jlsilva

jlsilva

1959-08-23
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Prémios e Movimentos

Eric Gregory Award 1975

Alguns Poemas

O poema se diz sozinho

as minhas mãos espalmadas esperam outras mãos
que venham acariciando o silêncio que se levanta
da noite imensa e imprecisa
ecoando recordações
reminiscências deslindadas no tempo
 
espero outros olhos
que fitos no abismo que habita em mim
expressem peremptórios
a evidência inconteste de nada sermos
para além do pensamento e do tormento desta existência
onde a minha alma eterna espelha e reverbera os sentidos
a procurar pela liberdade dentre poemas inacabados
que já não sei escrever
dentre os sóis flutuando sobre tardes derradeiras
dentre o alarido da vida clamando vida e vida e vida
poemas que nascem como sílabas recusadas
de emoções ancoradas a um verso e a um tempo
onde as palavras e gestos incontidos e sem nome
dizem das distâncias e das solidões caindo
como tristezas sobre os meus olhos cansados de não te ver
caindo sobre o meu corpo cansado de não te ter
calando a minha voz numa incognoscível saudade
 
a poesia, tão tímida quanto os sentimentos pueris, silencia
e em silêncio condena de amores a minha alma
e faz voar borboletas num céu de elude tessitura
e de saudades insinuadas por tanta ilusão
decompondo sonhos
espreitando a tarde
que se demorava inextinguível nos teus peitinhos pequenos
colhidos pelas minhas mãos
 
hoje, com as mãos sobre o rosto, balbucio o teu nome
lentamente
enquanto as lembranças inventam carinhos que não te fiz
e que me dizem da inquietação que era te amar
hoje, balbucio o teu nome
como o dia balbucia a manhã e se despe do escuro
vestindo-se da nua luz ainda adormecida da aurora
e na manhã leitosa e insonte
voam pássaros em direção ao passado
para além da tua  ausência
e do meu medo
 
o poema, então, se diz sozinho
como uma voz no deserto
que a vastidão perpetua
em te querer, mas és lua
recitada na ficção das noites inomináveis e cambiantes
que, deste nascer sem morrer,
não me deixam te esquecer

Miséria e fome

Senhor,
Viestes nos procurar
a mim e a este cão que atende pelo nome de Fome
trouxestes alento para as nossas lágrimas
trouxestes o cântaro cheio da Tua Verdade
e da Tua comiseração

da latência das Tuas palavras
inventa-se a paciência e/ou o desespero
escorrem os momentos para o fim
e o fim é a catedral onde a neblina apagará os círios
que consomem os dias e as noites
inelutavelmente

o homem deglutindo a fome
o cão salivando a fome
a criança aprendendo a fome
subsistem por imposição da vida

crianças faminta arrostando a vida
crianças no lixão mimetizando-se com os urubus
crianças carcomidas pela estultice dos discursos vãos
crianças apedrejadas pelo egoísmo inaudito
crianças pedindo nos semáforos
crianças na prostituição

Dizei, Oh! Senhores,
chefes das nações que sendo várias deveriam ser uma
que almoçam e que jantam e arrotam e jogam o sobejo fora
o campo semeado e a colheita são insuficientes?
a semente, se mente e não vinga e se vinga e se morre?
a miséria é algo tão distante, insólito e obscuro
sem direito sequer a um osso para o cão,
a um pão duro para o dono?

um dia, sentados diante da emoção incomensurável da mansidão de uma aurora
molhada pelo sereno que o vento traz e acordados pelo sussurro dos deuses,
olhando para o que acumulamos,
um dia pressentiremos (será)
que morrer de fome, na miséria é a quinta-essência da indiferença
açodando os círios acesos para que se apaguem mais celeremente todos os dias
sem atentar que tudo que é é eternidade

Final de outono

final de outono
final de tarde de outono
as tardes são estes afetos irredutíveis de poesia
que podes ver por entre a pétala e o orvalho
mudos
silenciosos
insofismáveis
são o inefável momento onde os rios e os mares se encontram lentamente
e o azul do céu tinge a saudade
e a chuva cai dos meus olhos

ao longe o pássaro canta em algum jardim
à fogueira do sol
às folhas amareladas
e ao inextinguível outono impregnado de transparências
dorme nos mares o vento
e teu nome
úmida ausência
esquecimento
sombra de um passado
e de uma canção insinuada pela memória
pela noite falaz
pelas tardes de intermináveis vermelhos e violetas
de aromas de jasmins levados pela brisa
e pelos suaves passos dos teus pés em meu corpo,
em minha alma
e no nume que a alimenta

os ventos derrubam as folhas que balançam no ar dourado
esbatido pelas sombras dos galhos vergados pela espera dos séculos
e pelas palavras que agonizam escondidas nos gestos
e na fragrância fugaz da lembrança do teu corpo

o ar se enche de cegos sussurros
tépidos segredos
nada aconteceu
o amor foi tão frágil
tão frágil como pode ser frágil o carinho desolado
como uma efêmera tarde
onde rosas brancas florescem por te recordar

quando tu te fostes andei caminhos incertos
vi teus olhos negros em cada céu que emoldurou as noites
ouvi teu riso
tão diferente das minhas emoções
que nestes dias de outono esperam
as cores plasmarem flores nos jardins
o vôo do pássaro despertando a praia
e a solidão sem destino
e tudo não foi mais que um amor sem nome
escrito todos os dias
pela ternura dos dedos afogados em teus cabelos
pela essência dos sentidos
pelo soluço que ficou
sem explicação na poesia

e tudo vivi como o menino sozinho
que ama o outono e seus sortilégios
e seus soluços evolados nos sonhos
ama
ama a noite e o bálsamo destas noites
silenciosas e frias
onde a minha alma ainda acaricia a liberdade dos versos
que ouço
sem princípio e sem fim
nas antigas vozes
que por entre as brumas
falam de amores
e cantam
como cantam os rios
como cantam as folhas que o vento derruba no rio
e levam consigo cores de um dia resvalante
suave
amo a noite
em cujas margens em sonho me deito
e me imolo com o punhal azul do teu nome
e recito a dor do punhal azul do teu nome
como quem diz para o mar
das terras perdidas
e dos antigos poemas riscados
letra após letra no abandono das noites passadas
e nas estrelas imaginárias
onde a dor tinha morrido
enquanto na madrugada já se ouvia
o amanhecer por trás da neblina de outono
e o som das folhas secas que suavemente
enchiam o ar de nostalgia
e de manhãs com cheiro de terra recém molhada
pelo orvalho que os anjos espargiam
no mistério
nas palavras
e nas pétalas entreabertas
dos poemas

Minha dor ainda espera

o outono veio outra vez...
agora sem ti
trazendo as frágeis horas aguilhoadas
articulando as longas noites e os acres dias
 
o perfume do vento palpita
o desamparo do tempo passando
soa lembranças na folhagem
esbatida sob um inconsútil sol de abril
no silêncio que perpassa a fulva manhã
os dentes-de-leão, levados pela aragem,
emprestam ao ar uma leveza tátil e friável
as folhas secas se debruçam
sob os níveos véus do nevoeiro ofegante
ante a beleza da manhã
e caem
 
ressumam os versos que a manhã decanta
nos jardins onde pululam os pardais
nos quintais onde o vento cantarola
tocantes cantigas de infância
 
correm descalças as lembranças
pela praia melancólica da tua ausência,
dos nossos mares,
agora exaustos,
das nossas ilhas,
agora tão doridas
dos fragmentos absolutos do nada
agora tão permanentes
 
a agonia das espumas
tecendo rendas nas ondas
querendo ser elegia
no prelúdio do verso
no momento infinito e rumoroso dos oceanos
acorda, suavemente, o silêncio
das praias entreabertas sob um sol latente
esculpido pela lassidão da solidão
 
minha dor ainda espera
o vento passar
e trazer as palavras que eu não te disse
palavras encobertas pelo silêncio envolto em ausência
palavras tão ternas como o cansaço dos corpos
depois do amor
tão leves
como a brisa que derruba a flor dócil sobre o teu nome
inesgotável como as madrugadas sem ti
 
a poesia que arrulha em minha alma,
em minha vida,
não acontece
a palavra se esconde
entre o outono branco da página
as veredas inacessíveis da melodia insonora
e dos ideogramas de um haicai
escrito como a chuva que cai
e bebe a sede dos versos molhados pelas cores das flores
 
um vento absorto e distraído
se equilibra sobre a página
               [ainda em branco
minhas mãos, timoratas,
flutuam sobre sofismas
no fim das premissas
há algo vago
como uma saudade vígil
como uma noite incriada
como a tua presença
dentro da minha solidão consistente
como a angústia de estrelas sem céu
ou algo assim,
enigmático e intrigante,
tão imperecível em mim
como você

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