Lista de Poemas

VIDA

Um pássaro de papel no peito

diz que o tempo dos beijos não chegou;

viver, viver, o sol invisivel crepita,

beijos ou pássaros, tarde ou cedo ou nunca.

Para morrer basta um pequeno ruído,

o de outro coração ao calar-se,

ou esse regaço alheio que na terra

é um barco dourado para os cabelos louros.

Cabeça dolorida, têmporas de ouro, sol que declina:

aqui na sombra sonho com um rio,

juncos de verde sangue que neste instante nasce,

sonho apoiado em ti, calor ou vida.



2 044

NO FUNDO DO POÇO

Além, no fundo do poço onde as pequenas flores,
onde as lindas margaridas não vacilam,
onde vento não há ou perfume de homem,
onde jamais o mar impõe sua ameaça,
ali, ali se esconde o silêncio,
qual rumor afogado por um punho.

Se uma abelha, se uma ave voadora,
se esse erro jamais previsto
se produz,
o frio permanece.
O sono vertical fundiu a terra
e já o mar é livre.

Talvez uma voz, ou mão, já solta,
um impulso para o alto aspire à luz,
à calma, à tibieza, a esse veneno
de um afago na boca que se afoga.

Porém dormir é tão sereno sempre!
Sobre o frio, sobre o gelo, sobre uma sombra na face,
sobre uma palavra hirta e, mais, já proferida,
sobre a mesma terra sempre virgem.

Uma tábua ao fundo, oh poço inúmero,
essa lisura ilustre a comprovar
que um corpo é contacto, frio seco,
sonho sempre, ainda que a fonte esteja cerrada.

Podem passar já nas nuvens. Ninguém o sabe.
Esse clamor... Existem as campânulas?
Recorda-me que a cor branca ou as formas,
recorda-me que os lábios, sim, até falavam.

Era o tempo cálido. - Luz, sacrifica-me!
Era então quando o súbito relâmpago
se detinha, suspenso, feito de ferro.
Tempo de suspiros ou entrega,
quando as aves nunca perdiam a plumagem.

Tempo de suavidade e permanência;
os galopes incontidos no peito,
cascos que não se detinham, revoltos.
As lágrimas rodavam como beijos.
E era sólida no ouvido a memória dos sons.

Assim a eternidade era o minuto.
O tempo, apenas imensa mão
suspensa entre os cabelos.

Oh sim, neste fundo silêncio ou umidade,
sob as sete capas do céu azul, eu ignoro
a música filtrada em gelo súbito,
a garganta que se precipita sobre os olhos,
a íntima onda que se aninha sobre os lábios.

Adormecido como uma tela,
sinto crescer a relva, o verde suave
que inutilmente aguarda curvar-se.

Um punho de aço sobre a relva,
um coração, um joguete esquecido,
uma clave, uma lima, um beijo, um vidro.

Uma flor de metal que assim impassível
sorve da terra o silêncio ou a memória.

2 509

Las manos

Las manos

Mira tu mano, que despacio se mueve,

transparente, tangible, atravesada por la luz,

hermosa, viva, casi humana en la noche.

Con reflejo de luna, con dolor de mejilla, con vaguedad de sueño

mírala así crecer, mientras alzas el brazo,

búsqueda inútil de una noche perdida,

ala de luz que cruzando en silencio

toca carnal esa bóveda oscura.

No fosforece tu pesar, no ha atrapado

ese caliente palpitar de otro vuelo.

Mano volante perseguida: pareja.

Dulces, oscuras, apagadas, cruzáis.

Sois las amantes vocaciones, los signos

que en la tiniebla sin sonido se apelan.

Cielo extinguido de luceros que, tibios,

campo a los vuelos silenciosos te brindas.

Manos de amantes que murieron, recientes,

manos con vida que volantes se buscan

y cuando chocan y se estrechan encienden

sobre los hombres una luna instantánea

1 572

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Vicente Aleixandre y Merlo foi um poeta espanhol, considerado uma das figuras mais proeminentes da Geração de 27. Nasceu em Sevilha e viveu a maior parte da sua vida em Madrid. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1977.

Infância e formação

Nasceu em Sevilha, numa família de classe média. A sua infância e juventude decorreram em Málaga, para onde a família se mudou. Foi um estudante brilhante, com uma forte inclinação para a literatura desde cedo. A sua formação foi marcada por uma vasta leitura e um interesse profundo pela poesia.

Percurso literário

Começou a escrever poesia na juventude. A sua obra evoluiu desde um inicial lirismo intimista até uma poesia mais cósmica e universal. Foi membro destacado da Geração de 27, colaborando com outros importantes poetas e intelectuais da época. Publicou diversas coletâneas de poesia que o consagraram como um dos grandes nomes da literatura espanhola.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "Espadas como labios" (1932), "La destrucción o el amor" (1935), "Sombra del paraíso" (1944), "Historia del corazón" (1954) e "Diálogos del conocimiento" (1974). Os temas dominantes na sua obra são o amor, a morte, a natureza, o cosmos, a solidão e a condição humana. Caracteriza-se por um lirismo intenso, um uso abundante de metáforas e imagens oníricas, e uma exploração profunda do subconsciente. A sua linguagem é rica e evocativa, com um ritmo musical marcante. Foi associado ao Surrealismo, embora a sua obra transcenda qualquer rótulo único.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu a maior parte da sua vida adulta em Espanha durante um período turbulento, incluindo a Segunda República, a Guerra Civil Espanhola e o regime franquista. Estes eventos tiveram um impacto profundo na sua obra, que reflete a angústia, a solidão e a busca por um paraíso perdido. Manteve relações próximas com outros poetas da Geração de 27, como Federico García Lorca e Rafael Alberti.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Vicente Aleixandre foi um homem reservado e dedicado à poesia. Sofreu de uma grave doença renal que o limitou fisicamente, mas que também influenciou a sua visão sobre a vida e a morte. A sua vida pessoal foi marcada por uma grande sensibilidade e uma profunda ligação com a natureza e o universo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da sua obra cresceu ao longo do tempo, culminando com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1977. Foi aclamado como um dos poetas mais importantes da língua espanhola do século XX, com a sua obra a ser amplamente estudada e admirada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Góngora e os simbolistas franceses. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas em Espanha e na América Latina. A sua poesia é considerada um marco na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aleixandre tem sido interpretada sob diversas perspetivas, destacando-se a análise das suas metáforas cósmicas, a exploração do desejo e da frustração, e a sua visão existencial. A sua poesia convida à reflexão sobre os mistérios da existência e a beleza fugaz da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aleixandre, apesar da sua fama, era um homem extremamente humilde e recluso. Passava longos períodos em casa, dedicado à escrita e à leitura. A sua casa em Madrid tornou-se um local de peregrinação para admiradores da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Madrid em 1984. As suas obras continuam a ser publicadas e estudadas, mantendo viva a sua memória e o seu legado poético.