stellarprince

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Professor aposentado, poeta, escritor e consultor pedagógico.

1950-02-24 Campo Belo, MG, Brasil
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Alguns Poemas

O pequeno polegar


O dia em que quase perdi o polegar
Era uma criança que desde cedo fui acostumado a ajudar meus pais nos afazeres da casa. Havia hora para trabalhar, estudar e brincar.
Nunca fui obrigado a fazer trabalhos pesados, mas sempre tive vontade de ter minhas pequena plantação, queria aprender a cultivar a terra e diante de meu pedido papai deixou uma pequena área para eu plantar. Ah como era gratificante depois de algum tempo ver germinar as sementes, crescer o feijão, o arroz, as ramas de batata, mandioca, as hortaliças.
Papai plantava de tudo para o nosso sustento e sobrava até para vender. Havia um plantio de mandioca que dava para fazer farinha e polvilho. Para facilitar o beneficiamento ele construiu uma engenhoca para ralar a mandioca exigindo-se pouca força devido as rodas e engrenagens da máquina. Até uma criança como eu, de sete, oito anos conseguia mover a manivela do ralador manual.
Certo dia, enquanto meus pais cuidavam de outros afazeres pedi para adiantar o serviço indo ralar mandioca. Não precisava de muita força para mover a roldana, o trabalho ia bem. Com a mão direita movimentava a manivela e com a esquerda empurrava a mandioca que produzia uma massa alva e espessa. A bacia aos poucos enchia daquela massa, tudo estava indo tranqüilo e sem cansaço.
De repente, o branco tornou-se rubro, mal pude perceber o que havia acontecido.
Como de repente aquela massa alva manchava-se de vermelho forte?
Foi tudo tão rápido que só depois de um tempo pude perceber o que havia acontecido.
Segurava firmemente a mandioca com minha mão esquerda quando de repente acabou se a raiz e foi o meu dedo sem que eu percebesse.
Os dentes do cilindro cravaram em meu dedo polegar deixando ranhuras profundas e quase o deslocando.
Deixei o local e segurando meu dedo com a mão direita e sai correndo gritando por meu pai.
- Pai, paieeeeeeee!
- O que foi filho?
Correu comigo para dentro de casa colocando logo um punhado de sal grosso com água lavando bem o ferimento que continuava sangrar.
Tratou de colocar um pano em volta amarrando-o e pegando-me ao colo acalentando-me na tentativa de acalmar-me.
Os dias se sucederam e o machucado estava com mau aspecto e ainda doendo muito.
Falei com meu pai que o meu dedo polegar estava com mau cheiro, e que o ferimento estava piorando.
Foi ai que ele resolveu levar-me ao Porto dos Mendes onde tio Cristiano possuía uma pequena farmácia, a única da região.
Chegando lá tio Cristiano tirou aquele pano que servia de curativo e fez uma assepsia terminando com um bom curativo com gazes e esparadrapo. Receitou-me alguns remédios e orientou papai como cuidar e fazer novos curativos.
Já se passou quase 50 anos e no meu dedo as marcas deste episódio do dia que quase perdi meu polegar.

UM TIO INESQUECÍVEL


Tio Zezé era um daqueles tios que gostava de conversar sobre tudo principalmente contar histórias,de pessoas, lugares sempre com toque misterioso no ar e nas suas palavras.
Dos irmãos mais velhos ajudou cuidar dos mais novos.
Logo cedo aprendeu a dividir com a irmã mais velha a responsabilidades de cuidados país que tragicamente por motivos diferentes adoeceram e partiram cedo.
Nunca casou-se viveu desde cedo assumindo a responsabilidade com os irmãos e dos negócios da família sendo nomeado tutor dos irmãos menores assim que a mãe morreu.
Passou a maior parte da sua vida no povoado pertencente à sua cidade natal, Porto dos Mendes.
Desde jovem, muito religioso, cuidou dos. Assuntos paroquiais, sendo sacristão e zelador da igreja.
Exerceu vários cargos no povoado, sendo representante do Instituto Butanta, em SP, Juiz de Paz, agente público de saúde, administrador da barca local para travessia do Rio Grande, entre outros.
Mas como tio,foi uma daquelas pessoas que gostava de passar seus conhecimentos, e suas estórias.
Falava das coisas que ouviu, que lhe contaram e de suas memórias.
De fala mansa com um sotaque peculiar tendendo ao lusitano.
Zé Neves sabia de tudo um pouco e no povoado que morava era um tipo de anfitrião.
Um irmão prestativo é carinhoso com os sobrinhos dos quais eu era o que morava mais distante fora do povoado.
Durante os anos que morei no Morro Grande, tive o privilégio de, algumas vezes, receber sua visita em casa e numa delas ele chegou com um Monjolo, em miniatura, media cerca de cinquenta centímetros talhado em madeira manualmente por ele e acompanhava o pilão bem feito da mesma forma.
Ele me disse: - vamos escolher um local para instalar e por para funcionar de verdade.
Depois de observar ao redor da casa ele escolheu um local e pegou algumas ferramentas e começou a preparar o local.
Disse: - aqui está bom, vamos fazer uma cabana, cobrir com sapé e instalar o monjolo debaixo da cobertura. Vamos desviar um pouco de água para cá colocando uma biquinha para encher o bojo do monjolo e fazer ele funcionar direitinho.
É assim em pouco tempo estava tudo funcionando... a cabana era pequenas mas eu cabia nela, sentado no chão observando o trabalho lindo que o tio fez.
Um gesto simples mas cheio de carinho e amor que deixou gratidão e lembranças para a vida toda!

MEU PRIMEIRO PAPAGAIO

Jamais me esquecerei de meu primeiro papagaio.
Estávamos morando com meus avós maternos e era costume passarmos finais de semana na cidade com meus avós.
Como vovó havia vendido a casa da cidade nossa estadia era na casa da vó Julita, minha bisavó.
A casa da vó Mulata, como era tratada, morava com o filho Juarez e sua família, era como "quartel general" situada, na época em frente à velha caixa d'água na cabeceira da praça.
A casa além de hospedar a família da vó Anita quando vinha a cidade era ponto de encontro dos irmãos devido à localização na entrada e saída da cidade para as terras do Abilio.
Foi numa destas estadias, numa manhã de segunda feira todos já se preparavam para partir para a roça. Estávamos só esperando vovô chegar com a camionete para partir. Estava no alpendre observando os meninos que brincavam na praça, naquele dia ensolarado com seus papagaios coloridos e cada um tentando subir mais alto e se exibir mais. Mas ao contrário do que se observa hoje, não havia tentativa de estragar a brincadeira do outro, todos soltavam seus brinquedos em harmonia
Mal percebi que papai acabara de chegar com um embrulho e logo vovô também encostou a camionete em frente chamando por vovó.
⁃ Anita! Chama a Gileite, o Walter e os meninos.  (Disse vovô que se manteve na direção.
Na frente com vovô foram a vovó, mamãe com o neném, o Pascoal. Eu fui com papai na carroceria entre os "trem" que compraram para levar pra roça.
Embora já desconfiava o que seria o que papai fora comprar de última hora não hesitei perguntar.
⁃ Pai. O que o senhor comprou? Para quê? - perguntei timidamente.
⁃ Comprei papel de seda, linha 10 ....para fazer um papagaio para você igual dos meninos.
Mal podia conter de alegria e ansiedade para chegar na roça e esperar pelo prometido.
Hora de descarregar a camionete, vovô pegou suas compras levou as para o porão e papai ajudou a vovó levar os "trem" para a dispensa, enquanto mamãe cuidava do menino.
Mal podia esperar terminar a lida. Mas vovó chamou:
⁃ Adarto, vem me ajudar aqui. E depois vai lá na Memba e veja se ela tem um pouco de feijão cozido.
Conforme vovó pediu corri lá na casa do Zé Soares e fui logo encontrei a Memba e pedi o feijão e voltei correndo com uma vasilha com o feijão.
Quando cheguei na fazenda encontrei papai sentado lá no terreiro com um canivete preparando algumas varetas de bambu. Ansioso enchi papai com perguntas e ele calmamente me respondia enquanto trabalhava as varetas alisando as cuidadosamente com o canivete afiado.
Logo ele levantou e tomou o material preparado e subiu as escadas e entrando na varanda onde preparou a mesa, retirando os objetos que lá estava e colocou as varetas, a linha e o papel. E pediu que eu o aguardasse enquanto dirigiu-se à cozinha. Pegou uma colher de polvilho acrescentou um pouco de água e levou ao fogão onde aqueceu e transformou numa cola branca, um grude e colocou numa vasilha.
 Na varanda enquanto todo material já estava em cima da mesa estendeu a folha de seda roxa na horizontal e cuidadosamente passou o grude na extremidade e colou a outra folha na vertical de forma que uma armação em cruz fosse colocada como armação.
As varetas foram amarradas (no eixo) cuidadosamente e firme e em seguido circundada com a mesma linha utilizada no amarro.
Eu só observava papai com sua habilidade na sua arte com o bambu, a linha e o papel. Mal pude conter minha ansiedade. Com o adiantamento do trabalho interrompi o que papai estava fazendo indagando:
⁃ Pai, mas vai faltar papel nas beiradas!
Calmamente papai me explicou.
⁃ você está vendo estes pedaços em forma de triângulos que cortei nas bordas inferiores, do rabo?
⁃ Então, assim como a costureira faz, emenda, colando estes pedaços que sobrou nos lados que ficou faltando.
Pai entendi e no final não sobrou quase nada e algumas aparas papai pediu que guardasse para eventuais reparos no caso de algum rasgo acidental!
As colagens já estavam prontas o papagaio já havia tomado forma e eu todo orgulhoso gritava:
⁃ Mãe, mamãe nota, (como chamava vovó) vem ver o meu papagaio, vem mãe...
⁃ Não pode pegar enquanto não secar, tem que esperar....fui alertado.
Mas enquanto ficava lá olhando todo feliz aquele enorme papagaio, todo belo, vermelho e roxo mal podia vê lo singrando os céus!
Mas uma duvida ainda me inquietava, como vou amarrar a linha!?
Nisso papai percebendo minha dúvida disse:
⁃ Assim que secar bem vou fazer o estirante, o cabresto o qual vai sustenta-lo no ar!
Aí depois de receber esta explicação fiquei mais tranquilo embora ainda ansioso.
Almoçamos e logo depois acompanhei atentamente a marcação, (furos) uma cruz centralizada no cento do papagaio onde as varetas se cruzam e estava pronto para ir ao ar.
Colocado de pé na vertical era maior do que eu e por isso fui orientado a ter cuidado no modo de carregar e segurar.
Fomos eu, papai, mamãe e vovó lá para a frente da fazenda soltar o papagaio.
Com a ajuda de papai logo subi-o todo imponente e contrastando com o céu azul e algumas nuvens em forma de algodão de passagem no céu!
Assim que dominei o lindo presente ficamos eu e mamãe (já que o menino estava dormindo) admirando aquele papagaio cada vez mais alto.
Noutro dia aprendi com mamãe a enviar carta, bilhete como dizia ela.
Um disco de papel, cerca de dez centímetros de diâmetro, um furo central e um corte encaixava-se na linha impulsionando a girar e dirigir se ao eixo do papagaio lá no alto. (Mamãe dizia que eram cartas e bilhetes que se mandava aos anjos lá no céu)!
Assim o papagaio, este primeiro, eu e ele passamos muitos dias ensolarados ao lado do belo ipê , em frente à tulha, onde foi minha primeira escola.
Logo aprendi fazer outro, depois que o primeiro, por acidente resolver ficar no alto de uma árvore e não mais voltou!
Fiz um, dois, três é muitíssimo outros...cresci...noutra cidade onde fui estudar vi que os papagaios de lá não eram como o meu até o nome era outro, pipa!
Resolvi fazer um agora, igual o de outrora só que quis inovar e coloquei uma luzinha pequena em cada extremidade cuidadosamente afixada e ligadas com um fio fino ligados à uma pilha pequena centralizada no bordo.
Nas noites enluaradas e frias tendo de cenários de fundo as serras da manteigueiras soltava meu papagaio que subia silenciosamente com suas lâmpadas nas extremidades.
Nas vizinhanças cogitavam sobre aquele objeto silencioso pairado no céu contrastando com o céu estrelado.
Até hoje ainda há quem se lembra e comentam da façanha do menino que soltava papagaio a noite!
Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!
Diones
Esse escrito me fez lembrar a minha amada! Gostei muito. Parabéns...
05/novembro/2018

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