Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919–2004 · viveu 84 anos PT PT

Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma das mais proeminentes poetisas da língua portuguesa, conhecida pela sua lírica depurada, pela clareza do pensamento e pela profunda ligação com a Grécia Antiga e a natureza. A sua obra poética é marcada por uma constante busca pela justiça, pela beleza e pela verdade, explorando temas universais como o amor, a morte, o tempo e a condição humana, sempre com um olhar voltado para a redenção e a esperança. Sua poesia é reconhecida pela sua força moral e pela elegância formal, combinando a tradição com uma linguagem contemporânea e acessível, o que a tornou uma figura incontornável na literatura portuguesa do século XX e XXI.

n. 1919-11-06, Porto · m. 2004-07-02, Lisboa

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A Hora da Partida

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Sophia de Mello Breyner Andresen, nome completo de Sophia de Mello Breyner Andresen, nasceu em Lisboa. Utilizou apenas o seu nome de baptismo como autora. A sua origem familiar pertencia à alta burguesia, com ligações à nobreza, e o seu pai era um homem de grande cultura e intervenção política. A sua nacionalidade era portuguesa e escreveu exclusivamente em língua portuguesa. Viveu grande parte do século XX e início do século XXI, um período de intensas transformações políticas e sociais em Portugal e no mundo.

Infância e formação

Passou a infância e juventude em Cascais, num ambiente familiar que valorizava a cultura, a leitura e o contacto com a natureza, elementos que viriam a ser centrais na sua obra. A sua formação foi marcada por uma educação humanista e pela forte influência dos pais. Teve contacto com a literatura clássica grega, a filosofia e a cultura europeia desde cedo, além de uma profunda ligação com a paisagem marítima da sua infância. Este ambiente propiciou um espírito crítico e uma sensibilidade artística apurada.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se precocemente, mas a publicação do seu primeiro livro, 'Dia do Mar', ocorreu em 1947, um marco na poesia portuguesa. Ao longo da sua carreira, a sua obra evoluiu, mantendo uma notável coerência temática e estilística, focada na clareza, na denúncia da injustiça e na exaltação da beleza. Publicou regularmente livros de poesia, mas também obras de ficção e ensaio. Colaborou em diversas publicações culturais ao longo da sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras principais, destacam-se 'Dia do Mar' (1947), 'Coral' (1950), 'O Livro Sexto' (1962) e 'Geografia' (1967). Os temas dominantes na sua obra incluem a beleza do mundo, a natureza (especialmente o mar), a justiça, a liberdade, a condição humana, a morte e a memória. A sua forma poética tende à clareza e à depuração, utilizando frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um ritmo marcantes. A metáfora é um recurso expressivo central, mas sempre ao serviço da comunicação de uma ideia ou sentimento. O tom da sua poesia é frequentemente lírico, mas também interventivo e moralmente elevado. A sua linguagem é precisa, límpida e imagética, sem excessos ornamentais. A obra de Sophia de Mello Breyner Andresen dialoga com a tradição clássica e a poesia europeia, mas insere-se plenamente no Modernismo português, aportando uma voz única focada na ética e na estética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sophia viveu e escreveu num período de grandes convulsões em Portugal, nomeadamente o Estado Novo, contra o qual se posicionou abertamente, defendendo a liberdade e a justiça. A sua obra reflecte essa intervenção cívica e moral. Manteve relações com importantes figuras da cultura portuguesa, como a sua geração de poetas modernistas. A sua poesia, embora ligada a uma tradição, procurou sempre uma dimensão universal e de intervenção.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou com o jornalista e político Francisco de Portugal, com quem teve cinco filhos. A sua vida foi marcada por uma forte ligação familiar e pela sua atuação cívica e política. Manteve amizades com muitos intelectuais e artistas da sua época. A sua casa, em Lisboa e posteriormente em Sintra, foi um centro de tertúlias culturais. A sua crença na força da palavra e na busca da verdade marcou a sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sophia de Mello Breyner Andresen é amplamente reconhecida como uma das maiores poetisas da língua portuguesa. Recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo da sua vida, incluindo o Prémio Camões. A sua obra tem sido objeto de estudo académico e a sua popularidade estende-se por várias gerações.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada pela poesia clássica grega, pela Bíblia, por poetas como Fernando Pessoa e por filósofos como Platão, Sophia influenciou por sua vez diversas gerações de poetas em Portugal e no Brasil. O seu legado reside na sua poesia de profunda humanidade, na sua exigência ética e na sua beleza formal, que continua a inspirar leitores e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sophia tem sido objecto de diversas interpretações, focando-se na sua dimensão ética e estética, na sua relação com o pensamento grego e na sua capacidade de transfigurar o real através da palavra. A universalidade dos seus temas e a clareza da sua mensagem conferem-lhe uma profundidade filosófica e existencial notável.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso é a sua forte ligação com a Grécia, que ia além da influência literária, chegando a conhecer pessoalmente figuras importantes da cultura grega. A sua casa em Lisboa era conhecida pelas suas reuniões informais com amigos e intelectuais. A sua dedicação à poesia era vista como uma missão de vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu em Lisboa. A sua morte foi sentida como a perda de um pilar da cultura portuguesa. A sua obra continua a ser amplamente divulgada, lida e estudada, mantendo viva a sua memória e o seu legado.

Poemas

685

Lagos I

«Un jour à Lagos ouverte sur la mer comme l’autre Lagos»
Senghor
Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores — é sabido — não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta
Lagos, 20 de Abril de 1974
3 830

No Meu País

As pequenas cidades intensas
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
1 517

Encruzilhada

Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
2 196

Nardo

Nardo
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
1 956

Os Asphodelos

Colhe pálida sombra os asphodelos
Roxos do prado onde caminha a vida
Cujo destino foi só não ser vivida
Põe coroas de pranto em teus cabelos
1 805

Caminhava Fito

Caminhava fito,
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava.
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.
1 953

Cante Jondo

Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.
2 226

Barcos

Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.
2 504

Dedicatória da Segunda Edição do «Cristo Cigano» a João Cabral de Melo Neto

I

João Cabral de Melo Neto
Essa história me contou
Venho agora recontá-la
Tentando representar
Não apenas o contado
E sua grande estranheza
Mas tentando ver melhor
A peculiar disciplina
De rente e justa agudeza
Que a arte deste poeta
Verdadeira mestra ensina
II

Pois é poeta que traz
À tona o que era latente
Poeta que desoculta
A voz do poema imanente

Nunca erra a direcção
De sua exacta insistência
Não diz senão o que quer
Não se inebria em fluência

Mas sua arte não é só
Olhar certo e oficina
E nele como em Cesário
Algo às vezes se alucina

Pois há nessa tão exacta
Fidelidade à imanência
Secretas luas ferozes
Quebrando sóis de evidência
1 777

Sibilas

Sibilas no interior dos antros hirtos
Totalmente sem amor e cegas,
Alimentando o vazio como um fogo
Enquanto a sombra dissolve a noite e o dia
Na mesma luz de horror desencarnada.

Trazer para fora o monstruoso orvalho
Das noites interiores, o suor
Das forças amarradas a si mesmas
Quando as palavras batem contra os muros
Em grandes voos cegos de aves presas
E agudamente o horror de ter as asas
Soa como um relógio no vazio.
2 248

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Comentários (42)

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Erica cristina
Erica cristina

tenho tanto sentido a cada frases

Erasmos
Erasmos

Poetisa que deu a magia nos co tos da minha i fancia!

José
José

foi uma grande escritora /poeta e é pena que não esteja entre nós :(

maria isabel
maria isabel

tao admirador

Fátima
Fátima

Amei o poema