Verbo E Verba
É redação?
É academia, Parnaso?
Afonso Arinos cintilante,
Emílio Moura evanescente,
João Alphonsus calado-irônico,
Cyro dos Anjos expectante,
Horácio Guimarães, gravura a talho-doce
de uma remota, simbolista
Belo Horizonte.
Dois diários num só?
Boletim do P.R.M.,
clarim do Modernismo,
usina de poemas sem metro,
porta-voz mineiro de Mário de Andrade,
sentinela conservadora das Alterosas
políticas,
quem entende este asilo
de doidos mansos burocratas?
Alguém o entende: Eduardinho, o Bola,
gerente sem fundos
(como custa a Secretaria das Finanças
a soltar a magra verba oficial!),
cercado de vales por todos os lados,
sai à rua campeando
anúncios do depurativo Salsa, Caroba e Manacá,
do Cacturgenol para urinas escuras,
e faz intercalar o comunicado do Partido
com o salutar aviso
de que o Pó Pelotense
é o único a evitar assaduras debaixo dos seios.
O Não Dançarino
Não alcancei o Clube das Violetas,
delicado demais para durar.
À minha frente só o Clube Belo Horizonte,
onde dançam o belo Ferola, o formoso Dario
com senhoritas mui prendadas
sob o olhar magnético de pais, mães, irmãos,
e o invisível mas ubíquo e potente
estatuto mineiro de costumes.
Dançam no segundo andar as valsas lânguidas
que o violino de Flausino faz etéreas.
Não sei dançar.
O Clube não frequento.
É meu clube a calçada.
A calçada sem música.
A porta do cinema, a porta do Giácomo,
a porta sem espera, a porta sem esperança,
a porta.
A Língua E o Fato
Precisamos dar um nome
português a este desporto.
De resto, o nome genérico
nem tem cara de vernáculo.
Lincoln, de latim provido,
hesita entre bulopédio
e globipédio. Afinal
define-se por ludopédio
no jornal oficial.
Aprovado o lançamento
por força da lei mineira
não assinada mas válida,
eis que súbito estraleja
barulho estranho lá fora.
A redação se interroga.
Que foi? Que não foi? Acode
o servente noticioso
e conta que espatifou-se
a vidraça da fachada
por bola de futebol.
Entre o Ser E As Coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
Parceiro de Bach
A harpa de Rosa Ferraiol
apura ainda mais o Cravo temperadíssimo
em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.
Mas que há com as tercinas?
Não fluem fácil como fio d’água.
Som intempestivo criva a sala.
Há mal-estar, rostos inquietos,
entre os seletos do Municipal.
Não se dá conta Rosa deste agravo
à pureza de Bach, e vai levando
os stretti, as leves colcheias, os alados
acordes melancólicos ou gaios?
A plateia começa a resmungar:
— Assim não! Mas que coisa! Está demais!
Está demais o grilo subversivo
que no teatro cheio põe cricrilos
nos arpejos celestes.
O guarda percorre camarotes,
corredores, lanterninha na mão, à sua caça,
e o ruído da caça se acasala
com Bach e grilo e riso incontrolável
dos melômanos: a Polícia vai prender
o grilo, tem gaiola para isto?
Caro João Sebastião, desculpe: em Minas
até os grilos amam fazer música.
O Passado Presente
Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
O Príncipe Dos Poetas
Fazer.
É preciso fazer alguma coisa
que pelo menos risque um círculo
efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas,
João Alphonsus emite
seu sorriso enigmático,
Emílio, recém-chegado de galáxia,
aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser
ser eleitor, principalmente nós,
inelegíveis de nascença.
Pingam votos esparsos. Desconfiança.
Isso é brincadeira
de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos
para Belmiro Braga, o velho Augusto
de Lima e Noraldino e Mário Matos.
Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,
menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números,
mas se for escolhido vão dizer
que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal,
qual será, dos poetas, o mais nobre,
aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isso ou por aquilo.
Outro passou de moda. Outro é feroz
contemptor de experiências modernistas.
E um Príncipe hostil não apetece
à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond
em sua Barbacena roseiral
é altivo, discreto, bom poeta,
dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada
elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento,
sem recusar redondamente a láurea,
responde: “Eu, Príncipe? De quê?
Só se for, por distinção latina,
Princeps Promptorum”… E continua
sereno, silencioso,
em seu rosa-lar de Barbacena.
Plataforma Política
O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
O Lado de Fora
Sexta-feira. Sessão Fox
rebrilha de gente fina.
Fico do lado de fora.
Não tenho dinheiro agora.
Agora ou toda a semana?
O mês inteiro? Meus livros
troquei por alguns mil-réis:
eram dedos, não anéis.
Não deu para ver a fita
da ofídica Theda Bara.
Que importa a fita? Importante
é a cicuta deste instante.
A moça de meus cuidados,
mas de mim tão descuidada,
surge, camélia ridente.
Finjo ser indiferente.
Entra, nuvem colorida,
entra, música de corpo.
Mal sabe que estou ali,
hirto, magro, como um I.
Nem me vê. Não me verá.
Cada pétala de seda
do seu todo natural
me faz delicioso mal.
Não tem sentido, ou tem muito,
esperar por duas horas
que ela saia do cinema
como sai, de mim, o poema.
Aprendo a lição tortuosa
de curtir a dor das coisas.
O que ela viu, tela e enredo,
não vale este meu brinquedo,
o pungitivo brinquedo
de pensar na moça em vão,
do lado de fora, o lado
que ficará do passado
e vige ainda: poder
de sentir, mais que o vivido,
o que pudera ter sido,
o que é, sem jamais ser.
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!