(Título do artigo escrito pelo político e jornalista republicano João Chagas , em1891,a seguir à revolta falhada no Porto. Com a casa cercada pela polícia desde o começo da noite esperou continuando a escrever para o seu jornal A Republica Portuguesa).
Enquanto eles não vêm
Não me resigno à espera
Toda a minha força se contém
Na forte decisão que a supera
Mais um artigo para o jornal
Enquanto eles não vêm
Esperar não me coíbe
Nem minha inspiração retém.
As horas deixarei passar
Em trabalho empenhado.
Enquanto eles não vêm
Não espero amedrontado
O ideal que me inspira
Grande futuro tem
Nele ocuparei meu tempo
Enquanto eles não vêm
Enquanto eles não vêm
Em nada me vão inibir
As horas vou preencher
E até deles sorrir.
Não ficarei refém
De ansiosa expectativa
Continuarei meu labor
Enquanto ele não vêm
Sejam cinquenta ou cem
O número não conta
Enquanto eles não vêm
O problema não é de monta
Enquanto eles não vêm
sou eu o dono e o senhor
Nem o mais leve temor
Antes algum desdém
Meu trabalho ou repouso
Nada se vai alterar.
Enquanto eles não vêm
Meu tempo é precioso.
A espera me dá ânimo.
Enquanto eles não vêm
A liberdade é minha
e inalienável bem.
Enquanto eles não vêm
Não é um tempo morto
Aproveitá-lo convém
Como meu desforço.
Quanto mais o cerco se aperta
E a hora se aproxima
Enquanto eles não vêm
Vou manter-me alerta.
Seu poder é limitado.
Enquanto eles não vêm
Não me sinto encurralado
Menos prisioneiro de alguém.
Enquanto eles não vêm
Minha vida continua
A força que eles tem
Não é da liberdade gazua.