Lista de Poemas

Um café com a Medusa

Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café? 

W. G. Sebald, Vertigem 



Tudo o que com os olhos toco
ela diz 
transformo em pedra 

mas tudo é já 
desde sempre pedra 
pó futuro 

seus pais eram filhos do mar e da terra 
cetáceos de um mundo arcaico 
informe ainda 
mas ela é mortal 
destinada, como nós, ao pó 

Ovídio diz ter sido justo e merecido 
o castigo que lhe impingiu Atenas 
transformando seus cabelos em serpentes 
porque ela se deitara com Poseidon 

são desde sempre as mulheres, ela diz, 
condenadas pelo que fazem no leito 

desde sempre amputadas 
de suas terríveis cabeças 

mas hoje estamos velhas
ela e eu 
cansadas de refletir o tempo 
como um escudo 

só queremos tomar nosso café 

cada serpente que lhe adorna a cabeça 
fala em uma língua 
e a traduz 

mas na realidade 
falamos pouco 
enquanto olhamos o porto 
e ela ajeita as asas 
na cadeira 

cúmplices 
ela e eu 
(embora eu evite 
confesso 
olhá-la nos olhos) 
tomamos nosso café quase 
em silêncio 

ela diz que agora sonha apenas com o mar 
que seus cabelos são algas e não serpentes 
e que dançam lentamente no fundo de um oceano 
cheio de monstros, como são os oceanos, 
lagostas enormes e águas-vivas 
e outras incongruências marinhas 
corais e conchas que são 
como estojos 
e baleias que vivem até duzentos anos 
o que para ela é nada, alguns segundos 
como de fato é 

e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda 
e sempre o sexo 

é talvez o que há no desejo de mais cruel 
quando nele há tanto de cruel: 
que ele dure, continue 
e às vezes seja só desejo 
do desejo 
e seja móvel e mesmo 
como o mar 

aos que não têm mais pátria 
seja porque se exilaram 
seja porque o país se exilou de nós 
e toma a forma dos nossos pesadelos 
seja porque na realidade não há países 
mas extensões variáveis de terra 
que as nuvens sem passaporte 
atravessam 
resta só a memória do mar 
ela diz 
batendo inutilmente 

o mar e o café 
ela diz 
e, a cada qual, 
suas serpentes
1 785

Buenos Aires

Das longas avenidas que inventamos
sem nunca percorrer
senão com a boca suja de palavras
alguma ficará
para cenário
quando
numa noite
― mas não nesta ―
um de nós deixar o outro
para sempre.
752

Uma alegria haver línguas

Uma alegria haver línguas
que não entendo
delas foram varridas
as lembranças todas
nelas o sentido passa entre as palavras
como a luz entre as plantas
nelas é sempre a infância
balbucio, manhã, cachorros
nelas as núpcias de tudo
com tudo
se celebram
nelas tudo é ruído
doce, antigos barulhos
nelas não há
como na nossa
mortos por baixo
(ou antes há muitos
só não
os nossos)
nelas as palavras de amor
ainda crepitam
como madeiras novas
ando nas ruas entre as pessoas
que cantam (parece-me que cantam)
nessa língua que não entendo
parece-me que expressam claramente
a vida e a morte própria
e dos outros
ou que apenas gorjeiam
sibilam, silvam
ando nas ruas e é como uma conferência
de pássaros, pianos roucos
ando nas ruas e é como se lesse
às pressas
cartas em chamas
ando nas ruas pensando como é possível
tantas pessoas falando nada
em voz alta
quando me dirigem por equívoco
a palavra sorrio como se pedisse desculpas
depois fico tentada a correr atrás daquela pessoa
e devolver-lhe a palavra que ela deixou
cair por descuido
1 287

O que nos aconteceu

O que nos aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema

Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava

Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu

Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade

Uma dessas coisas não aconteceu
1 358

sala

na sala decorada
pela noite
e pelo imenso desejo,
nossas xícaras
lascadas


Da série “Arquitetura de interiores”
783

Em branco

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
1 517

jardim

a mesa de lata
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem


Da série “Arquitetura de interiores”
676

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Da série “Arquitetura de interiores”
1 181

cozinha

nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador


Da série “Arquitetura de interiores”
1 402

Relógio

De que nos serviria
um relógio?

se lavamos as roupas brancas:
é dia

as roupas escuras:
é noite

se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia

se abres com os dedos um figo
maduro:
noite

se derramamos água:
dia

se entornamos vinho:
noite

quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia

quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite

se adoçamos o chá:
dia

se não o adoçamos:
noite

se varremos a casa ou a enceramos:
dia

se nela passamos panos úmidos:
noite

se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia

se temos febre, cólicas, inflamações:
noite

aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia

ataduras, compressas, unguentos:
noite

se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia

se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite

se bato claras em neve:
dia

se cozinho beterrabas grandes:
noite

se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia

se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite

(extensões e cimos:
dia

camadas e dobras:
noite)

se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia

se deixas a água fervendo
sozinha:
noite

se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia

se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite

se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia

se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite

se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia

se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite

se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia

se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite

de que nos serviria
um relógio?
1 780

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Identificação e contexto básico

Ana Martins Marques é uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira. Sua obra poética é reconhecida pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, o corpo e a linguagem. Nacionalidade: Brasileira. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

A infância e a formação de Ana Martins Marques ocorreram em um ambiente que estimulou o apreço pela leitura e pela cultura. Informações detalhadas sobre sua educação formal e influências iniciais são menos documentadas publicamente, mas a sua escrita revela um vasto conhecimento literário e uma sensibilidade aguçada para as artes.

Percurso literário

Ana Martins Marques iniciou sua carreira literária com a publicação de seus primeiros livros de poesia. Sua obra tem sido publicada de forma consistente, estabelecendo-a como uma voz importante na poesia brasileira contemporânea. Além da poesia, dedica-se à escrita de ensaios e à tradução, demonstrando versatilidade e um profundo diálogo com diversas formas literárias.

Obra, estilo e características literárias

As obras de Ana Martins Marques exploram temas como a memória, o tempo, o corpo, a linguagem e a condição humana. Sua poesia é caracterizada pela introspecção, pela delicadeza lírica e pela precisão imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, com uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito, criando um ritmo próprio e musicalidade. O tom de sua voz poética é frequentemente confessional e reflexivo, explorando a subjetividade e a experiência individual de forma universal. Sua obra dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que apresenta inovações temáticas e formais, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea brasileira.

Contexto cultural e histórico

Ana Martins Marques insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e pela exploração de novas linguagens. Sua obra dialoga com as questões sociais e existenciais da atualidade, refletindo sobre a individualidade e a coletividade em um mundo em constante transformação. A sua produção poética dialoga com outros escritores e círculos literários, contribuindo para o enriquecimento do cenário cultural brasileiro.

Vida pessoal

Ana Martins Marques mantém uma vida pessoal discreta, focada em sua produção literária e acadêmica. As experiências pessoais e as reflexões sobre a vida moldam sua obra, conferindo-lhe a profundidade e a autenticidade que a caracterizam. Sua dedicação à escrita e à tradução demonstra um compromisso contínuo com a arte e a palavra.

Reconhecimento e receção

A obra de Ana Martins Marques tem sido amplamente reconhecida pela crítica literária e pelo público. Recebeu diversos prémios e distinções importantes em sua carreira, consolidando seu lugar como uma das vozes poéticas mais relevantes do Brasil. Sua poesia é objeto de estudo em universidades e tem alcançado reconhecimento internacional através de traduções.

Influências e legado

Embora as influências específicas sejam variadas, a obra de Ana Martins Marques demonstra um profundo conhecimento da tradição poética, tanto brasileira quanto universal. Seu legado reside na capacidade de renovar a poesia lírica com uma sensibilidade contemporânea, explorando a interioridade humana e a relação complexa com o tempo e a memória. Sua poesia continua a inspirar novas gerações de leitores e escritores.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Ana Martins Marques tem sido alvo de diversas interpretações críticas, que destacam a sua exploração da temporalidade, da fragilidade da existência e da busca por sentido em meio à efemeridade da vida. A análise de sua obra frequentemente se debruça sobre a intersecção entre o eu lírico e o mundo, a forma como a linguagem constrói e desconstrói realidades, e a potência da memória na constituição da identidade.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto interessante da obra de Ana Martins Marques é a forma como ela consegue, através de uma linguagem aparentemente simples, tocar em questões existenciais profundas, revelando a complexidade das emoções humanas. A sua dedicação à tradução de poetas estrangeiros também demonstra um intercâmbio constante com outras culturas literárias, enriquecendo sua própria produção.

Morte e memória

Ana Martins Marques é uma autora viva e sua obra continua a ser produzida e a ser lembrada. Sua memória literária é construída a cada novo livro publicado e a cada leitura de sua poesia.