Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

n. 1977 BR BR

Ana Martins Marques é uma poeta brasileira contemporânea, conhecida pela sua poesia introspectiva e pela exploração de temas como a memória, o tempo e a condição humana. Sua obra se destaca pela delicadeza lírica e pela capacidade de evocar imagens precisas e sensoriais, frequentemente explorando a relação entre o corpo, a linguagem e o mundo.

n. 1977-01-01, Belo Horizonte

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Um café com a Medusa

Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café? 

W. G. Sebald, Vertigem 



Tudo o que com os olhos toco
ela diz 
transformo em pedra 

mas tudo é já 
desde sempre pedra 
pó futuro 

seus pais eram filhos do mar e da terra 
cetáceos de um mundo arcaico 
informe ainda 
mas ela é mortal 
destinada, como nós, ao pó 

Ovídio diz ter sido justo e merecido 
o castigo que lhe impingiu Atenas 
transformando seus cabelos em serpentes 
porque ela se deitara com Poseidon 

são desde sempre as mulheres, ela diz, 
condenadas pelo que fazem no leito 

desde sempre amputadas 
de suas terríveis cabeças 

mas hoje estamos velhas
ela e eu 
cansadas de refletir o tempo 
como um escudo 

só queremos tomar nosso café 

cada serpente que lhe adorna a cabeça 
fala em uma língua 
e a traduz 

mas na realidade 
falamos pouco 
enquanto olhamos o porto 
e ela ajeita as asas 
na cadeira 

cúmplices 
ela e eu 
(embora eu evite 
confesso 
olhá-la nos olhos) 
tomamos nosso café quase 
em silêncio 

ela diz que agora sonha apenas com o mar 
que seus cabelos são algas e não serpentes 
e que dançam lentamente no fundo de um oceano 
cheio de monstros, como são os oceanos, 
lagostas enormes e águas-vivas 
e outras incongruências marinhas 
corais e conchas que são 
como estojos 
e baleias que vivem até duzentos anos 
o que para ela é nada, alguns segundos 
como de fato é 

e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda 
e sempre o sexo 

é talvez o que há no desejo de mais cruel 
quando nele há tanto de cruel: 
que ele dure, continue 
e às vezes seja só desejo 
do desejo 
e seja móvel e mesmo 
como o mar 

aos que não têm mais pátria 
seja porque se exilaram 
seja porque o país se exilou de nós 
e toma a forma dos nossos pesadelos 
seja porque na realidade não há países 
mas extensões variáveis de terra 
que as nuvens sem passaporte 
atravessam 
resta só a memória do mar 
ela diz 
batendo inutilmente 

o mar e o café 
ela diz 
e, a cada qual, 
suas serpentes
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ana Martins Marques é uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira. Sua obra poética é reconhecida pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, o corpo e a linguagem. Nacionalidade: Brasileira. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

A infância e a formação de Ana Martins Marques ocorreram em um ambiente que estimulou o apreço pela leitura e pela cultura. Informações detalhadas sobre sua educação formal e influências iniciais são menos documentadas publicamente, mas a sua escrita revela um vasto conhecimento literário e uma sensibilidade aguçada para as artes.

Percurso literário

Ana Martins Marques iniciou sua carreira literária com a publicação de seus primeiros livros de poesia. Sua obra tem sido publicada de forma consistente, estabelecendo-a como uma voz importante na poesia brasileira contemporânea. Além da poesia, dedica-se à escrita de ensaios e à tradução, demonstrando versatilidade e um profundo diálogo com diversas formas literárias.

Obra, estilo e características literárias

As obras de Ana Martins Marques exploram temas como a memória, o tempo, o corpo, a linguagem e a condição humana. Sua poesia é caracterizada pela introspecção, pela delicadeza lírica e pela precisão imagética. Utiliza frequentemente o verso livre, com uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito, criando um ritmo próprio e musicalidade. O tom de sua voz poética é frequentemente confessional e reflexivo, explorando a subjetividade e a experiência individual de forma universal. Sua obra dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que apresenta inovações temáticas e formais, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea brasileira.

Contexto cultural e histórico

Ana Martins Marques insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e pela exploração de novas linguagens. Sua obra dialoga com as questões sociais e existenciais da atualidade, refletindo sobre a individualidade e a coletividade em um mundo em constante transformação. A sua produção poética dialoga com outros escritores e círculos literários, contribuindo para o enriquecimento do cenário cultural brasileiro.

Vida pessoal

Ana Martins Marques mantém uma vida pessoal discreta, focada em sua produção literária e acadêmica. As experiências pessoais e as reflexões sobre a vida moldam sua obra, conferindo-lhe a profundidade e a autenticidade que a caracterizam. Sua dedicação à escrita e à tradução demonstra um compromisso contínuo com a arte e a palavra.

Reconhecimento e receção

A obra de Ana Martins Marques tem sido amplamente reconhecida pela crítica literária e pelo público. Recebeu diversos prémios e distinções importantes em sua carreira, consolidando seu lugar como uma das vozes poéticas mais relevantes do Brasil. Sua poesia é objeto de estudo em universidades e tem alcançado reconhecimento internacional através de traduções.

Influências e legado

Embora as influências específicas sejam variadas, a obra de Ana Martins Marques demonstra um profundo conhecimento da tradição poética, tanto brasileira quanto universal. Seu legado reside na capacidade de renovar a poesia lírica com uma sensibilidade contemporânea, explorando a interioridade humana e a relação complexa com o tempo e a memória. Sua poesia continua a inspirar novas gerações de leitores e escritores.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Ana Martins Marques tem sido alvo de diversas interpretações críticas, que destacam a sua exploração da temporalidade, da fragilidade da existência e da busca por sentido em meio à efemeridade da vida. A análise de sua obra frequentemente se debruça sobre a intersecção entre o eu lírico e o mundo, a forma como a linguagem constrói e desconstrói realidades, e a potência da memória na constituição da identidade.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto interessante da obra de Ana Martins Marques é a forma como ela consegue, através de uma linguagem aparentemente simples, tocar em questões existenciais profundas, revelando a complexidade das emoções humanas. A sua dedicação à tradução de poetas estrangeiros também demonstra um intercâmbio constante com outras culturas literárias, enriquecendo sua própria produção.

Morte e memória

Ana Martins Marques é uma autora viva e sua obra continua a ser produzida e a ser lembrada. Sua memória literária é construída a cada novo livro publicado e a cada leitura de sua poesia.

Poemas

16

O Livro das Semelhanças

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara
e como ele esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados cardápios de
restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas
por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram
a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado
parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens sem
os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas
similares a nada
1 567

mesa

mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez


Da série “Arquitetura de interiores”
1 644

cozinha

nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador


Da série “Arquitetura de interiores”
1 436

Relógio

De que nos serviria
um relógio?

se lavamos as roupas brancas:
é dia

as roupas escuras:
é noite

se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia

se abres com os dedos um figo
maduro:
noite

se derramamos água:
dia

se entornamos vinho:
noite

quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia

quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite

se adoçamos o chá:
dia

se não o adoçamos:
noite

se varremos a casa ou a enceramos:
dia

se nela passamos panos úmidos:
noite

se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia

se temos febre, cólicas, inflamações:
noite

aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia

ataduras, compressas, unguentos:
noite

se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia

se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite

se bato claras em neve:
dia

se cozinho beterrabas grandes:
noite

se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia

se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite

(extensões e cimos:
dia

camadas e dobras:
noite)

se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia

se deixas a água fervendo
sozinha:
noite

se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia

se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite

se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia

se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite

se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia

se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite

se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia

se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite

de que nos serviria
um relógio?
1 817

porta

a porta
como toda fronteira
é apenas para se atravessar
rapidamente ela já não serve mais
um corpo a corpo
e já se está do outro lado
dela nascem o fora e o dentro
ela que é seu vazio


Da série “Arquitetura de interiores”
1 294

Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
1 218

Obras

5

Videos

50

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