Profissão: Enterrado Vivo
Tão linda esta cidade,
tão bem servida de moças de chapéu
e sombrinha,
de fícus, palacetes, lagos, horizontes,
tão limpa, tão verdinha, tão serena,
e vem Great Michelin
jejuar sete dias, agressivo!
Levo soco no estômago. Que ideia,
vender entradas para o espetáculo da fome
no Cine Comércio tão alegre.
Dois metros abaixo do chão a cova aberta
e a tampa de vidro
mostra o rosto cadavérico
do jejuador profissional.
De domingo a domingo esta visão
soturna comercial atrai burgueses
bem alimentados, secretamente desejosos
de que a experiência tenha fim
com a morte do Great Michelin.
No sétimo dia ressuscita,
abre-se o caixão no palco, lavra-se ata
firmada por médicos, delegados, jornalistas,
palmas, palmas, vivas,
discurso do artista Koytakisis
e do próprio Michelin mal falecido.
Dias depois ei-lo fazendo
conferência científica sobre a arte
de ganhar a vida em morte semanal.
15% de renda, generoso,
dá para o Orfanato Santo Antônio.
E aprendo esta verdade:
jejuador nenhum morre de jejum
se souber vender a sua fome.
O Passado Presente
Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
Morto Vivendo
Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude na espera,
não repetiu mais os gestos
fora do rito amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?
A Língua E o Fato
Precisamos dar um nome
português a este desporto.
De resto, o nome genérico
nem tem cara de vernáculo.
Lincoln, de latim provido,
hesita entre bulopédio
e globipédio. Afinal
define-se por ludopédio
no jornal oficial.
Aprovado o lançamento
por força da lei mineira
não assinada mas válida,
eis que súbito estraleja
barulho estranho lá fora.
A redação se interroga.
Que foi? Que não foi? Acode
o servente noticioso
e conta que espatifou-se
a vidraça da fachada
por bola de futebol.
Legado
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Pintor de Mulher
A Augusto Rodrigues
Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
Relógio do Rosário
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
Dezembro
Oiti: a cigarra zine:
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
Música Protegida
Santa Cecília, anterior aos sindicatos,
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
A Paraquedista
Brilha
Juliette Brille.
Salta de mil metros de altura
no Prado Mineiro em sol
laranja-vermelho e pasmo.
Despenca-se da asa
do aeroplano New Port.
Um segundo, e:
não abre o paraquedas?
Juliette, bólide
sem rastro fosforescente
irá esborrachar-se
no chão trivial?
Não, o Deus das aves,
dos ventos e das loucas
deposita Juliette
nas mãos do ar benigno.
Enfuna-se o aparelho.
Juliette, valsarina,
descreve no céu o giro
de rosa descendente
e vem pousar, completa,
em grama admirativa.
Homem nenhum fez isso
até agora aqui.
Todos aplaudem, constrangidos.
Não é que ela escapou?
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!