Lista de Poemas

Louvação

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.

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In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Deus vos Salve a Casa Santa

um bom menino perdeu-se um dia
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Caetano Velos
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Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela

carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi

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In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
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Let’s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
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Zabelê

minha sabiá
minha zabelê
toda meia noite
eu sonho com você
se você duvida
eu vou sonhar pra você ver

minha sabiá
vem me dizer por favor
o quanto que eu devo amar
pra nunca morrer de amor
minha zabelê
vem correndo me dizer
porque eu sonho toda noite
e sonho só com você
se você não me acredita
vem pra cá
vou lhe mostrar
que riso largo é o meu sonho
quando eu sonho
com você
mas anda logo
vem que a noite
já não tarda a chegar
vem correndo
pro meu sonho escutar
que eu sonho falando alto
com você no meu sonhar


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
2 832

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

1 659

O Poeta é a Mãe das Armas

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso:ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois
torquato neto /8/11/71 & sempre.

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Talyta
Talyta

Lindos os poemas do Torquato Neto eu adorei

Aloísio
Aloísio

Grande POETA Torquato Neto. Grande MÚSICO Gilberto Gil Atual até hoje.

Identificação e contexto básico

Torquato Pereira de Araújo Neto, conhecido artisticamente como Torquato Neto, foi um poeta, jornalista, crítico de arte e cineasta brasileiro. Nasceu em Teresina, Piauí, em 9 de novembro de 1944, e faleceu no Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1972. Era filho de Plínio Pereira de Araújo e Maria Lúcia de Araújo. Foi um dos expoentes da contracultura brasileira nos anos 1960 e 1970.

Infância e formação

Torquato Neto mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda na infância. Teve uma formação cultural rica, tendo contato com importantes intelectuais e artistas desde jovem. Estudou na Universidade de Brasília (UnB) por um período, onde participou ativamente da efervescência cultural e política da época. Foi influenciado por leituras de poetas como Oswald de Andrade e também por movimentos artísticos e filosóficos que questionavam os padrões estabelecidos.

Percurso literário

O início de sua escrita poética se deu na adolescência, com uma produção que já revelava um espírito inquieto e experimental. Sua obra evoluiu rapidamente, passando por fases de maior experimentalismo formal e temático. Foi colaborador de importantes jornais e revistas da época, como o Correio da Manhã e a revista Civilização Brasileira, onde atuou também como crítico de arte. Participou da antologia "Poesia Hoje", marco da poesia marginal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética principal está reunida em livros como "Heranças" (1962), "O Ungunto" (1963) e "Os Cem Melhores Poemas do Século XX" (póstumo, 2001). Os temas recorrentes em sua poesia incluem a alienação, a loucura, a droga, a sexualidade, a crítica social e a busca por uma identidade em meio ao caos urbano. Utilizava o verso livre, com uma linguagem crua, coloquial e por vezes agressiva, mas também capaz de grande lirismo. Seus poemas são marcados pela fragmentação, pela ironia e pela visceralidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Torquato Neto viveu o auge da ditadura militar no Brasil, um período de forte repressão política e censura. Ele se tornou uma figura chave na contracultura brasileira, participando de festivais, manifestações e produzindo obras que desafiavam os costumes e a moral da época. Sua obra dialoga com o Tropicalismo, movimento cultural do qual se aproximou, compartilhando o espírito de experimentação e a crítica à sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Torquato Neto foi marcada pela intensidade e pela instabilidade. Teve relações significativas que o influenciaram, como a com a cantora Nara Leão. Sua luta contra a depressão e o uso de drogas é um tema presente em sua obra e em sua biografia. Trabalhou como jornalista e crítico, mas sua principal vocação sempre foi a poesia. Sua visão de mundo era frequentemente marcada por um profundo questionamento existencial.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Torquato Neto teve seu trabalho reconhecido por um nicho de artistas e intelectuais ligados à contracultura. No entanto, seu reconhecimento mais amplo veio postumamente. Sua obra passou a ser estudada e valorizada como um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, especialmente pela sua capacidade de retratar o mal-estar da juventude em um período de crise social e política. Sua poesia é considerada ousada e precursora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Torquato Neto foi influenciado por poetas como Oswald de Andrade, Arthur Rimbaud e os poetas beatniks americanos. Por sua vez, influenciou uma geração de poetas que buscaram na experimentação, na crueza e na temática existencial um novo caminho para a poesia brasileira. Seu legado reside na sua capacidade de dar voz a um sentir marginalizado e na sua ousadia estética e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Torquato Neto é frequentemente interpretada como um grito de angústia existencial diante de um mundo em transformação e de uma sociedade repressora. Sua poesia expõe a fragilidade humana, a busca por liberdade e a confrontação com a própria identidade. As análises críticas destacam a sua originalidade formal e a força das suas imagens, bem como a sua capacidade de capturar o espírito de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Torquato Neto era conhecido por seu humor ácido e por sua inteligência afiada. Sua relação com as drogas era complexa, sendo tanto uma fonte de inspiração quanto um caminho para o sofrimento. Ele também se aventurou no cinema, dirigindo curtas experimentais. Seus cadernos de anotações e a correspondência revelam um pensador profundo e um artista em constante busca.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Torquato Neto faleceu tragicamente em 10 de novembro de 1972, aos 28 anos, por suicídio. Sua morte precoce chocou o meio artístico e cultural. Publicações póstumas, como "Os Cem Melhores Poemas do Século XX", ajudaram a consolidar sua memória e a divulgar sua obra para novas gerações. Ele é lembrado como um dos poetas mais originais e impactantes da literatura brasileira.