Lista de Poemas

Cidade

De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.
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deivid
deivid

legal

Identificação e contexto básico

Carlos Cardoso foi um jornalista e ativista moçambicano, amplamente reconhecido como um dos mais importantes defensores da liberdade de imprensa em África. Nasceu em 1951 e foi assassinado em novembro de 2000, em Maputo.

Infância e formação

Cardoso nasceu em Beira, Moçambique, filho de pais portugueses que se estabeleceram no país. A sua formação académica incluiu estudos de jornalismo e ciências sociais. Desde cedo demonstrou um forte sentido de justiça social e um espírito crítico, características que moldariam a sua carreira.

Percurso literário

Embora seja primariamente conhecido como jornalista, a escrita de Carlos Cardoso possuía uma qualidade literária notável, especialmente nos seus artigos de opinião e crónicas. A sua prosa era incisiva, eloquente e profundamente humanista. A sua "obra" reside no seu legado jornalístico, que serviu como uma forma de intervenção cívica e literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A "obra" de Carlos Cardoso manifesta-se através dos seus escritos jornalísticos, que se destacam pela clareza, pela profundidade da investigação e pela coragem em abordar temas sensíveis. O seu estilo era direto, sem rodeios, e dotado de uma ironia mordaz que visava desmascarar a hipocrisia e a corrupção. Os temas centrais da sua escrita incluíam a governação, os direitos humanos, a corrupção, a justiça social e o desenvolvimento de Moçambique. Ele utilizava a linguagem como uma arma para a mudança, desafiando o status quo e dando voz aos marginalizados.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlos Cardoso viveu e trabalhou num período crucial da história de Moçambique, um país a braços com os desafios da reconstrução pós-independência, da corrupção endémica e das pressões políticas. Ele foi uma figura central na defesa de um jornalismo independente e crítico num ambiente muitas vezes hostil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Cardoso era conhecido pela sua paixão pelo jornalismo e pelo seu compromisso inabalável com a verdade. A sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua profissão, com sacrifícios significativos em prol do seu trabalho. Era um líder inspirador para muitos jornalistas moçambicanos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Carlos Cardoso enfrentou perseguições e ameaças, mas também obteve grande reconhecimento pela sua coragem e integridade. Após a sua morte, o seu legado foi celebrado internacionalmente, com o "Metical" a ser reconhecido como um símbolo da luta pela liberdade de imprensa. Vários prémios e distinções foram atribuídos postumamente em seu nome.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Carlos Cardoso foi influenciado por jornalistas e ativistas que lutaram por causas semelhantes em todo o mundo. O seu legado é imenso, tendo inspirado uma geração de jornalistas em Moçambique e em África a prosseguir com o jornalismo investigativo e a defender os valores democráticos. É lembrado como um herói da liberdade de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Carlos Cardoso pode ser interpretada como um testemunho da importância do jornalismo na construção de sociedades democráticas e transparentes. A sua coragem em desafiar o poder estabelecido é um exemplo de como a imprensa livre pode ser um pilar fundamental da justiça.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Cardoso era conhecido pela sua persistência e pela sua capacidade de motivar a sua equipa, mesmo em circunstâncias adversas. A sua determinação em publicar a verdade, independentemente dos riscos, tornou-o uma figura quase mítica no jornalismo moçambicano.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Carlos Cardoso foi assassinado a 22 de novembro de 2000, num atentado à bomba perpetrado contra o seu carro em Maputo. O crime chocou o país e o mundo, levantando fortes suspeitas de que o assassinato estava relacionado com as suas investigações jornalísticas sobre casos de corrupção e fraude. A sua morte é lembrada como um marco trágico na luta pela liberdade de imprensa em Moçambique.