveis
e asteróides em chama
pela imprevisibilidade
acho ser possível acrescentar ou suprimir uma vírgula
ao lugar vazio do texto
ou retirar talvez algum ponto de interrogação ao deserto
onde navegamos em frágeis barcos de sombra
é ainda razoável
cantarmos a solidão juntos
e todavia tudo isto
não deve durar mais do que um instante
Aníbal Machado
Consumimos
Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados.
E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida.
Viver é o mesmo que preparar-se para viver.
Ana Paula Ribeiro Tavares
Cerimónia de Passagem
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Machado de Assis
A Elvira
Tu, pensativa e muda, e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando às solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
— Tão só eu, — teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, — e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?"
Dizes tu. "Vem, confia os teus pesares...
"Fala! eu abrandarei as penas tuas!
"Fala! eu consolarei tua alma aflita!"
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura coo tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então: "Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas."
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.50. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Tradução do poema "A El***", de Lamartine, do livro NOUVELLES MÉDITATIONS POÉTIQUES (Novas Meditações Poéticas
Alberto de Oliveira
A Cancela da Estrada
Constantemente.
Cavaleiro, à disparada,
Lá vai no cavalo ardente.
Cavaleiro em descuidada
Marcha, lá vem indolente.
Passa, ondeia levantada
A poeira, toldando o ambiente.
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Bate, e exaspera-se e brada
Ou chora contra o batente:
(Ninguém lhe ouve na arrastada,
Roufenha voz o que sente)
— "Minha vida desgraçada
Repouso não me consente;
Vivo a bater nesta estrada
Constantemente."
Moços, moças, de tornada
De alguma festa, em ridente
Chusma inquieta e alvoroçada,
Passaram ruidosamente.
Desta inda se ouve a risada,
Daquele o beijo... Plangente
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Agora, é noiva coroada
De capela alvinitente;
Segue o noivo a sua amada,
Um carro atrás, outro à frente.
Agora, é uma cruz alçada...
Um enterro. Quanta gente!
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Bate ao vir a madrugada,
Bate, ao ir-se o sol no poente;
(Das sombras pela calada
Seu bater é mais dolente)
Bate, se é noite enluarada,
Se escura é a noite e silente;
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Nossa vida é aquela estrada,
Com os que passam diariamente
E após si da caminhada
A poeira deixam somente.
Coração, como a cansada
Cancela de som gemente,
Bates a tua pancada
Constantemente.
Publicado no livro Poesias, 1912/1925: quarta série (1927). Poema integrante da série Alma e Céu.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. v.3. (Fluminense
Machado de Assis
Musa Consolatrix (Vária)
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Livro do Mês, 1959. (Obras completas de Machado de Assis
Eduardo Guimaraens
Romança
suave o sol... amanhecia.
Dos seus róseos beijos o dia
cobria a terra moça à espera
do último abraço... Dentre as flores
e as borboletas furtacores,
vi-te. Era o templo dos amores...
Nascia então a primavera.
Veio depois o estio. Dava
sede ao campo o sol que abrasava.
Dezembro tinha tons de lava...
Também ardia o coração!
Revi-te. E foi, quase fremente,
como um capricho de doente:
dar trégua à minha boca ardente
sobre o frescor da tua mão!
Dos céus de abril, graça e frescura,
surgiu mais tarde a azul doçura,
havia no ar uma candura
divina... E pelo espaço, pelo
mundo errava o grave abandono
dessa hora que precede o sono...
Dourava as árvores o outono...
E o sol da tarde o teu cabelo.
Veio afinal o inverno. Veio...
Quedou vazio o ninho cheio.
Palpitou, mas só, cada seio!
Julho passou... Não te revi.
Que triste aquela claridade!
Tremi... tremi, sem piedade.
Não de frio, mas de saudade...
Porque era frio estar sem ti.
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Canto da Terra Natal
Paulo Leminski
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
Publicado no livro Polonaises (1980).
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
Tomás Antônio Gonzaga
Lira IV
loiro cabelo, que circula a testa;
este mesmo, que alveja, vai caindo,
e pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas cores,
e vão-se sobre os ossos enrugando,
vai fugindo a viveza dos meus olhos;
tudo se vai mudando.
Se quero levantar-me, as costas vergam;
as forças dos meus membros já se gastam;
vou a dar pela casa uns curtos passos,
pesam-me os pés e arrastam.
Se algum dia me vires desta sorte,
vê que assim me não pôs a mão dos anos:
os trabalhos, Marília, os sentimentos
fazem os mesmos danos.
Mal te vir, me dará em poucos dias
a minha mocidade o doce gosto;
verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
voltar a cor ao rosto.
No calmoso Verão as plantas secam;
na Primavera, que aos mortais encanta,
apenas cai do Céu o fresco orvalho,
verdeja logo a planta.
A doença deforma a quem padece;
mas logo que a doença faz seu termo,
torna, Marília, a ser quem era d'antes
o definhado enfermo.
(...)
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5