

Silva Alvarenga
Silva Alvarenga foi um poeta brasileiro do período arcádico, conhecido por sua obra que mescla a influência clássica com temas da natureza e do amor, refletindo os ideais estéticos de sua época. Sua poesia é caracterizada pela linguagem elaborada, pela busca da perfeição formal e pela exploração de sentimentos de maneira contida e idealizada. Apesar de sua produção literária ser relativamente escassa em comparação com outros poetas arcádicos, Alvarenga deixou um marco em sua contribuição para a poesia brasileira, servindo como um elo entre a tradição clássica e as primeiras manifestações de uma sensibilidade que prenunciava o romantismo. Sua obra, embora marcada pelas convenções de seu tempo, revela um lirismo particular e uma busca pela expressão de um ideal de beleza.
O Rio - Rondó XLIX
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.
Vêm as Graças lagrimosas,
E os Amores sem ventura
Nesta fria sepultura
Pranto e rosas derramar.
Por ti, Glaura, a Natureza
Se cobriu de mágoa e luto:
Quanto vejo, quanto escuto
É tristeza, e é pesar.
Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.
A escondida, áspera furna
Deixam sátiros agrestes,
E de lúgubres ciprestes
Vem a urna circular.
Vêm saudades, vêm delírios,
Vem a dor, vem o desgosto
Com os cabelos sobre o rosto
Murta e lírios espalhar.
Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.
Nestes ramos flébil aura
Triste voa e presa gira:
Glaura aqui, e ali suspira,
Torna Glaura a suspirar.
Eco, as Dríades magoa,
O saudoso nome ouvindo;
E na gruta repetindo,
Glaura soa e geme o ar.
Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.
Glaura ó Morte enfurecida,
Expirou... que crueldade!
E pudeste sem piedade
Sua vida arrebatar?
Cai a noite, a névoa grossa
Turba os Céus com manto escuro;
E eu aflito em vão procuro
Quem me possa consolar.
Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
Escritas.org