

Zarak Krumfort
Zarak Krumfort é escritor independente. Sua escrita percorre o silêncio, a escuta e as margens do humano. Escreve em terceira pessoa, com linguagem direta, explorando conflitos internos, identidade e aquilo que raramente é dito. Publica em português e outros idiomas. Escute o silêncio — ele fala mais alto que as palavras.
"Além das Penas".
Tem gente que olha, mas não vê.
Assiste, mas não compreende.
Consome, mas não interpreta.
Porque falta o essencial: leitura simbólica.
Não é ignorância — é outra coisa:
é incapacidade de ir além do literal.
É olhar sem repertório.
É viver tudo na superfície.
Muita gente: quer mensagem explicada,
quer sentido óbvio, quer validação rápida,
quer emoção sem reflexão.
O problema nunca foi a obra.
É a incapacidade de perceber o que não vem mastigado, é uma recusa ativa ao diálogo com o que é complexo.
Qualquer coisa que exija silêncio, interpretação ou camadas vira “viagem”, “exagero” ou “nada demais”.
Não porque a obra é rasa — mas porque o olhar é.
A arte não dá respostas, ela provoca perguntas — mas só para quem aceita fazer a pergunta.
É o mesmo tipo de gente que olha para um quadro e diz que “qualquer um faria”. Que lê um texto e diz que “não viu nada demais”. Que assiste a uma peça e resume tudo a um gesto mal compreendido.
E talvez seja por isso que a arte canse, a política empobreça e o silêncio assuste.
Porque entender dá trabalho.
E nem todo mundo quer trabalhar.”
Tem gente que vai assistir no teatro a peça “O Lago dos Cisnes” e volta pra casa dizendo: ah! Era apenas uma mulher imitando um pássaro, reduzindo Tchaikovsky, a coreografia.
É como dizer que Dom Quixote é "um velho batendo em moinhos".
O cisne não está ali para ser imitado. Está ali para ser compreendido.
Talvez o mundo esteja cheio demais de gente que só enxerga penas, mas nunca o voo.
E assim seguimos, cercados de gente que confunde profundidade com complicação, sensibilidade com exagero, e reflexão com perda de tempo.
No fim, não é a arte que falha.
É o olhar que nunca aprendeu a ir além das penas.
Escritas.org