No Pequeno Museu Sentimental
No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.
Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.
Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.
Vou beijando a memória desses beijos.
Domicílio
... O apartamento abria
janelas para o mundo. Crianças vinham
colher na maresia essas notícias
da vida por viver ou da inconsciente
saudade de nós mesmos. A pobreza
da terra era maior entre os metais
que a rua misturava a feios corpos,
duvidosos, na pressa. E do terraço
em solitude os ecos refluíam
e cada exílio em muitos se tornava
e outra cidade fora da cidade
na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.
Duração
O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor
Bundamel bundalis bundacor bundamor
bundalei bundalor bundanil bundapão
bunda de mil versões, pluribunda unibunda
bunda em flor, bunda em albunda lunar e solbundarrabil
Bunda maga e plural, bunda além do irreal
arquibunda selada em pauta de hermetismo
opalescente bunincandescente bunmeigo favo escondido em tufos tenebrosos
a que não chega o enxofre da lascívia
e onde
a global palidez de zonas hiperbóreas
concentra a música incessante
do girabundo cósmico.
Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
bunda mutante/renovante
que ao número acrescenta uma nova harmonia.
Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
o arco de triunfo, a ponte de suspiros
a torre de suicídio, a morte do Arpoador
bunditálix, bundífodabundamor bundamor bundamor bundamor.
Escada
Na curva desta escada nos amamos,
nesta curva barroca nos perdemos.
O caprichoso esquema
unia formas vivas, entre ramas.
Lembras-te, carne? Um arrepio telepático
vibrou nos bens municipais, e dando volta
ao melhor de nós mesmos,deixou-nos sós, a esmo,
espetacularmente sós e desarmados,
que a nos amarmos tanto eis-nos morridos.
E mortos, e proscritos
de toda comunhão no século (esta espira
é testemunha, e conta), que restava
das línguas infinitas
que falávamos ou surdas se lambiam
no céu da boca sempre azul e ôco?
Que restava de nós,
neste jardim ou nos arquivos, que restava
de nós, mas que restava, que restava?
Ai, nada mais restara,que tudo mais, na alva,
se perdia, e contagiando o canto aos passarinhos,
vinha até nós, podrido e trêmulo, anunciando
que amor fizera um novo testamento,
e suas prendas jaziam sem herdeiros
num pátio branco e áureo de laranjas.
e de lembrar não há lembrança. Entrelaçados,
insistíamos em ser; mas nosso espectro,
submarino, à flor do tempo ia apontando,
e já noturnos, rotos, desossados,
nosso abraço doía
para além da matéria esparsa em números.
Asa que ofereceste o pouso raro
e dançarino e rotativo, cálculo,
rosa grimpante e fina
que à terra nos prendias e furtavas,
enquanto a reta insigneda torre ia lavrando
no campo desfolhado outras quimeras:
sem ti não somos mais o que antes éramos.
E se este lugar de exílio hoje passeia
faminta imaginação atada aos corvos
de sua própria ceva,escada, ó assunção,
ao céu alças em vão o alvo pescoço,
que outros peitos em ti se beijariam
sem sombra, e fugitivos,
mas nosso beijo e baba se incorporam
de há muito ao teu cimento, num lamento.
A Luís Maurício, Infante
Acorda, Luís Maurício. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.
Despertando, Luís Maurício, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria,digamos, de teu vizinho?
Que seria de ti, Luís Maurício, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário
e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Maurício, que sejam novos e comovidos.
E como há tempo para viver, Luís Maurício, podes gastá-lo à janela
que dá para a Justicia del Trabajo, onde a imaginosa linha da hera
tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.
Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luís Maurício.
Mas há que tentar o diálogo, quando a solidão é vício.
E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.
Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,
conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,
de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo extático, espaço vazio entre ramos.
O tempo — que fazer dele? Como adivinhar, Luís Maurício,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?
Hás de aprender o tempo, Luís Maurício. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,
que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.
Aprenderás muitas leis, Luís Maurício. Mas se as esqueceres depressa,
outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,
e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mudo.
Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas
são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos de cantigas
que alguém um dia cantará, Luís Maurício. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Êle se oferecerá sob forma de pranto
ou de riso. E te acompanhará, Luís Maurício. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita, por exemplo, as ervas,
enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até b âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura
essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado
articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,
imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo, com sua música; o passarinho, com sua donzela;
o namorado, com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;
o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta, sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;
o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,
que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.
É preciso criar de novo, Luís Maurício. Reinventar nagôs e latinos,
e as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos, e os modelos mais finos,
de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.
Informados e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
e na sua faminta inquietação algo se liberta da jaula e seu quadrado.
Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água — nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar
que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.
É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas
do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os chicos e as palomas confraternizam na Plaza de Mayo.
Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que' de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luís Maurício.
Eterno
E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.
(Le silence eternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternicíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.
Ainda Que Mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
A Bela Ninfeia Foi Assim Tão Bela
A bela Ninfeia foi assim tão bela
como eu a fazia, se sonho ou me lembro?
Em sua garupa de água ou de égua
que formas traçava, criava meu membro?
A dura Ninfeia de encantos furtivos
preparava filtros? Que feitiço havia
na pinta da anca, pois só de beijá-la
a pinta castanha logo alvorecia?
A fria Ninfeia zombava talvez
da fúria, da fome, do fausto, da festa
que o seio pequeno, de bico empinado,
em mim despertava, tigre na floresta?
A vaga Ninfeia, de esparsos amores,
(o meu, entre muitos) teria noção
do mal que me fez, ou por ela me fiz,
pois que meu algoz era minha criação?
Brinde No Banquete Das Musas
Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te eqüivale:
a mosca deglute a aranha.
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo :
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva...
Poesia, morte secreta.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!