Do Canto X:
Pós-Legômenos
lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,
na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.
e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.
Do Canto V:
Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
Soneto da Amada
vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
Do Canto VII:
Viagem de Retorno e Reencontro de SI, Seu Lenitivo:
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
Crer Diário
Prólogo Menos:
3
o que o CRER DIÁRIO diz
o CREDIÁRIO não faz
no CRER: a cara do CREDOR
no CRÉDULO: A DO CREDULIÁRIO
no CREDIÁRIO: o perdulário
no CRER DIÁRIO: o escapulário.
Poema do Bom Pastor
cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
Do Canto VI:
Ao Redor do Homem:
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado
Do Canto I:
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
Memórias da Cidade
De São Sebastião do Rio de Janeiro
uma cidade aos pedaços:
um trecho aqui, outro lá,
impossíveis de mapear
na memória adventícia.
uma cidade aos pedaços:
viadutos estendidos,
curvos e bem retesados
e suspensos sobre rios
invisíveis, que desembocam
em nada, mas que vez por outra
dão com túneis que os engolem
na embocadura dos morros.
uma cidade debrum:
maritimamente orlada,
Flamengo, Botafogo etc.
imbricando-se em toda a volta.
impossível saber de cor
essa estranha geografia,
cujos pedaços só os mapas
seguramente memorizam.
Do Canto VIII:
O Cabo das Tormentas:
Minúsculos Adamastores e um Mundo Coberto de Pó
nesses olhos me revejo
na eterna insônia das noites,
giz me descreve letárgico
mundo coberto de pó.
povoe-me sonhos em sono,
mas não constitua herança,
pavana, espelho ou ocaso
aos olhos dessa criança.
momentos tredos e ledos
apascentam o giz nutriz
que me seduz como fora
trevo enredo ou flor-de-lis.