Lista de Poemas

Do Canto X:

Pós-Legômenos

lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,

na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.

e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.

955

Memórias da Cidade

De São Sebastião do Rio de Janeiro

uma cidade aos pedaços:
um trecho aqui, outro lá,
impossíveis de mapear
na memória adventícia.

uma cidade aos pedaços:
viadutos estendidos,
curvos e bem retesados
e suspensos sobre rios

invisíveis, que desembocam
em nada, mas que vez por outra
dão com túneis que os engolem
na embocadura dos morros.

uma cidade debrum:
maritimamente orlada,
Flamengo, Botafogo etc.
imbricando-se em toda a volta.

impossível saber de cor
essa estranha geografia,
cujos pedaços só os mapas
seguramente memorizam.

809

Hora da Morte

7

a coisa:a casa,
a luta contra o casoo dobro do pensar
o ocaso:o caso:

cada coisa em seu lugara dobra do penso lar
o acasoa casa
a coisa em sua casao cobro do comprar

o quase:
o qual dobro penso ar
o caso:
o qualquer logro pendurar
o quase:
o modo loquaz a par
o caso:
o quasimodo sem modo.

763

Artimanha Calendária

4

quanto mais terno o mês
mais terno o coração do freguês

quanto mais terno o freguês
mais materno é o mês

mais mês menos mês mais materna a vez
e o freguês ao olhar do credor mais temo.

5

o cliente nefelibata:
o crer ente do ter sem ser
a cliência ônus-ciente
e o CRER/SER
da onisciência credora
o conceituário menstrual
e a cada mês
o ovo de Colombo

no lombo do otário
o ovo sobre o biombo
e o vôo de Colombo.

985

Poema do Bom Pastor

cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje

o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade

Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios

Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas

Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça

Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.

1 803

Crer Diário

Prólogo Menos:
3

o que o CRER DIÁRIO diz
o CREDIÁRIO não faz

no CRER: a cara do CREDOR
no CRÉDULO: A DO CREDULIÁRIO

no CREDIÁRIO: o perdulário
no CRER DIÁRIO: o escapulário.

1 001

Ciranda da Vida

10

faz da forma o formão
pinta / carpe a empreita

faz da lima o limão
firma / malha / corre ponto

faz da liça a lição
logra / liga a espreita

faz do fuso a fusão
quinas / cana / fusa fuzuê
e a gana de ensinar

faz do fogo o fogão
bota / joga / faz o jogo
e o bota-tira botijão

faz da fila o filão
fila / finta / dribla o jogo
o dia crê e tenta ação.

826

Poemas dos meus Sapatos Marrons

(Novamente Engraxados)

Um par de sapatos, que vida não leva!

Ontem, o meu cartou alto:
pisou casa de menina lorde
foi acariciado com o mimo
vermelho do tapete.

Inda me lembro como anoitecera
rabugento anteontem.
De manhã, antes de sairmos
lavei-lhe a cara com a escova.

Hoje, foi um dos seus dias mais tristes:
meteu-se numa poça dágua sem querer
pisou uma rã morta
e estalou uma barata.

943

Elegia do Coentro

o canteiro não o faz mais verde
namoram-lhe as sementes os pássaros
cuidado de mulher o ajeita
do vento que o entortou

vegetal de vida útil e breve
que nasce verde e verde morre
não lhe será longa a vida
as folhas amarelecendo

coentro, tempero de alguns
destempero de si próprio
utilidade verde da vida
brevidade verde de si mesmo.

1 577

Soneto da Amada

vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença

vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios

vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno

vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.

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Identificação e contexto básico

Rogério de Almeida Bessa foi um poeta, professor e crítico literário português. Pseudónimo: "Albuquerque"

Infância e formação

Nasceu em Lisboa. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Germânica e, posteriormente, em Filologia Românica.

Percurso literário

Rogério Bessa iniciou a sua atividade literária no contexto do Modernismo português. Foi uma figura ativa na vida cultural e literária, colaborando em diversas publicações e antologias. A sua obra poética é conhecida pela sua musicalidade e pela exploração de temas do quotidiano e da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Rogério Bessa é marcada por uma forte influência do Modernismo, com ênfase na musicalidade, no ritmo e na exploração de uma linguagem coloquial, mas ao mesmo tempo elaborada e expressiva. Os temas centrais da sua obra incluem a cidade, a solidão, o amor, a passagem do tempo e a reflexão sobre a condição humana, muitas vezes abordados com um tom lírico, por vezes melancólico, mas também com momentos de ironia. A forma poética em Bessa tende a privilegiar o verso livre, mas com uma estrutura interna bem definida e uma sonoridade cuidada. A sua linguagem é muitas vezes densa em imagens e procura captar a experiência moderna. Foi associado ao movimento neo-realista, embora a sua obra apresente particularidades que a distinguem.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rogério Bessa viveu e produziu a sua obra durante um período de efervescência cultural em Portugal, especialmente ligado ao Modernismo. Como professor e crítico, esteve envolvido com o meio intelectual e literário da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Foi professor de Português e de Francês no ensino secundário. Dedicou-se também à crítica literária, publicando estudos sobre autores contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Rogério Bessa, embora por vezes menos visível que a de outros contemporâneos, é reconhecida pela sua qualidade e originalidade. A sua poesia é valorizada pela sua musicalidade e pela sua capacidade de expressar a complexidade da vida moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelas correntes modernistas, Bessa desenvolveu um estilo próprio que marcou a poesia portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética e na sua sensibilidade para os temas da vida contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Rogério Bessa tem sido analisada sob a perspetiva da sua ligação ao Modernismo e ao Neo-realismo, destacando-se a sua capacidade de conciliar a experimentação formal com a profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Colaborou com o pseudónimo "Albuquerque".

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Rogério Bessa faleceu, mas a sua obra continua a ser lembrada e estudada como parte importante da poesia portuguesa do século XX.