Lista de Poemas

Pede três desejos

Ver contigo a alva
depois ver a noite
e depois de novo a alva
na luz de teus olhos.

655

Ida e volta

À ida para o amor
vamos todos a arder,
com borboletas nos lábios
e no olhar uma chispa de fogo.
Sentimos o sangue a bater
nas têmporas, nas virilhas, no pulso.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto em penumbra.

Ao voltar do amor, murchos,
enjeitados, culpados
ou simplesmente absurdos,
vimos muito pálidos, muito frios.
De olhos desmaiados, mais grisalhos
e com os leucócitos nas nuvens,
somos um esqueleto e sua derrota.

544

Enigma

No primeiro dia que saí contigo
disseste que o teu trabalho que era estranho.
Mais nada. Todavia, eu sentia
a pele a rasgar-se como trapos
de cada vez que me tocavas com a mão.
E os teus olhos pareciam-me punhais
a fazer-me doer os meus.
Daí para a frente foi sempre a mesma coisa:
tu orgulhavas-te da tua arte,
mais subtil e directo em cada dia
e eu nunca percebia nada.
Mas agora sei. Já conheço o teu ofício:
Atirador de facas. A mais certeira
atiraste-ma ao coração.

653

Que fazes aqui?

Pensava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar,
quando pude enfim fechar os olhos
e esquecer-me de ti e das tuas manhas,
da tua insistência, do teu fito mau,
da tua força para vencer-me.
Pensava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, e acordo
e vejo-te de novo junto a mim,
dentro de mim, cingindo-me, colada a mim,
invadindo-me, afogando-me, diante
dos olhos, frente à minha vida,
sob a minha sombra, nas minhas entranhas,
no pulsar do meu sangue, entrando-me
pelo nariz quando respiro, vendo
por minhas pupilas, atiçando fogo
às palavras que deito pela boca.
E agora, que é que eu faço? como poderia
desterrar-te de mim ou acostumar-me
a viver contigo? Vamos lá começar
por caprichar nos modos.
Bom dia, tristeza.

685

Carminus

Pesadelo não é, nem um sonho doce.
Começa a amanhecer e eu caminho sozinha
pelas ruas de um lugar que não conheço
onde não me sinto estranha nem estrangeira.
E todavia surpreende-me cada coisa,
a luz a dar nas paredes,
o eco dos meus passos, o cheiro dos pátios
com azulejos, fontes, laranjeiras,
a tremura que me agita numa esquina
(talvez o frio, talvez a vida negra).
Abertos a meus olhos os saguões,
a sua frescura, a penumbra, parece que me falam
uma língua antiga que meu sangue reconhece.
Tantas portas abertas, parecem bocas,
mas de nenhuma sai tua voz.
E nenhuma me chama por meu nome.

591

Duas gotas de suor

I
Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.

II
Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.

608

Dragões

Chegou a hora de matar o dragão,
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.

O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.

Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.

464

Sonho com meu pai

Já aqui estou, não chores, pequenita,
parte-me o coração ver-te chorar.
Despedi-me de todos ao partir,
menos de ti, não te encontrei naquele dia
e tive que andar, estava com pressa,
não podia esperar. Mas avisei
que voltaria quando terminasse
de fazer o que tinha de fazer longe.
Porque é que ninguém te disse nada?
Como puderam deixar que sofresses tanto
pensando que eu tinha morrido? Pobre Amalia,
tão fria e racional na aparência,
tão vulnerável lá dentro no coração.
Estou aqui. Não chores, que o teu pranto
poderia dissolver-me nas trevas
mais uma vez, para sempre.

606

A mulher do soldado

Recebi-o a chorar de alegria.
Regressava tão sujo e tão faminto
que dava nojo a qualquer um.
Sujo na farda, de sangue próprio
e alheio; faminto nos olhos
de um corpo de mulher à espera.
Beijei-lhe a lama e o sangue da boca
e lambi-lhe as feridas como um cão.
Amava-o, não podia fazer-me nojo.
Nem sequer me importou que rasgasse
com brusco deleite as meias de seda
que me esturraram as economias.
Não conseguia perguntar-lhe
se teve medo e pensou em fugir.
De novo o tinha. Regressado.
O resto não importava.

601

Agora

Agora que o caminho que devo percorrer
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?

676

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Olá....Amália.... meu e mail : zanotelliademirdomingos@outlook.com. se for possível.... até mais ver....

Olá... Amália Bautista , grande poetisa.... graannnnnde..... me visite , podemos trocar e mails? me responda....obrigado.ademir.

Identificação e contexto básico

Amalia Bautista é uma poeta espanhola. Informações sobre pseudónimos ou heterónimos não são amplamente divulgadas. Data e local de nascimento: 10 de outubro de 1961, Madrid, Espanha. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Pertence a uma família de classe média espanhola, inserida no contexto cultural de Madrid. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Espanhola, escrita em espanhol. Contexto histórico em que viveu: Viveu o período da transição espanhola para a democracia, as transformações sociais e culturais da Espanha contemporânea, e a integração europeia.

Infância e formação

Amalia Bautista nasceu e cresceu em Madrid. Sua formação educacional ocorreu na Espanha durante um período de significativos avanços culturais e sociais. Sua inclinação para a literatura e a poesia provavelmente se desenvolveu em meio ao ambiente cultural vibrante da capital espanhola. Detalhes sobre influências específicas em sua juventude ou movimentos artísticos absorvidos são menos documentados publicamente.

Percurso literário

O início da carreira literária de Amalia Bautista se deu no contexto da poesia espanhola contemporânea. Sua obra tem demonstrado uma evolução consistente, com um aprofundamento nos temas abordados e um refinamento de seu estilo. Ela tem publicado regularmente, participando de importantes antologias e revistas literárias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "Quema de Inocentes" (1985), "El Pozo y el Péndulo" (1988), "La Voz de la Sombra" (1990), "Como la Cera que Deja Huella" (1990), "La Función del Destino" (1996), "El Ril de un Caballo" (2001), "La Ciudad Sumergida" (2005), "Cuaderno de la Emoción" (2008), "Las Poetas del Siglo XIX" (2008), "Pequeña Frase" (2009), "La Vida en un Hilo" (2011), "No es el Final" (2017). Temas dominantes: A poesia de Bautista explora a memória, o tempo, a efemeridade da vida, o amor, a condição feminina, a cidade, a natureza e a introspecção. Seus poemas frequentemente buscam capturar momentos e sensações, refletindo sobre a existência. Forma e estrutura: Sua obra utiliza predominantemente o verso livre, com uma estrutura clara e musicalidade intrínseca. Embora não se prenda a formas fixas, há uma preocupação com o ritmo e a sonoridade dos versos. Recursos poéticos: Emprega metáforas sutis, imagens evocativas, um ritmo melódico e uma linguagem acessível, porém carregada de profundidade semântica. Tom e voz poética: O tom é frequentemente lírico, reflexivo e intimista. A voz poética é predominantemente pessoal, mas consegue alcançar uma universalidade ao tratar de sentimentos e experiências comuns. Linguagem e estilo: Sua linguagem é marcada pela precisão, pela clareza e pela elegância. Evita excessos, buscando a palavra exata para expressar a nuance do sentimento ou do pensamento. Inovações formais ou temáticas: Embora não seja uma poeta de rupturas radicais, sua contribuição reside na forma como aborda temas universais com uma sensibilidade contemporânea e uma clareza estilística notável. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialoga com a tradição lírica espanhola, mas se insere plenamente na poesia contemporânea, mantendo uma voz autêntica. Movimentos literários associados: Não se alinha estritamente a um único movimento, mas sua obra é frequentemente associada à poesia da "Generación del 98" e "Generación del 27" pela sua profundidade e qualidade lírica, embora seja uma autora contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Amalia Bautista é parte da geração de poetas espanhóis que emergiram após a ditadura franquista, vivenciando um período de abertura cultural e democratização. Sua obra reflete as preocupações e sensibilidades de seu tempo, com um olhar voltado para as questões humanas universais e a vida em uma sociedade em transformação. Ela dialoga com outros escritores de sua geração e com a rica tradição literária espanhola.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Amalia Bautista, incluindo relações afetivas e familiares específicas que possam ter moldado sua obra, bem como amizades e rivalidades literárias, não são amplamente divulgadas em fontes públicas. Sabe-se que sua poesia frequentemente aborda o amor e a experiência feminina, sugerindo uma conexão com vivências pessoais, mas sem detalhes específicos serem publicamente destacados.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Amalia Bautista é uma poeta reconhecida na Espanha e em outros países de língua espanhola. Sua obra tem recebido elogios da crítica literária por sua qualidade estética e profundidade temática. Ela é considerada uma voz importante na poesia espanhola contemporânea, com seus livros circulando e sendo objeto de estudo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bautista bebeu de fontes da poesia espanhola clássica e moderna. Seu legado reside na sua capacidade de expressar com clareza e sensibilidade temas universais, oferecendo uma poesia que ressoa com o leitor contemporâneo. Sua influência pode ser observada em poetas mais jovens que buscam a autenticidade e a profundidade em sua expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Amalia Bautista tem sido analisada sob a perspectiva de sua exploração da memória, do tempo e da condição humana. Sua poesia convida à reflexão sobre a passagem da vida, os sentimentos e a busca por significado. As análises críticas destacam a elegância de seu estilo e a força de suas imagens poéticas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Detalhes curiosos ou aspetos menos conhecidos da vida e obra de Amalia Bautista não são amplamente documentados em fontes de acesso geral. Sua dedicação à escrita e à promoção da poesia é um aspecto conhecido, mas particularidades sobre seus hábitos de escrita ou episódios anedóticos são menos divulgados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o momento, Amalia Bautista está viva e continua sua produção literária. Portanto, não há informações sobre morte ou publicações póstumas.