José Saramago

José Saramago

José Saramago foi um escritor português, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Sua obra, profundamente humanista e crítica, aborda questões existenciais, sociais e políticas com um estilo narrativo único, marcado pela ausência de pontuação convencional em diálogos e por longos períodos. Explorou a condição humana, a memória, a identidade e o poder, deixando um legado literário marcante. Sua escrita é reconhecida pela complexidade, pela reflexão filosófica e pela capacidade de questionar as estruturas sociais e o comportamento humano, convidando o leitor a uma imersão profunda em universos ficcionais densos e instigantes.

1922-11-16 Azinhaga
2010-06-18 Lanzarote
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Alguns Poemas

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Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará

Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento

Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham

Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos

Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres

Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra

Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega

Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores

Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas

Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo

Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se

Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar

Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas

Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados

Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular

E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas

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Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras

Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando

Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la

Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar

E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos

Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado

Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens

Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas

Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido

Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada

Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
Escritor português, natural de Azinhaga, Golegã, viveu em Lisboa, para onde os seus pais se mudaram, desde os três anos. Vive, actualmente, em Lanzarote, Ilhas Canárias. Concluiu os estudos secundários em 1939, em Lisboa. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico. Foi ainda desenhador, funcionário público nas áreas da Saúde e da Previdência Social, director literário de uma editora, jornalista e tradutor. Colaborou em várias revistas e jornais, como a Seara Nova, o Diário de Lisboa, A Capital e o Jornal do Fundão, publicações em que manteve uma actividade regular de cronista. Em 1975, exerceu funções de director-adjunto do Diário de Notícias. Actualmente, vive exclusivamente do seu trabalho literário e tem participado em inúmeros congressos e conferências, em Portugal e noutros países da Europa, de África e da América. Fez parte da primeira direcção da Associação Portuguesa de Escritores Embora se tenha estreado, em 1947, com Terra do Pecado, só em 1966 retomou a publicação das suas obras, com o volume de poesia Os Poemas Possíveis. Desde então, tem vindo a afirmar-se como um dos mais significativos autores portugueses da actualidade e, sem dúvida, um dos mais conhecidos. A primeira fase da sua carreira foi marcada, sobretudo, pela poesia (Provavelmente Alegria, 1970; O Ano de 1993, 1975) e pela crónica, género que começou por granjear-lhe notoriedade, através dos jornais onde colaborou (Deste Mundo e do Outro, 1971; A Bagagem do Viajante, 1973; As Opiniões que o DL Teve, 1974; Apontamentos, 1976). Saramago dedicou-se ainda, a partir de finais dos anos 70, ao teatro, publicando A Noite (1979, peça que tem como cenário uma redacção de jornal na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 e que recebeu o prémio da Associação de Críticos Portugueses), Que Farei com Este Livro? (1980), A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987) e In Nomine Dei (1993). No entanto, foi sobretudo como romancista que o seu nome se tornou consagrado, tendo publicado, em 1977, Manual de Caligrafia e Pintura. Levantado do Chão (1980, Prémio Cidade de Lisboa, Prémio Internacional Ennio Flaiano) constituiu um importante marco na sua carreira. Uma das tendências mais marcantes da sua obra romanesca, assinalável em Memorial do Convento (1982), o seu romance mais célebre, é a da reconstituição de períodos históricos a partir dos quais é construída uma narrativa fantástica, que estabelece a ligação entre os dados verosímeis e concretos e realidades de ordem interior, fundamentais da vida humana, na sua interrogação e contradições constantes. Para tal serve-se o autor de uma imaginação prodigiosa, aliada a uma grande força lírica e capacidade descritiva. Temas mais ou menos constantes são os da verdade, da invenção e do papel da arte na construção do conhecimento possível do mundo. Saramago consegue criar uma cumplicidade profunda com o leitor, assumindo-se claramente, como narrador, no papel omnisciente de dominador da matéria romanesca e no acompanhamento das personagens, com as quais (devido, entre outros factores, ao seu estilo muito pessoal, com uma pontuação de que estão ausentes as marcas introdutórias do discurso directo) a sua voz se confunde por vezes de forma inextricável, num tom desenganado e irónico que o leva à moralização, ao aforismo, e a que está associada a preocupação com a construção positiva do Homem e do futuro. Para além das obras referidas, publicou os romances O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984, Prémio do Pen Clube Português, Prémio da Crítica, Prémio D. Dinis, Prémio Grinzane-Cavour, Prémio do jornal The Independent), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991, Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores), Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997), Folhas Políticas, 1976-98 (1999) e A Caverna (2000). A obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi alvo de acesa controvérsia, extravasando de aspectos puramente literários para a moral e a política. O tratamento dado à figura de Jesus Cristo (e a interpretação da religião cristã, em geral) foi considerado, por alguns sectores, ofensivo, tendo o subsecretário da cultura de então, numa atitude também controversa, excluído a obra da lista dos candidatos ao Prémio Europeu de Literatura. A polémica envolveu a APE, que já por várias vezes havia preterido obras de Saramago na atribuição do seu prémio, e que viria a consagrá-lo nesse ano, 1991, embora não por unanimidade. Um dos escritores mais traduzidos da literatura em língua portuguesa, publicado em variadíssimos países, recebeu ainda o Prémio Internacional Literário Mondello (1992) e o Prémio Literário Brancatti (1992), ambos italianos e atribuídos pelo conjunto da sua obra, o Prémio Vida Literária da APE (1993), o Prémio Consagração SPA (1995) e o Prémio Camões (1995). Em 1998, foi consagrado com o Prémio Nobel da Literatura, pela primeira vez atribuído a um escritor de língua portuguesa. Em Novembro de 2000, foi distinguido com o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Santiago. José Saramago publicou também dois volumes de contos (Objecto Quase, 1978, e Poética dos Cinco Sentidos, 1979) e iniciou, em 1994, a edição de um diário intitulado Cadernos de Lanzarote, que tem já, presentemente, vários volumes. Memorial do Convento e In Nomine Dei foram adaptados à ópera pelo compositor Azio Corghi sob os títulos, respectivamente, de Blimunda e Divara, tendo, entretanto, a primeira obra sido adaptada ao teatro, com representação, em Portugal, em 1999.
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Bem meu caro José Saramago... se tu ainda estivesse em vida... conquistaria um novo mundo. meu caros amigos já tive o privilégio de ler uns dois livros deste grande escritor. são de um mundo fantástico. Braços a sua eternidade.
03/agosto/2025
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ademir domingos zanotelli
Meu caro é preciso sair do corpo em espirito e mente ; para nos vermos a nós mesmos. em corpo e alma a vagar pela mundo desconhecido.
13/junho/2024
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Alguem tem uma breve analise deste poema?
19/fevereiro/2021
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