Sino
O sino Elias não soa
por qualquer um,
mas, quando soa, reboa
como nenhum.
Com seu nome de profeta,
sua voz de eternidade,
o sino Elias transmite
as grandes falas de Deus
ao povo desta cidade,
as faltas que os outros sinos
nem sonham interpretar.
Coitados, de tão mofinos,
quando soa a voz de Elias,
têm ordem de se calar.
Têm ordem de se calar,
e toda a cidade, muda,
é som profundo no ar,
um som que liga o passado
ao futuro, ao mais que o tempo,
e no entardecer escuro
abre um clarão.
Já não somos prisioneiros
de um emprego, de uma região.
Precipitadas no espaço,
ao sopro do sino Elias,
nossa vida, nossa morte,
nossa raiz mais trançada,
nossa poeira mais fina,
esperança descarnada,
se dispersam no universo.
Chega, Elias, é demais.
Cerâmica
Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.
(lc)
A Queda
Por que caiu o elevado?
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
Pré-Inverno
— E vem um novo inverno todo em vês
ou todo em is? de frio fino e… — Flora!
Este babado de poetar já era.
Agora
a coisa tem que ser assim:
In
ver no par que o ver de
ar pi pila.
— Traduza para mim. — Pois não:
Inverno. Parque. O verde ar pipila.
— Não era o par que pipilava amores
no verde parque?
— Como quiser. O jogo é múltiplo.
Seja também assim:
Noverin pardever que lapipi.
— Parece nome de remédio!
— E daí? Os mais lindos sons da língua
são nomes de remédio, e cobram royalties.
Ah, declaro o papo fin-
do, antes que inverno pegue fogo.
Muito melhor ouvir o Tom Jobim
cantar, pianoviolão,
no Jardim das rosas, de sonho e medo,
no clarão das águas, no deserto negro,
enquanto, lerê, lará,
o Matita Perê negaceia:
“Eu quero ver, eu quero ver
você me pegar.”
Quem pega Tom Jobim, no Rancho das nuvens,
de Nuvens douradas? Leva Ana Luísa
no Trem para Cordisburgo. Conta-lhe
a Crônica da casa assassinada.
Fala de Milagres e palhaços,
e se é Tempo de mar, com Pedrinho de Morais,
Chora o coração de Vinicius de Moraes.
Fluem, fluem
as Águas de março e vai fluindo
em poesia rosiana
o límpido som
de Tom,
na palma da mão, cor do Brasil.
Vejo camisolas de algodão
(modelos decotados) nas vitrinas;
frente única de lã, e barriguinhas
de fora, desfilando na calçada.
É um frio maroto, com saudade
do verão, ou o verão reincidente
a infiltrar-se, maroto, neste inverno?
De pés de lã, brotos de Lan
mimam na praia o rito carioca:
(in) verniverão.
O rito?
O mito?
Esta cidade é um tanto periquito
australiano, de assobio colorido
especialmente alegre todo ano,
e faz do pré-inverno pré-estreia
do calor de dezembro a florescer
na rosinha do umbigo das garotas.
Cai um pingo de chuva nesta página?
Salta do solo o Sol e sela a sala
de ouro.
— Não é nada disto (protesta o Poet/Sintétiko),
Negó seguin:
RIO RAIO RISTE
PRAIA SPRAY
SOL
SAL
SUL
SAL MAIOR
SUL MELHOR
SOL BEMOL
12/05/1973
Ai Dos Macacos
Ai dos macacos, ai dos macacos
sul-americanos!
Sem mais florestas
para morada
e são caçados
de noite, de dia.
Se ainda tivessem
matos bacanos,
que adiantaria?
Serem guardados
para experiências,
anos e anos
(a ciência é um fato)
de neuropato-
logia.
03/11/1968
Reunião Em Dezembro
Dezembro, e dói (ou não?) um pouco
esse abrir os braços para abraçar
o corpo, ou o sem-corpo, de uma espera
nervosa.
Dezembro, e não te lembra
os que não estão mais para jogar
o jogo repetido da esperança?
Oh, não te faças de amargo.
Joga também, mas chama
ao balcão da memória
e junto do teu corpo
aqueles companheiros dispersados
em não sei que país não mapeado,
pois sem nome e latitude,
onde o tempo sem número é repleto
(ou deserto) de todo pensamento.
E reserva
poltronas especiais para os que ainda há pouco
se foram. Não estão acostumados
ainda ao novo lar, ou somos nós
que de perdê-los não nos demos conta?
Repara: a teu aceno
as perdas deste ano se transformam
em nova relação interior.
Ganhamos o perdido. Vem chegando
cada um no seu passo costumeiro,
no seu modo de ser e de existir.
Esta
é Ana Amélia, rainha sem diadema.
Reina em doçura entre estudantes
e anjos barrocos. Calmos decassílabos
fluem de suas mãos e vão voando
para onde a poesia se concentra
em bondade e beleza:
sinônimo de alma.
Para um instante, Murilo; olha, Miranda,
quanta coisa fizeste na inquietude
de fazer coisas. Pois não basta, homem?
As artes mais as letras te agradecem
quanto penaste por amor de sonhos
culturais, que no esquecimento somem.
Mas que rumor é este, que risada
rouca, feliz, irada, insubmissa,
entre as festas do povo se anuncia?
É carnaval, folclore, são vivências
de um gato, da Amazônia, que sei mais?
O furacão chamado Eneida
tem garras verdes e quedou tranquilo.
Pelo telefone, a voz te pede
a colaboração do suplemento.
Anos a fio, vida a fio.
José Condé faz o jornal,
mas seu coração foge ao plantão
e perfura, no chão natal,
o poço dorido-alegre
de imagens pernambucanas.
Willy Lewin, viola ou violino
afinadíssimo, ouvido apenas
em surdina de câmara e recato.
Que requinte no seu sigilo,
seu desencanto modulado:
a melhor poesia é um signo
abafado.
Brumoso Luís Santa Cruz: a cruz,
entre súcubos a espicaçá-lo,
exorciza lêmures. Vago,
fantasmal ele próprio, ouvindo-lhe
a voz baixa, é o sussurro que ouves
de um mundo abissal, de sombras.
Por último vem teu compadre
e teu irmão Emílio, o doce
mavioso Moura irmão mineiro. Sorrindo,
como a pedir desculpas de uma falta:
“Fui proibido de beber
e de pitar um cigarrinho”
e de outra falta, mais grave:
“Fui-me embora, deixei você falando
sozinho”.
Dezembro, e o que perdido
foi neste ano, volta, iluminado
pelo claro pensar,
e reanima-se
o jogo eterno (e vão?), o jogo
da vida renascendo de si mesma.
02/12/1971
Esparsos de 1976
Rios de Petrópolis
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
O Escritor
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
Pacto
Que união floral existe
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?
Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?
Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?
E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?
E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?
É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?
São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?
Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.
Festival Em Verso
Geneviève Waïte
Pálida Joaninha
pálida e loura muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar, mas falta céu em Londres
enevoada.
Arnevic
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.
Brasileira
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?
O nome
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro!
diz num trinado
trêfega trintona.
Liquidação
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.
Tráfego
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.
Velha guarda
Josef von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.
Mercado de filmes
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim,
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.
Genealogia
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?
Desafio
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
nunca jamais demonstrado.
25/o3/1969
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!