Torquato Neto

Torquato Neto

1944–1972 · viveu 28 anos BR BR

Torquato Neto foi um poeta, crítico de arte, cineasta e jornalista brasileiro, figura central da contracultura no Brasil. Sua obra poética é marcada pela experimentação linguística, pela crueza existencial e pela exploração de temas como a loucura, a droga e a transgressão social. Sua curta, mas intensa, trajetória deixou um legado significativo para a poesia brasileira contemporânea, influenciando gerações de artistas.

n. 1944-11-09, Teresina · m. 1972-11-10, Rio de Janeiro

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Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
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Biografia

Identificação e contexto básico

Torquato Pereira de Araújo Neto, conhecido artisticamente como Torquato Neto, foi um poeta, jornalista, crítico de arte e cineasta brasileiro. Nasceu em Teresina, Piauí, em 9 de novembro de 1944, e faleceu no Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1972. Era filho de Plínio Pereira de Araújo e Maria Lúcia de Araújo. Foi um dos expoentes da contracultura brasileira nos anos 1960 e 1970.

Infância e formação

Torquato Neto mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda na infância. Teve uma formação cultural rica, tendo contato com importantes intelectuais e artistas desde jovem. Estudou na Universidade de Brasília (UnB) por um período, onde participou ativamente da efervescência cultural e política da época. Foi influenciado por leituras de poetas como Oswald de Andrade e também por movimentos artísticos e filosóficos que questionavam os padrões estabelecidos.

Percurso literário

O início de sua escrita poética se deu na adolescência, com uma produção que já revelava um espírito inquieto e experimental. Sua obra evoluiu rapidamente, passando por fases de maior experimentalismo formal e temático. Foi colaborador de importantes jornais e revistas da época, como o Correio da Manhã e a revista Civilização Brasileira, onde atuou também como crítico de arte. Participou da antologia "Poesia Hoje", marco da poesia marginal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética principal está reunida em livros como "Heranças" (1962), "O Ungunto" (1963) e "Os Cem Melhores Poemas do Século XX" (póstumo, 2001). Os temas recorrentes em sua poesia incluem a alienação, a loucura, a droga, a sexualidade, a crítica social e a busca por uma identidade em meio ao caos urbano. Utilizava o verso livre, com uma linguagem crua, coloquial e por vezes agressiva, mas também capaz de grande lirismo. Seus poemas são marcados pela fragmentação, pela ironia e pela visceralidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Torquato Neto viveu o auge da ditadura militar no Brasil, um período de forte repressão política e censura. Ele se tornou uma figura chave na contracultura brasileira, participando de festivais, manifestações e produzindo obras que desafiavam os costumes e a moral da época. Sua obra dialoga com o Tropicalismo, movimento cultural do qual se aproximou, compartilhando o espírito de experimentação e a crítica à sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Torquato Neto foi marcada pela intensidade e pela instabilidade. Teve relações significativas que o influenciaram, como a com a cantora Nara Leão. Sua luta contra a depressão e o uso de drogas é um tema presente em sua obra e em sua biografia. Trabalhou como jornalista e crítico, mas sua principal vocação sempre foi a poesia. Sua visão de mundo era frequentemente marcada por um profundo questionamento existencial.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Torquato Neto teve seu trabalho reconhecido por um nicho de artistas e intelectuais ligados à contracultura. No entanto, seu reconhecimento mais amplo veio postumamente. Sua obra passou a ser estudada e valorizada como um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, especialmente pela sua capacidade de retratar o mal-estar da juventude em um período de crise social e política. Sua poesia é considerada ousada e precursora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Torquato Neto foi influenciado por poetas como Oswald de Andrade, Arthur Rimbaud e os poetas beatniks americanos. Por sua vez, influenciou uma geração de poetas que buscaram na experimentação, na crueza e na temática existencial um novo caminho para a poesia brasileira. Seu legado reside na sua capacidade de dar voz a um sentir marginalizado e na sua ousadia estética e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Torquato Neto é frequentemente interpretada como um grito de angústia existencial diante de um mundo em transformação e de uma sociedade repressora. Sua poesia expõe a fragilidade humana, a busca por liberdade e a confrontação com a própria identidade. As análises críticas destacam a sua originalidade formal e a força das suas imagens, bem como a sua capacidade de capturar o espírito de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Torquato Neto era conhecido por seu humor ácido e por sua inteligência afiada. Sua relação com as drogas era complexa, sendo tanto uma fonte de inspiração quanto um caminho para o sofrimento. Ele também se aventurou no cinema, dirigindo curtas experimentais. Seus cadernos de anotações e a correspondência revelam um pensador profundo e um artista em constante busca.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Torquato Neto faleceu tragicamente em 10 de novembro de 1972, aos 28 anos, por suicídio. Sua morte precoce chocou o meio artístico e cultural. Publicações póstumas, como "Os Cem Melhores Poemas do Século XX", ajudaram a consolidar sua memória e a divulgar sua obra para novas gerações. Ele é lembrado como um dos poetas mais originais e impactantes da literatura brasileira.

Poemas

17

Deus vos Salve a Casa Santa

um bom menino perdeu-se um dia
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Caetano Velos
1 672

Hoje Tem Espetáculo

Vá ao cinema: presta?
Vá ao teatro: presta?
Esses filmes servem a quê?
Servem a quem?
Essas peças: servem? Pra quê?
Divirta-se: teu programa é esse,
bicho: vá ao cinema
vá ao teatro, vá ao concerto
disco é cultura, vá para o inferno:
o paraíso na tela no palco na boca
do som
e nas palavras todas
na ferrugem dos gestos e nas trancas
da porta da rua
no movimento das imagens: violência
e frescura: montagem.
Divirta-se. O inferno
é perto é longe, o paraíso
custa muito pouco.
Pra que serve este filme, serve a
quem?
Pra que serve esse tema, serve a
quem?
De churrasco em churrasco encha
o seu caco,
amizade. Cante seresta na churrascaria
e arrote filmes-teatros-marchas-ranchos
alegrias e tal: volte (como sempre)
atrás,
fique na sua
bons tempos são para sempre — jamais
bata no peito, bata no prato, é
assim que se faz
a festa. Reclame isso: esse filme
não presta
o diretor é fraco e essa história eu
conheço
esse papo é pesado demais pras
crianças na sala
é macio, é demais: serve a quem,
amizade?
Teu roteiro hoje é esse, meu bicho: cante
tudo na churrascaria
não saia nunca mais da frente fria
sirva, serve, bicho, criança, bonecão
sirva sirva sirva mais
churrasco churrasquinho churrascão.
Sirva um samba de Noel, uma ciranda
uma toada do Gonzaga (o pai),
aquele samba
aquela exaltação de um iê-iê-iê
romanticosuavespuma
bem macio
um filme de mocinho e de bandidos
uma peça qualquer com muito
drama:
encha o caco, amizade, tudo é
porta
e vá entrando à vontade, a casa
é sua, entre
pelos filmes em cartaz, pelas peças
sobre os palcos
vá entrando pelo papo, entrando
pelo cano
geral; coma churrasco, sirva, vá
entrando
e servindo (a quê a quem?)
encha o seu caco. Divirta-se, bata
no prato
e peça bis, reclame, cante o quanto
queira
afaste o lixo, nem pense:
teu programa é esse mesmo, bicho.

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 198
2 130

A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
1 976

Pra Dizer Adeus

adeus
vou pra não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sozinho
tão sozinho amor
nem é bom pensar
que eu não volto mais
desse meu caminho

ah,
pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto eu queria dizer
vem
eu só sei dizer
vem
nem que seja só
pra dizer adeus.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
3 307

Zabelê

minha sabiá
minha zabelê
toda meia noite
eu sonho com você
se você duvida
eu vou sonhar pra você ver

minha sabiá
vem me dizer por favor
o quanto que eu devo amar
pra nunca morrer de amor
minha zabelê
vem correndo me dizer
porque eu sonho toda noite
e sonho só com você
se você não me acredita
vem pra cá
vou lhe mostrar
que riso largo é o meu sonho
quando eu sonho
com você
mas anda logo
vem que a noite
já não tarda a chegar
vem correndo
pro meu sonho escutar
que eu sonho falando alto
com você no meu sonhar


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
2 849

O Poeta é a Mãe das Armas

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso:ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois
torquato neto /8/11/71 & sempre.

2 115

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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Talyta
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Aloísio
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Grande POETA Torquato Neto. Grande MÚSICO Gilberto Gil Atual até hoje.