Virginia Woolf

Virginia Woolf

Virginia Woolf foi uma escritora modernista inglesa, considerada uma das figuras literárias mais importantes do século XX. Nascida em Londres, ela foi pioneira no uso do fluxo de consciência como técnica narrativa, explorando a vida interior e a percepção subjetiva de seus personagens. Suas obras frequentemente abordam temas como a condição feminina, a passagem do tempo e a natureza da realidade. Woolf foi uma figura central no Círculo de Bloomsbury, um grupo de intelectuais e artistas influentes. Apesar de sua prolífica carreira literária, ela lutou com problemas de saúde mental ao longo de sua vida, o que eventualmente levou ao seu trágico fim. Sua influência na literatura e na teoria feminista perdura até hoje.

1882-01-25 South Kensington, London
1941-03-28 Lewes
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Vou até a prateleira. Se escolho, leio meio página de qualquer coisa. Não preciso falar. Mas escuto. Estou maravilhosamente alerta. Certamente não se pode ler sem esforço esse poema. Muitas vezes a página está decomposta e manchada de lama, rasgada e grudada por folhas fanadas, fragmentos de verbena ou gerânio. Para ler esse poema é preciso ter miríades de olhos, como um daqueles faróis que giram sobre as águas agitadas do Atlântico à meia-noite, quando talvez somente uma réstia de algas marinhas fende a superfície, ou subitamente as ondas se escancaram e delas emerge algum monstro. É preciso pôr de lado antipatias e ciúmes, e não interromper. É preciso ter paciência e infinito cuidado e deixar também que se desdobre o tênue som, seja o das delicadas patas de uma aranha sobre uma folha, seja o da risadinha das águas em alguma insignificante torneira. Nada deve ser rejeitado por medo ou horror. O poeta que escreveu essa página (que leio em meio a pessoas falando) desviou-se. Não há vírgula nem ponto-e-vírgula. Os versos não seguem a extensão adequada. Muita coisa é puro contra-senso. É preciso ser cético, mas lançar ao vento a prudência, e, quando a porta se abrir, aceitar resolutamente. Também, por vezes, chorar; também cortar implacavelmente com um talho de lâmina a fuligem, a casca e duras excreções de toda a sorte. E assim (enquanto falam) baixar nossa rede mais e mais fundo, e mergulhá-la docemente e trazer à superfície o que ele disse e o que ela disse, e fazer poesia.

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