Camilo Pessanha

Camilo Pessanha

1867–1926 · viveu 58 anos PT PT

Camilo Pessanha foi um poeta e professor de português, notabilizado pela sua obra poética que marcou a transição do Simbolismo para o Modernismo em Portugal. A sua poesia, caracterizada pela melancolia, pelo exotismo e por uma musicalidade ímpar, explora temas como a efemeridade do tempo, a saudade, o amor e a morte, muitas vezes através de imagens vívidas e sensoriais. Embora a sua produção poética em volume seja reduzida, a sua influência no panorama literário português é profunda, sendo considerado um dos mais importantes poetas da língua portuguesa.

n. 1867-09-07, Coimbra · m. 1926-03-01, Macau

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Na cadeia

na cadeia os bandidos presos!
o seu ar de contemplativos!
que é das feras de olhos acesos?!
pobres dos seus olhos cativos

passeiam mudos entre as grades,
parecem peixes num aquário.
- campo florido das saudades,
porque rebentas tumultuário?

serenos... serenos... serenos...
trouxe-os algemados a escolta.
- estranha taça de venenos
meu coração sempre em revolta.

coração, quietinho... quietinho...
porque te insurges e blasfemas?
pschiu... não batas... devagarinho...
olha os soldados, as algemas!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Camilo de Almeida Pessanha, mais conhecido como Camilo Pessanha, nasceu em Coimbra, Portugal. Foi um poeta, tradutor e professor de português. A sua obra poética é considerada uma ponte entre o Simbolismo e o Modernismo em Portugal.

Infância e formação

Camilo Pessanha nasceu numa família abastada. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito, mas não chegou a concluir o curso. Desde cedo demonstrou grande interesse pela literatura e pelas línguas orientais. A sua formação intelectual foi marcada por leituras diversas e por um espírito cosmopolita.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à juventude, com colaborações em diversas publicações periódicas. A sua obra poética, embora escassa em volume, é de uma riqueza e profundidade notáveis. Publicou um único livro de poemas em vida, "Clepsidra", em 1920, que se tornaria um marco na poesia portuguesa. Dedicou-se também à tradução e ao ensino, lecionando em Macau.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Camilo Pessanha é dominada por temas como a efemeridade do tempo, a saudade, a morte, o amor, o exotismo e a melancolia. O seu estilo é marcado por uma grande musicalidade, pela subtileza das imagens e pela exploração de um vocabulário erudito e por vezes arcaico. Utilizou frequentemente o soneto, mas também explorou o verso livre. A sua poesia caracteriza-se por um tom lírico e introspectivo, com uma forte carga sensorial.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pessanha viveu num período de profundas transformações em Portugal e na Europa, incluindo a queda da Monarquia e a instauração da República. O seu longo período em Macau, uma colónia portuguesa na Ásia, influenciou a sua visão de mundo e a sua obra, trazendo elementos de exotismo e de uma perspetiva cultural mais alargada. É frequentemente associado ao Simbolismo, mas a sua obra antecipa muitas das características do Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Camilo Pessanha teve uma vida marcada por viagens e por um certo isolamento. Passou grande parte da sua vida adulta em Macau, onde lecionou e exerceu funções administrativas. As suas relações pessoais e a sua vivência no Oriente deixaram uma marca indelével na sua sensibilidade e na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra publicada em vida seja reduzida, Camilo Pessanha obteve um reconhecimento crescente ao longo do tempo. "Clepsidra" foi aclamada pela crítica e consolidou a sua posição como um dos grandes poetas portugueses. O seu legado é amplamente reconhecido, e a sua obra continua a ser estudada e admirada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Camilo Pessanha foi influenciado por poetas simbolistas franceses, como Baudelaire e Verlaine, e pela poesia clássica. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas portugueses, nomeadamente os modernistas, que encontraram na sua poesia um modelo de depuração formal e de exploração da subjetividade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Pessanha é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a transitoriedade da vida, a natureza fugaz da felicidade e a universalidade da dor e da saudade. A sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos críticos que exploram a sua complexidade temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida é o facto de ter vivido tanto tempo em Macau, onde desenvolveu uma forte ligação com a cultura oriental. A sua poesia, embora muitas vezes associada a temas de melancolia, revela também uma grande sensualidade e uma profunda apreciação pela beleza do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Camilo Pessanha faleceu em Coimbra. Após a sua morte, a sua obra continuou a ser divulgada e a ganhar maior notoriedade, solidificando o seu lugar no cânone da literatura portuguesa. A sua memória perdura através da sua obra poética, considerada um tesouro da língua portuguesa.

Poemas

22

Caminho I

Tenho sonhos cruéis; nalma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta dharmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu dagora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

8 377

Inscrição

Inscrição

Eu vi a luz num país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme...

4 964

Passou o outono

II
(A Abel Aníbal de Azevedo)

Passou o outono já, já torna o frio...
- Outono de seu riso magoado.
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
- O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
- E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

4 315

Violoncelo

(A Carlos Amaro)

Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas.
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro.
Que ruínas, ouçam...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!

Lívidos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Despedaçadas...

5 117

Paisagens de Inverno

I
(A Alberto Osório de Castro)

Ó meu coração, torna para traz.
Onde vais a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.
Extintas primaveras, evocai-as.
Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

Sossegai, esfriai, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis.

3 625

Caminho II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
--- Bom dia, companheiro --- te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

3 639

Em um retrato

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há-de inumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

3 535

Ó Madalena, ó cabelos de rastos

...e lhe regou de lágrimas os pés,
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.
Evangelho de S. Lucas.

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensangüentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cômico!
Morrer tranqüilo, - o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatômico,

Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!

4 370

Queda

(A João P. Vasco)

O meu coração desce,
Um balão apagado.

Melhor fora que ardesse
Nas trevas incendiado.

Na bruma fastidienta...
Como á cova um caixão.

Porque antes não rebenta
Rubro, numa explosão?

Que apego inda o sustem?
Atono, miserando.

Que o esmagasse o trem
De um comboio arquejando.

O inane, vil despojo.
Ó alma egoísta e fraca...

Trouxesse-o o mar de rojo.
Levasse-o na ressaca.

3 135

Quando?

Quando se erguerão as seteiras,
Outra vez, do castelo em ruína?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?

Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planície abandonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?

E voltaremos, - os antigos,
Os puríssimos lidadores,-
Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?

E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.

3 303

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