

Almada Negreiros
José de Almada Negreiros foi um multifacetado artista português, figura central do Modernismo em Portugal. Escritor, pintor, desenhista e coreógrafo, sua obra é marcada por uma profunda inquietude, por uma constante busca pela renovação e pela experimentação em diversas áreas artísticas. Ele transitou com maestria entre a literatura e as artes plásticas, deixando um legado singular. Sua produção literária é caracterizada pela ousadia formal, pelo humor, pela sátira social e por uma visão crítica da realidade portuguesa. Em suas pinturas, destacam-se as linhas vibrantes, as cores intensas e a representação do movimento e da identidade nacional. Almada Negreiros é uma das figuras mais importantes e representativas da cultura portuguesa do século XX.
CANÇÃO DA SAUDADE
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha
irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha
edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e
eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas
rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres
são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos.
Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
(Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1)
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