gersonderodrigues

gersonderodrigues

Escritor, Poeta, Filósofo, Professor e Anarquista brasileiro autor dos livros 'Aforismos de um Niilista' - 'Tragédias & Niilismo' 'Poesias & Maldições' - 'Tragédias & Niilismo'

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Poema - Insônia

São três horas da manhã
e eu não consigo dormir

Encaro o vazio
com a mesma paixão que judas
encarou a crucificação de cristo

Mudo
completamente mudo!

Nos devaneios de um inquietante silencio
a minha mente flerta com ideias suicidas
que se reveladas
trariam mais miséria ao mundo

Nas auroras dos meus pensamentos
o universo se curva sobre a minha vontade
e a minha mente não se cala nem por um segundo

Por fora sou um homem apático
frio como se nunca pensasse em nada
calado como um homem mudo que vendeu sua alma ao diabo

Eu me levanto e vou até o banheiro
encaro no espelho a figura de um homem morto

O que é a morte para quem nunca viveu?

Naquele quarto sozinho
eu sou deus
sobre um reino de baratas e desprezo

Das minhas janelas eu escuto os pássaros cantarem
mas é impossível
a última vez que eu olhei o relógio
eram três horas da manhã

Abro as janelas assustado
e vejo uma rua repleta de gente
pessoas dos mais diversos tipos

O barulho das correntes em seus pés me deixam louco
não adianta gritar para avisá-los
eles não podem vê-las
tampouco escuta-las

Passei a madrugada inteira pensando
e não vi a hora passar
eu deveria estar surpreso
mas isso acontece todos os dias

Fecho a janela para não escutar as correntes
ou os gritos dos deuses a clamarem pelo meu nome

Eu moro sozinho
desligo o telefone para não me procurarem

Volto para cama
aonde eu afogo todos os meus sentimentos
compartilhando com o nada as minhas dores

E sem que eu perceba
adoeço todos os dias
com a maldição de viver

Eu deveria ligar para os meus pais
e dizer que está tudo bem
mas eles morreram quando eu tinha dezesseis
e desde então estou sozinho no mundo

Todos os meus amigos se afastaram de mim
mas não posso culpa-los
quem seria amigo de um homem insano?

Penso todos os dias em suicídio
a primeira vez que eu pensei eu tinha doze

Levanto da cama e amarro um lençol
na parte mais alta do quarto

E encaro a mim mesmo
dependurado com os meus pés
tentando tocar o chão
mas já era tarde demais para rezar
o diabo havia tocado a minha alma

São três horas da manhã
e eu não consigo dormir...

- Gerson De Rodrigues
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fernandarochamesquita
Desculpe penso que não ficou a minha identificação no comentário
22/junho/2020
fernandarochamesquita
Geralmente afasto-me da negatividade, mas os seus poemas têm luz apesar da palavras parecerem agressivas, desorientadas. Elas conciliam-se com o estado verdadeiro de muitos seres humanos. Sinto que não existe a tentativa de se vitimizar, mas sim o desabafo sincero de horas em guerra com a vida e com o próprio ser. Conheço a força dessas horas, da insónia, das inquietações, da escuridão e do enorme esforço para atingir a luz. Acredite, atingi-la é o mais grandioso climax que poderemos sentir. Torna-nos vitoriosos, humildes e compreensivos com os demais que poderemos encontrar nesse estado. Desculpe se me enganei na análise mas foi o que senti ao prender-me na leitura dos seus poemas. Eles têm o dom da autenticidade.
22/junho/2020

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