O silêncio
Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e deitou-a no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou pratos, colheres, garfos e facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.
As suas mãos tinham ficado ásperas, estava cansada de estar de pé e doíam-lhe um pouco as costas. Mas sentia dentro de si uma grande limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce noite de Verão, um cipreste ondulava brandamente.
O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e o tumulto do dia repousavam.
Havia um grande sossego. Tudo estava arrumado e o dia estava pronto.
E Joana atravessou devagar a sua casa.
Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no escuro e surgiam do escuro na claridade.
Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.
O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio esculpia os volumes, recortava as linhas, aprofundava os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.
As coisas conhecidas - o muro, a porta, o espelho - mostravam uma por uma a sua beleza e a sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.
Joana deu lentamente a volta à sala. Tocou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.
As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centro dessa atenção. Sempre o procurara, mas quem o pode captar?
O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas.
E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimento imperceptível tomava em si a ordem e o silêncio da casa.
Com as mãos tocando a parede branca Joana respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade: Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.
A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das coisas era uma grafia, uma escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.
Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noite.
As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse necessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo inteiro.
E ela habitava essa unidade, estava presente e viva na relação das coisas e a própria realidade atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.
No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felicidade e essa felicidade era no seu centro unidade.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito.
Uma leve brisa agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o sino bateu duas badaladas. Foi então que se ouviu o grito.
Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sala, os ramos do cedro.
Joana virou-se na janela. Houve uma pausa. Um pequeno momento imóvel, suspenso, hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro lado da casa. Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em grito se ia desformando, desfigurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a voz enfraqueceu, baixou, tomou um ritmo de soluço, um tom de lamentação. Mas logo voltou a crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.
Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida, E assim como a água começa a invadir o interior enxuto quando se abre um rombo no casco de um navio, assim agora, pela fenda que os gritos tinham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.
Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e, no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.
A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.
Era uma rua estreita, apertada entre edifícios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era cinzenta, o ar baço, parado e pegajoso.
Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando agarrar sob as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.
O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes cortadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. As vezes erguia a cara e então via-se o rosto torcido e desfigurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um homem. Era tarde. As portas e as janelas estavam fechadas sobre gente adormecida e na rua não passava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.
O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante, implorava-lhe que se calasse, pedia:
- Vamos embora.
Mas ela não o ouvia. Gritava como se estivesse só no mundo, como se tivesse ultrapassado toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes, contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o seu desespero e a sua dor brotassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém, a responder. Gritava contra o silêncio.
Às vezes calava-se um momento e inclinava a cabeça para trás como quem espera ouvir uma resposta.
Então, de novo, o homem implorava:
- Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.
Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um adormecido, abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.
Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o fundo do espaço, para o fundo da ocultação da noite, para o fundo do silêncio.
De repente calou-se, curvou a cabeça, tapou o rosto com as mãos. Então o homem cobriu-lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos ombros, e, devagar, juntos, desceram a rua e viraram a esquina.
Durante algum tempo flutuou no ar pesado da rua um eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silêncio.
Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.
Joana voltou para a sala. Tudo agora, desde o fogo da estrela até ao brilho polido da mesa, se tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara ruína irreconhecível.
E, tocando sem os sentir o vidro, a madeira, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua casa.
(1966)
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Histórias da Terra e do Mar", págs. 47 a 55 | Texto Editora, 3ª. edição, 1989
ameei,pena q ja morreu,mais ela tinha um talento enorme...
Sophia de Mello é um Icon da literatura portuguesa
Apesar de ser pequena as obras de Sophia foram e são importantes. A senhora estará sempre no coração de todos nos seja crianças, adultos ou ate idosos. Foi uma grande mulher e elogio todas as raparigas e mulheres que se chamam SOFIA
foi e sempre será uma grande escritora e apesar de ter falecido continua a estar no coração das pessoas e os seus textos e poemas também vão...
Deu-me muito jeito para certos trabalhos ! Obrigada.
Gostei muito e serviu-me muito :p obrigada.
Gosto imenso dos teus livros e neste momento estou a ler "O Cavaleiro da Dinamarca", de P.N.L.. Para o meu portefólio preciso de uma biografia tua, mas que seja pequenina, e esta é bue grande!!! :-(
a tua biografia serviu-me imenso obg
adoro-te mas é pena que tenhas morrido :( sempre gostei das tuas historias e sempre as li com carinho :)
gostamos muito da sua histórioa e ja fizemos uma biografia sobre si
gostei muito da historia
não consegui ir para a parte 2 ou 3... isto não está a funcionar bem, e os poemas deviam estar organizados por livro
ela é demais
Tem POUCA imformaçao
tu estas no meu coraçao nao vaz mal que tenhas morrido ou que continues a viver so sei que as pessoas vao se lembrar de uma maravilhosa escritora e poetisa.... tu estavas e estaras sempre no meu coracao nao so no meu coracao mas tambem nos coraçoes dos teus familiares,dos teus fas e nos coraçoes de todas as pessoas que te conheces e que saibas que tu es fantastica,.... bem este belissimo site encontrei tudo o era bom e que era preciso para saber que eras e es uma pessoa muito honesta, pode nao monstrar mas sei o que eras e es...... obrigada e um beijo da tua amiga e fã que sabe que es muito linda e gira ........................beijos adoro e ate no fim deste texto eu chorei de felecidade
encontrei aqui tudo que precisava para o meu trabalho escolar choro so de pensar que tenhas falecido mas adoro-te como sempre disse.. um abraço bem apertado da tua grande amiga Beatriz 10anos . beiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiijjjjjjjjjjjjjjjjoooooooooooooooooooooooooooooooooo
adoro a escritora ela é uma das minhas preferidas tenho pena de ela ter morrido mas está sempre no meu coração ela e as histórias. um beijo para tu ai em cima da Beatriz
adorei o site e tinha tudo o que eu queria até a data de quando morreu e nasceu XD
adoro mas é muito grande
bela poeta
É uma boa escritora, gostei de ler : "A Menina do Mar", e " O Cavaleiro da Dinamarca"( ainda só li esses)!
tem muita imformaçao que eu precisava mas ela ja morreu?
adorooooooooooooo-teeeeeeeeeeeeeeeee
continua a seguir o teu sonho com deus la em cima
Muitos felicidades para A Sophia fez livros mesmo bonitos e gosto muito dela ela é unica. Jéssica,11 anos,Lausanne,,Suiça.
gosto muito dela e uma grande escritora adoro-te shofia de melo brayner andres
eu adoro-a
ela era uma grande autora
Muito giro e engraçado, tem tudo o que precisava
adoro sophia mas nao tem aki la muito grande informaçao nao dis os gostos e interesses dela
Simplesmente ......... adoro
estra muito bom adoro as poesias
Todas estas poesias especialmente a primeira me parecem ter, hoje que as leio um cariz intemporal, tal como todas as obras de grandes escritores... São estas linhas ou às vezes só duas ou três, ou até só uma palavra, que quando bem ditas/escritas têm o dom de mudar o dia e o fazer feliz, de lhe dar um pouco mais de sentido, por isso agradeço do fundo do meu coração a quem se dedicou a escrevê-las e a (voltar a)publicá-las.
nao gosto..............................................
Muito interessante o site sobre Sofhia, as poesias são maravilhosas Parabéns!!!!
e interessante mas o que eu queria saber nao se encontra neste site eu queria saber ainda mais sobre a vida dela
Não amostra nada o que eu desejava :c Mas a historia está bem !