Alice Ruiz

Alice Ruiz

n. 1946 BR BR

Alice Ruiz é uma poeta e tradutora brasileira, reconhecida por sua obra poética concisa, marcada pela experimentação formal e pela reflexão sobre o cotidiano, a memória e as relações humanas. Sua poesia, muitas vezes apresentada em formatos breves, como haicais e poemas curtos, revela uma notável capacidade de síntese e uma sensibilidade ímpar para captar a essência dos momentos. É também uma figura importante na tradução literária, com contribuições significativas para a difusão da poesia estrangeira no Brasil.

n. 1946-01-22, Curitiba · m. , Ciudad de México

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Se

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Alice Ruiz é uma poeta, tradutora e escritora brasileira. Nasceu em 1946, em São Paulo.

Infância e formação

Criada em São Paulo, Alice Ruiz desenvolveu desde cedo um interesse pela literatura. Sua formação envolveu estudos em diferentes áreas, incluindo a área de artes, o que se reflete em sua abordagem experimental e visual em alguns de seus trabalhos.

Percurso literário

Alice Ruiz iniciou sua carreira literária com uma poesia que se destacou pela concisão e pela experimentação. Publicou diversos livros de poesia, explorando diferentes formatos e temáticas. Paralelamente, construiu uma sólida carreira como tradutora, trazendo para o português obras de autores como Bertolt Brecht e Wisława Szymborska.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Alice Ruiz é caracterizada pela brevidade, pela precisão vocabular e por uma forte carga de sugestão. Seus poemas frequentemente abordam o cotidiano, as sensações, a memória, o corpo e as relações interpessoais, com um olhar atento aos detalhes e à subjetividade. Ela experimenta com a forma, utilizando frequentemente o haicai e o poema em prosa curto, mas também explora formas mais extensas. Seu estilo é direto, mas carregado de lirismo e reflexão.

Contexto cultural e histórico

Alice Ruiz atua no cenário literário brasileiro desde a segunda metade do século XX, acompanhando e participando das transformações da poesia contemporânea no país. Sua obra dialoga com as tendências da poesia que busca uma linguagem mais direta e experimental, aproximando-se de outras vertentes da literatura que exploram a fragmentação e a subjetividade.

Vida pessoal

As informações sobre sua vida pessoal são discretas, mas é sabido que Alice Ruiz manteve uma intensa atividade literária e intelectual ao longo de sua vida, dedicando-se tanto à criação quanto à tradução.

Reconhecimento e receção

Alice Ruiz é uma poeta respeitada e reconhecida no meio literário brasileiro. Sua obra tem sido objeto de estudos e sua importância como tradutora é amplamente admitida. Recebeu prêmios e distinções que atestam a relevância de sua contribuição para a literatura.

Influências e legado

Influenciada por poetas que exploraram a concisão e a experimentação, como os poetas do haicai japonês e alguns modernistas, Alice Ruiz, por sua vez, influenciou a geração mais jovem de poetas pela sua capacidade de condensação e pela delicadeza de sua escrita. Seu trabalho como tradutora também contribuiu para enriquecer o panorama literário brasileiro.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Alice Ruiz convida a uma leitura atenta e contemplativa, onde o leitor é levado a refletir sobre as pequenas coisas da vida e os sentimentos que elas evocam. Sua obra pode ser interpretada sob a ótica da efemeridade, da memória e da busca por sentido no instante presente.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Alice Ruiz é conhecida também por sua habilidade em criar poemas visuais e por sua dedicação à arte e à cultura em suas diversas manifestações.

Morte e memória

Alice Ruiz está viva e continua sua produção literária e tradutória.

Poemas

15

Se

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

2 201

Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

3 241

assim que vi você

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você

parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido

alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido

alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura

já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei
parte da tua leitura


In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.19. (Cantadas literárias, 24
2 281

topa um pacto de sangue

topa um pacto de sangue
com essa cigana do futuro
que lê
o passado na tua boca
o presente no teu corpo
e nos teus olhos
tanto quanto nos astros?


Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
2 110

sou uma moça polida

sou uma moça polida
levando
uma vida lascada

cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
3 576

Drumundana

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)

NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
10 292

Haicai

primavera
até a cadeira
olha pela janela

luzes acesas
vozes amigas
chove melhor

3 031

na esquina da consolação

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 188

lá ia eu

lá ia eu
toda exposta
àquele olhar
de garfo e faca
vendo
a mesa posta
minhas postas em fatias
ouvindo dos convivas
piadas macarrônicas


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
2 090

enchemos a vida

enchemos a vida
de filhos
que nos enchem a vida

um me enche de lembranças
que me enchem
de lágrimas

uma me enche de alegrias
que enchem minhas noites
de dias

outro me enche de esperanças
e receios
enquanto me incham
os seios


Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
4 057

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