Lista de Poemas

mesa

mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez


Da série “Arquitetura de interiores”
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Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
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Tradução

Este poema
em outra língua
seria outro poema

um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar

uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança

uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar

o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados

como em certos problemas de física
de velhos livros escolares
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O Livro das Semelhanças

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara
e como ele esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados cardápios de
restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas
por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram
a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado
parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens sem
os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas
similares a nada
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Horóscopo

Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
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porta

a porta
como toda fronteira
é apenas para se atravessar
rapidamente ela já não serve mais
um corpo a corpo
e já se está do outro lado
dela nascem o fora e o dentro
ela que é seu vazio


Da série “Arquitetura de interiores”
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Identificação e contexto básico

Ana Martins Marques é uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira. Sua obra poética é reconhecida pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, o corpo e a linguagem. Nacionalidade: Brasileira. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

A infância e a formação de Ana Martins Marques ocorreram em um ambiente que estimulou o apreço pela leitura e pela cultura. Informações detalhadas sobre sua educação formal e influências iniciais são menos documentadas publicamente, mas a sua escrita revela um vasto conhecimento literário e uma sensibilidade aguçada para as artes.

Percurso literário

Ana Martins Marques iniciou sua carreira literária com a publicação de seus primeiros livros de poesia. Sua obra tem sido publicada de forma consistente, estabelecendo-a como uma voz importante na poesia brasileira contemporânea. Além da poesia, dedica-se à escrita de ensaios e à tradução, demonstrando versatilidade e um profundo diálogo com diversas formas literárias.

Obra, estilo e características literárias

As obras de Ana Martins Marques exploram temas como a memória, o tempo, o corpo, a linguagem e a condição humana. Sua poesia é caracterizada pela introspecção, pela delicadeza lírica e pela precisão imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, com uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito, criando um ritmo próprio e musicalidade. O tom de sua voz poética é frequentemente confessional e reflexivo, explorando a subjetividade e a experiência individual de forma universal. Sua obra dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que apresenta inovações temáticas e formais, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea brasileira.

Contexto cultural e histórico

Ana Martins Marques insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e pela exploração de novas linguagens. Sua obra dialoga com as questões sociais e existenciais da atualidade, refletindo sobre a individualidade e a coletividade em um mundo em constante transformação. A sua produção poética dialoga com outros escritores e círculos literários, contribuindo para o enriquecimento do cenário cultural brasileiro.

Vida pessoal

Ana Martins Marques mantém uma vida pessoal discreta, focada em sua produção literária e acadêmica. As experiências pessoais e as reflexões sobre a vida moldam sua obra, conferindo-lhe a profundidade e a autenticidade que a caracterizam. Sua dedicação à escrita e à tradução demonstra um compromisso contínuo com a arte e a palavra.

Reconhecimento e receção

A obra de Ana Martins Marques tem sido amplamente reconhecida pela crítica literária e pelo público. Recebeu diversos prémios e distinções importantes em sua carreira, consolidando seu lugar como uma das vozes poéticas mais relevantes do Brasil. Sua poesia é objeto de estudo em universidades e tem alcançado reconhecimento internacional através de traduções.

Influências e legado

Embora as influências específicas sejam variadas, a obra de Ana Martins Marques demonstra um profundo conhecimento da tradição poética, tanto brasileira quanto universal. Seu legado reside na capacidade de renovar a poesia lírica com uma sensibilidade contemporânea, explorando a interioridade humana e a relação complexa com o tempo e a memória. Sua poesia continua a inspirar novas gerações de leitores e escritores.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Ana Martins Marques tem sido alvo de diversas interpretações críticas, que destacam a sua exploração da temporalidade, da fragilidade da existência e da busca por sentido em meio à efemeridade da vida. A análise de sua obra frequentemente se debruça sobre a intersecção entre o eu lírico e o mundo, a forma como a linguagem constrói e desconstrói realidades, e a potência da memória na constituição da identidade.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto interessante da obra de Ana Martins Marques é a forma como ela consegue, através de uma linguagem aparentemente simples, tocar em questões existenciais profundas, revelando a complexidade das emoções humanas. A sua dedicação à tradução de poetas estrangeiros também demonstra um intercâmbio constante com outras culturas literárias, enriquecendo sua própria produção.

Morte e memória

Ana Martins Marques é uma autora viva e sua obra continua a ser produzida e a ser lembrada. Sua memória literária é construída a cada novo livro publicado e a cada leitura de sua poesia.