
Emílio Burlamaqui
Emílio Burlamaqui foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, conhecido por sua participação no movimento modernista e por sua escrita que transitava entre o lirismo e a experimentação formal. Sua obra abordou temas como a cidade, a efemeridade da vida e as complexidades do sentimento humano, com uma linguagem que refletia as inovações estéticas de sua época. Como jornalista e crítico, contribuiu para a divulgação e o debate da produção literária brasileira, exercendo influência no cenário cultural de seu tempo. Sua atuação foi marcada pela busca por novas formas de expressão poética.
1922-03-02 Belém
2014-07-19 Rio de Janeiro
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Angico
Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.
O cigarro era forte, o pigarro também.
Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.
Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?
Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.
E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.
Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.
Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.
E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.
Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.
O cigarro era forte, o pigarro também.
Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.
Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?
Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.
E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.
Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.
Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.
E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.
Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?
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