Lista de Poemas

Pais e Filhos

Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora:
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês ?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Me diz porque é que o céu é azul
Me explica a grande f£ria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Sou uma gota dágua
Sou um grão de areia
Você diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo:
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer ?

2 078

Música Urbana 2

Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
Cantam música urbana,
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
É só música urbana.

Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana.
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.

O vento forte seco e sujo em cantos de concreto
Parece música urbana
E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.

Os uniformes
Os cartazes
Os cinemas
E os lares
Nas favelas
Coberturas
Quase todos os lugares

E mais uma criança nasceu.

Não há mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana.

733

Tempo perdido

Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.

Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.

2 289

Metrópole

"É sangue mesmo, não é mertiolate".
E todos querem ver
E comentar a novidade
"É tão emocionante um acidente de verdade".
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre
Vai passar na televisão.

"Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento -
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.
Todos com a documentação.
Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver.
Ordens são ordens.
Em todo caso, já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
Prá limpar todo esse sangue, chamei a faxineira -
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão".

884

1965 (Duas Tribos)

Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima

1 326

Plantas embaixo do aquário

Aceite o desafio e provoque um desempate:
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo -
Faça do bom-senso a nova ordem;
Não deixe a guerra começar.

Pense só um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:
Não deixe a guerra começar.

894

Eu era um lobisomem juvenil

Luz e sentido e palavra -
Palavra é o que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando quando a luz voltou
Não falo como você fala
Mas vejo bem o que você me diz
Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão ?
O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é que não consigo
Ver sentido no que sinto, o que procuro
O que desejo e o que faz parte do meu mundo
O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora e volta:
Todos têm
Todos têm suas próprias razões
Qual foi a semente que você plantou ?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante,
Todo dia vai ser o dia mais importante
Se você quiser alguém prá ser só seu
É só não se esquecer: estarei aqui
Não digo nada, espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei - o que você me falou
Me fez rir e pensar
Por que estou preocupado por estar tão preocupado assim ?
Mesmo se eu cantasse todas as canções
Todas as canções
Todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato mas,
Se você quiser alguém prá ser só seu
É só não se esquecer: estarei aqui
Ou então não terás jamais a chave do meu coração

1 457

Índios

Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo o ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
Tentei chorar e não consegui.

1 680

Andrea Doria

Às vezes parecia que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo,
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro.

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente,
Quase parecendo te ferir.

Não queria te ver assim -
Quero a tua força como era antes.
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada.

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,
Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
Vendendo fácil o que não tinha preço.

Eu sei - é tudo sem sentido.
Quero ter alguém com quem conversar,
Alguém que depois não use o que eu disse
Contra mim.

Nada mais vai me ferir.
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que segui
Com a minha própria lei.
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais,
Como sei que tens também.

1 377

Fábrica

Nosso dia vai chegar,
Teremos nossa vez,
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço -
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo ?
Quem guarda os portões da fábrica ?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
E o que era verde aqui já não existe mais.
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar com fogo.

Que venha o fogo então

Esse ar deixou minha vista cansada,
Nada demais.

1 300

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Identificação e contexto básico

Renato Manfredini Júnior, mundialmente conhecido como Renato Russo, foi um cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro e faleceu em São Paulo. Era filho de Renato Manfredini e Maria do Carmo Manfredini. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita era o português. É amplamente reconhecido como o líder e principal letrista da banda Legião Urbana.

Infância e formação

Renato Russo passou a infância e adolescência no Rio de Janeiro, onde estudou em colégios tradicionais. Desde cedo, demonstrou um grande interesse por música e literatura, especialmente pela poesia e pelo rock 'n' roll. Aos 11 anos, foi diagnosticado com epifisiólise, uma doença óssea rara que o levou a usar muletas por um tempo e o afastou de atividades físicas, intensificando seu contato com livros e música.

Percurso literário

O percurso de Renato Russo na música começou a ganhar forma na década de 1970, quando teve contato com o movimento punk e o rock britânico. Na década de 1980, fundou a Legião Urbana, tornando-se o principal compositor e letrista da banda. Sua escrita evoluiu de temas mais introspectivos e existenciais para uma poesia urbana e socialmente engajada, abordando as angústias e os questionamentos da juventude.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Renato Russo é vasta e diversificada, com destaque para as letras compostas para a Legião Urbana, mas também para sua carreira solo. Seus temas centrais incluem o amor em suas diversas facetas, a crítica social e política, a solidão, a busca por identidade, a esperança e o desespero. Utilizou uma linguagem poética direta, porém profunda, com metáforas e referências culturais que ressoavam com o público jovem. Seu estilo é marcado pela melancolia, pela intensidade emocional e por uma capacidade ímpar de traduzir sentimentos complexos em versos acessíveis. A voz poética de Renato Russo era frequentemente confessional, mas com alcance universal, tocando em questões existenciais que transcendem o individual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Renato Russo emergiu no cenário musical brasileiro em um período de redemocratização do país, após anos de ditadura militar. A Legião Urbana, com suas letras contestadoras e poéticas, tornou-se porta-voz de uma geração que buscava expressão e liberdade. A banda dialogava com outros artistas e movimentos musicais da época, como o rock brasileiro dos anos 80, mas também com influências do punk, pós-punk e new wave internacionais. Sua música refletia as transformações sociais e políticas do Brasil, ao mesmo tempo em que explorava temas universais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Renato Russo foi marcada por sua discrição e pela intensidade de suas paixões. Sua relação com a música era central em sua existência, mas também era um grande leitor e apreciador de arte. Viveu um relacionamento homoafetivo significativo, embora tenha sido um tema raramente abordado publicamente na época. Sua luta contra o vício em drogas e, posteriormente, contra o HIV, foram aspetos que, embora dolorosos, não o impediram de continuar produzindo e se expressando artisticamente. Sua posição política era de crítica ao sistema e de defesa de valores humanistas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Renato Russo alcançou um sucesso estrondoso em vida, tornando-se um dos artistas mais populares do Brasil. A Legião Urbana vendeu milhões de discos e lotou estádios por todo o país. Após sua morte, seu legado se consolidou ainda mais, com suas músicas sendo regravadas por diversos artistas e mantendo uma forte conexão com o público. É amplamente reconhecido como um dos maiores letristas da música brasileira e um ícone cultural.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Renato Russo foi influenciado por artistas como Bob Dylan, The Smiths, Joy Division, e poetas como Arthur Rimbaud. Seu legado é imenso: ele influenciou inúmeros músicos e compositores brasileiros e se tornou uma referência para gerações de fãs que se identificam com suas letras e sua mensagem. A Legião Urbana é considerada uma das bandas mais importantes da história da música brasileira, e suas canções continuam a ser hinos para muitos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As letras de Renato Russo são ricas em camadas de significado, permitindo diversas interpretações. Seus versos sobre amor e desilusão, por exemplo, são universalmente reconhecidos. Críticos apontam sua capacidade de traduzir a angústia juvenil e o desencanto com a sociedade em canções cativantes. Sua poesia é frequentemente analisada sob a ótica da existencialismo e da busca por sentido em um mundo complexo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Renato Russo era um ávido leitor e colecionador de discos. Ele também era conhecido por sua timidez e introspecção fora dos palcos. Uma curiosidade é que ele era fluente em inglês e francês, línguas que utilizava em algumas de suas composições e em suas referências culturais. Seus cadernos de anotações eram repletos de rascunhos de letras, poemas e reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Renato Russo faleceu em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos, em decorrência de complicações causadas pela AIDS. Sua morte causou grande comoção nacional. Publicações póstumas, como o livro "Renato Russo - O Trovador Solitário", e a continuidade do legado da Legião Urbana mantêm viva a memória e a obra do artista.