Lista de Poemas

XII [O que É o Ciúme?

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.


Publicado no livro Questionário (1967).

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.28
1 248

Pranto por Federico García

Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.

Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.

Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!

Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.

Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!

E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!


Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
1 604

32 [Onde ficou aquela hora

Onde ficou aquela hora
de sentar à mesa e ver
a água no vidro do copo?
Tirar da cesta o pão
passar no molho e gostar
de ver o abrir da sombra?

E em silêncio mastigar
a carne e o pomo, quente
o elo em torno da pobre
toalha e sua nódoa.

Nenhum lobo lá fora.
A comunhão completa
de olhos baixos e um canto
calando nas vasilhas.

Hoje o lobo está dentro.
Pelos cantos gememos,
sós pousamos no prato
uma fome imprecisa.

O pão nos sabe a ázimo
e o vinho avinagrado
sangra no lábio a pausa
de lembrar, sem recurso.

Já não temos ninguém
que nos dobre a toalha
e apague a luz.
Vagamos,
inofensivo lobo
de uma ira apagada.
E a lamparina, amor,
tremeluz do outro lado
como absorto fantasma.


In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 317

33 [Um grito nos porões

Um grito nos porões
lembra que somos outro;
que estamos no outro, na dor,
como a vara
na raiz dividida.

Livres manipulamos
uma rede invisível
onde dedos e nervos
debatem-se ofegantes.

Um grito nos desperta quando sequer dormíamos,
ou quando estremecida a pele celebrava
o orvalho e a aragem.
Grito
que nos dói, corrompido
de injustiçado jugo.

Alguém que já não canta ao nosso lado grita,
e o canto se perverte.


In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 128

Arte Poética

A Jorge Octávio Mourão

Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer
assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.


Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.34
2 476

A Bailarina Gris

de Degas

PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.

PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.


In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).

NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
1 303

Ciclo

III (passeio)

Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.

Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).

Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.

E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.

Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.


Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242

NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
1 427

Astromulhersubmarino

A sereia não se divorcia
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.

A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.

Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.

A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.

Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.


Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
1 212

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
maria isabel
maria isabel

coitado por ter morrido

Identificação e contexto básico

Walmir Ayala, nome completo Walmir Ayala Viana, foi um escritor brasileiro multifacetado, atuando como poeta, contista, romancista, ensaísta e crítico literário. Sua obra se insere no contexto da literatura brasileira da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Nascido em uma família de classe média, Walmir Ayala teve uma formação intelectual sólida. Desde cedo demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, o que o levou a explorar diversos gêneros literários.

Percurso literário

Ayala iniciou sua carreira literária com a poesia, mas rapidamente expandiu seu leque de atuação para a prosa, com contos e romances. Publicou em importantes jornais e revistas literárias, consolidando-se como um nome relevante na crítica e na produção literária brasileira. Atuou também como editor, contribuindo para a divulgação de novos talentos e obras importantes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Walmir Ayala exploram frequentemente temas como a condição humana, a passagem do tempo, a solidão e a busca por sentido. Seu estilo é caracterizado pela concisão, pela ironia fina e por uma linguagem precisa e elaborada. Na poesia, experimentou com formas variadas, enquanto na prosa, seus contos e romances frequentemente apresentam narrativas densas e personagens complexos. O autor dialogou com a tradição literária, mas também buscou inovações, inserindo-se no contexto do modernismo brasileiro e suas vertentes posteriores.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Walmir Ayala viveu e produziu em um período de grandes transformações sociais, políticas e culturais no Brasil. Sua obra reflete, por vezes, as inquietações e os debates de seu tempo, dialogando com outros escritores e intelectuais de sua geração. Sua posição como crítico literário o colocou em contato direto com os movimentos e as tendências da literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre sua vida pessoal são menos divulgados em comparação com sua obra literária. Sabe-se que dedicou grande parte de sua vida à atividade intelectual, tanto na escrita quanto na edição.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Walmir Ayala obteve reconhecimento por sua obra tanto em vida quanto postumamente. Sua atuação como crítico literário e sua produção ficcional e poética garantiram-lhe um lugar de destaque na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ayala foi influenciado por diversos autores da literatura brasileira e universal. Seu legado reside na qualidade de sua escrita, na profundidade de seus temas e em sua contribuição para a crítica literária, inspirando gerações posteriores de escritores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Walmir Ayala tem sido objeto de análises que destacam sua habilidade em retratar a complexidade da existência humana através de uma linguagem refinada e de um olhar irônico sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por sua atuação em diferentes frentes do campo literário, Ayala demonstrou uma versatilidade notável. Sua dedicação à crítica e à edição, além de sua própria produção, o tornam uma figura complexa e importante para a compreensão da literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Walmir Ayala faleceu em 2018, deixando um acervo literário que continua a ser estudado e apreciado por leitores e críticos.