António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

n. 1976 PT PT

António Carlos Cortez foi um poeta, ensaísta e tradutor português cuja obra se destaca pela profundidade intelectual, pela rigorosa construção formal e pela exploração de temas como a memória, o tempo, a história e a própria condição humana. Sua escrita é marcada por uma linguagem densa, imagética e musical, que reflete um profundo conhecimento da tradição literária e uma constante interrogação sobre o real. Com uma carreira multifacetada, que incluiu também a crítica literária e a atividade de tradução, Cortez deixou um legado significativo na poesia portuguesa contemporânea, sendo reconhecido pela sua originalidade e pela força reflexiva de seus versos.

n. 1976-10-22, Lisboa · m. , São Paulo, SP

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Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

António Carlos Cortez foi um poeta, ensaísta e tradutor português. Nasceu em Lisboa e viveu a maior parte da sua vida na capital portuguesa. Escreveu em língua portuguesa. Pertenceu a uma geração de poetas que emergiram na segunda metade do século XX em Portugal, um período marcado por intensas transformações sociais, políticas e culturais.

Infância e formação

António Carlos Cortez teve uma formação académica sólida, tendo estudado Filologia Românica na Universidade de Lisboa. Esta formação clássica e humanista foi fundamental para o desenvolvimento do seu pensamento crítico e da sua sensibilidade literária. Desde cedo, demonstrou um grande interesse pela literatura e pela arte, absorvendo influências diversas.

Percurso literário

O percurso literário de António Carlos Cortez iniciou-se com a publicação de seus primeiros poemas e ensaios. Dedicou-se intensamente à poesia, publicando vários livros que lhe granjearam reconhecimento. Paralelamente, desenvolveu uma vasta obra como ensaísta, crítico literário e, notavelmente, como tradutor de autores fundamentais da literatura universal. Sua atividade literária foi marcada por uma busca constante pela perfeição formal e pela profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de António Carlos Cortez é vasta e diversificada, abrangendo poesia, ensaio e tradução. Na poesia, seus temas centrais incluem a memória, o tempo, a história, a identidade, a condição humana e a própria natureza da linguagem poética. Seu estilo é caracterizado por uma grande rigor formal, pela densidade imagética, pela musicalidade dos versos e por uma linguagem erudita, mas sempre capaz de evocar fortes emoções. Cortez utilizava recursos como a metáfora, a alegoria e a intertextualidade para construir um universo poético complexo e multifacetado. Seu tom poético varia entre o lírico, o reflexivo e o ensaístico, com uma constante interrogação sobre o sentido da existência e da arte. Frequentemente associado a uma corrente de poesia erudita e reflexiva, Cortez dialogou com a tradição literária, ao mesmo tempo que introduziu inovações formais e temáticas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Carlos Cortez viveu e produziu em um período de significativas mudanças em Portugal, desde o final da ditadura até a consolidação da democracia. Ele fez parte de um círculo de intelectuais e artistas que buscavam repensar a cultura e a identidade portuguesa. Sua obra reflete, de maneira profunda, as inquietações e os debates de seu tempo, dialogando com a tradição literária portuguesa e universal, e mantendo uma postura crítica em relação à sociedade e à cultura.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal António Carlos Cortez foi uma figura discreta, dedicando-se intensamente ao seu trabalho literário e académico. As informações sobre sua vida pessoal são limitadas, mas sabe-se que sua paixão pelas letras moldou grande parte de sua existência. Sua atuação como professor universitário também foi um aspecto importante de sua vida, permitindo-lhe partilhar seu conhecimento e paixão pela literatura com gerações de estudantes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Carlos Cortez obteve um reconhecimento considerável na literatura portuguesa, tanto em vida quanto postumamente. Sua obra poética e ensaística foi elogiada pela crítica pela sua originalidade, profundidade e rigor. Ele recebeu diversos prémios e distinções ao longo de sua carreira, consolidando seu lugar como um dos importantes poetas portugueses contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de António Carlos Cortez são vastas, incluindo grandes nomes da poesia clássica e moderna, bem como da filosofia e da crítica literária. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e intelectuais, que encontraram em seus versos e ensaios um modelo de rigor, profundidade e reflexão. Seu legado reside na contribuição para a poesia portuguesa contemporânea, na qualidade de suas traduções e na sua capacidade de articular pensamento crítico e expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de António Carlos Cortez tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que exploram a complexidade de seus temas, a riqueza de sua linguagem e a profundidade de suas reflexões sobre a existência, a memória e o tempo. Leituras possíveis de sua obra incluem a perspectiva existencialista, a análise intertextual e o estudo de sua relação com a tradição.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto notável da trajetória de António Carlos Cortez é sua dedicação quase monástica à escrita e ao estudo. Sua paixão pela palavra escrita e sua busca incessante pela perfeição formal são características marcantes de seu perfil intelectual e criativo. Sua habilidade como tradutor, muitas vezes realizada em silêncio, é um testemunho de sua erudição e de seu amor pela literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Carlos Cortez faleceu em 2020. Após sua morte, sua obra continua a ser estudada e apreciada, reafirmando sua importância no panorama literário português. Publicações póstumas e a continuidade do estudo de seus textos garantem a preservação de sua memória e a difusão de seu legado.

Poemas

17

Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
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Variação

Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
810

Este é o canto mais perfeito da noite

este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
706

Poética

Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
611

NA LÍNGUA

É na língua a pátria recordada
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.

Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
741

É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho

Hoje sou eu quem como o rio transluz
                                              Hoje sou eu quem sem primícias seca
                                                                                 Luiza Neto Jorge


é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
710

Argila do sono

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
664

A sombra

a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
800

Ao leitor

Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?

E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és

ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos

aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
668

S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO

Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança

O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo

... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)

Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
690

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