Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho

1940–2024 · viveu 84 anos BR BR

Armando Freitas Filho foi um poeta brasileiro cuja obra se destacou pela experimentação formal e pela exploração de temas como a memória, o tempo e a condição humana. Sua poesia é marcada por uma linguagem densa e uma profunda reflexão sobre a linguagem e a própria poesia. Ao longo de sua trajetória, consolidou um estilo singular que dialoga com a tradição, mas aponta para as vanguardas. Sua contribuição para a literatura brasileira é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de transitar entre o lirismo e a metalinguagem, deixando um legado de obras que continuam a instigar leitores e críticos.

n. 1940-02-18, Rio de Janeiro · m. 2024-09-26, Lima

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Urgente e Confidencial

Disparando por de trás
dos óculos escuros
dois tiros súbitos:
ela mata com os olhos.
O olhar não erra o alvo
não abarca o mar
mas apenas as pedras
onde ele bate e quebra.
Não usa as mãos
nem a alma do corpo
que ficou em outro lugar —
marmórea.
Só um pouco da voz, sem volta
em palavras finais
poupando lágrimas no espelho
monalisa e incólume.

2 fev. 90


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Armando Freitas Filho, cujo nome completo era Armando de Freitas Filho, foi um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro em 1949 e faleceu na mesma cidade em 2017. Sua obra se insere no contexto da poesia brasileira contemporânea, marcada pela experimentação e pela reflexão sobre a própria linguagem.

Infância e formação

Pouco se sabe publicamente sobre sua infância e formação inicial. No entanto, é notório o seu profundo conhecimento literário e cultural, que transparece em sua obra. Sua formação parece ter sido autodidata, com uma vasta gama de leituras que incluíam clássicos e autores de vanguarda.

Percurso literário

Armando Freitas Filho iniciou sua carreira literária com a publicação de livros de poesia que rapidamente chamaram a atenção pela originalidade e rigor formal. Ao longo de sua trajetória, publicou diversas obras poéticas e ensaísticas, consolidando sua presença no cenário literário brasileiro. Participou ativamente de debates e eventos literários.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais significativas estão "A Desordem do Olhar" (1983), "O Falso Fruto" (1988), "Poemas Reunidos" (2010) e "Para que me Conheçam" (2015). Seus temas recorrentes incluem a memória, o tempo, a cidade, a linguagem, a metalinguagem e a condição humana. Seu estilo é caracterizado pela densidade imagética, pela precisão vocabular e pela exploração de formas poéticas que desafiam o leitor, muitas vezes com influências do concretismo e de outras vanguardas, mas com uma voz inconfundivelmente pessoal. Sua poesia dialoga tanto com a tradição quanto com a modernidade, apresentando uma linguagem ao mesmo tempo erudita e acessível, que busca desvendar as complexidades da existência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Armando Freitas Filho viveu em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil, desde os anos finais da ditadura militar até o período democrático. Sua obra reflete, de maneira sutil e intelectualizada, as inquietações de seu tempo, dialogando com a produção cultural e literária brasileira contemporânea. Fez parte de uma geração de poetas que buscavam renovar a linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre sua vida pessoal são escassas na esfera pública. Sabe-se que dedicou grande parte de sua vida à poesia e à tradução, atividade que exerceu com maestria, traduzindo autores como Fernando Pessoa e Arthur Rimbaud. Era conhecido por sua discrição e por um profundo rigor intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha mantido um perfil discreto, a obra de Armando Freitas Filho obteve reconhecimento por parte da crítica especializada e de outros escritores. Sua poesia é estudada e admirada pela sua complexidade e inovação. Recebeu alguns prêmios ao longo de sua carreira, consolidando seu lugar como um dos importantes poetas da literatura brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra dialoga com a tradição poética brasileira e universal, mas também demonstra uma forte influência das vanguardas do século XX. O legado de Armando Freitas Filho reside em sua capacidade de renovar a linguagem poética, explorando novas formas e abordagens temáticas, inspirando gerações posteriores de poetas a experimentarem com a forma e o conteúdo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Armando Freitas Filho é frequentemente analisada sob a ótica da metalinguagem e da reflexão sobre os limites da linguagem para apreender a realidade. Seus poemas convidam a múltiplas leituras, explorando as nuances da memória e a fugacidade do tempo, com um tom por vezes melancólico e por vezes irônico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Armando Freitas Filho era conhecido por sua dedicação quase monástica à escrita e à leitura. Seu rigor com a palavra e com a forma era lendário entre seus pares. Sua discrição contrastava com a intensidade e a ousadia de sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Armando Freitas Filho faleceu em 2017, deixando um importante acervo poético. Sua obra continua a ser divulgada e estudada, mantendo viva sua memória e sua influência na poesia brasileira.

Poemas

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Urgente e Confidencial

Disparando por de trás
dos óculos escuros
dois tiros súbitos:
ela mata com os olhos.
O olhar não erra o alvo
não abarca o mar
mas apenas as pedras
onde ele bate e quebra.
Não usa as mãos
nem a alma do corpo
que ficou em outro lugar —
marmórea.
Só um pouco da voz, sem volta
em palavras finais
poupando lágrimas no espelho
monalisa e incólume.

2 fev. 90


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
2 853

De Olhos Abertos

Insônia que se reflete
no espelho do sono dela.
Vou no escuro, verrumando.
Vou sem ver, todo tato
tentando obturar tudo
lendo, em Braille
o corpo embaralhado
que arrumo e aliso
desde dentro, e acabo
por o descobrir vestido
com a pele de lua das estátuas.

A noite uiva por um cachorro:
noite de tartaruga, coruja, caracol.
De qualquer bicho que tenha nichos.
Noite que se anula nesta nudez
de lâmpada acesa até de manhã.
Sou a sombra, sou a sobra
que não se passou a limpo
e ficou em pé, contra a parede
contra o céu que publica o sol
e não consegue se despir de si
abotoado e morto até a boca.

4 mai. 89


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 346

Nu de Verão Subindo a Escada

Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.

25 dez. 87


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 495

Calder

para Mário Pedrosa

Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia

desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio

medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento

oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo

célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.


Publicado no livro Dual, 1963/1966 (1966).

In: CHAMIE, Mário. Instauração práxis I: manifestos, plataformas, textos e documentos críticos, 1959 a 1972. São Paulo: Quíron, 1974. v.1, p.188. (Logos. Série crítica e história literária, 3
1 227

Fazer carreira

Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?


In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 177

Vou gota a gota

Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.



In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 310

O que se lê, ali

O que se lê, ali
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
1 152

O primeiro arranha-céu

O primeiro arranha-céu
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
1 073

Entre nós até o segredo

Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 218

Na Mesa Morta

Da idade mídia de todos os meios
espremo o que escrevo
e o que sobra, só
é o nu sem nuvens
tão no extremo terrível do trampolim
que é expresso somente por si:
o mínimo múltiplo comum
sol, sinal, soul
eu, íntimo
exprimo o que escravo
ficou no fim, e não foi ao ar.


In: FREITAS FILHO, Armando. De cor, 1983/1987. Pref. José Miguel Wisnik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. (Poesia brasileira)
1 319

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