Castro Alves

Castro Alves

1847–1871 · viveu 24 anos BR BR

Antônio Frederico de Castro Alves foi um dos maiores poetas da literatura brasileira, conhecido como o "Poeta dos Escravos". Sua obra é marcada por um forte lirismo e por um engajamento social e político, com destaque para a defesa da abolição da escravatura. Sua poesia, vigorosa e apaixonada, empolgou multidões e serviu como instrumento de luta contra a injustiça, tornando-se um símbolo do romantismo abolicionista e da resistência contra a opressão.

n. 1847-03-14, Muritiba · m. 1871-07-06, Salvador

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Vozes d'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

(...)

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

(...)

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
O Universo após ela — doudo amante —
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

.......................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

(...)

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "La vai África embuçada
No seu branco albornoz..."

(...)

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...

...........................................

(...)

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão!...

Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
— Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

.........................................

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!...
Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

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Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847, em Salvador, Bahia, e faleceu em 25 de setembro de 1871, no Rio de Janeiro. É amplamente conhecido como o "Poeta dos Escravos" ou "Poeta Social", em reconhecimento ao seu engajamento na luta abolicionista. Sua obra o consagrou como um dos maiores representantes da terceira geração do Romantismo brasileiro, também conhecida como "Geração Condoreira" ou "Geração Social". A influência da sociedade escravocrata em que viveu moldou profundamente sua escrita.

Infância e formação

Castro Alves era filho de um fidalgo e proprietário de terras, mas sua infância foi marcada pela convivência com o sistema escravocrata, que ele viria a combater. Estudou em Salvador e, posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Direito na Faculdade de São Francisco. Durante sua juventude, absorveu as ideias liberais e abolicionistas que circulavam na época, influenciando seu pensamento e sua produção literária. A leitura de poetas românticos europeus e a observação direta das mazelas sociais foram importantes para sua formação.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu ainda durante a faculdade, com a publicação de poemas em jornais e revistas. Sua obra ganhou projeção nacional com a publicação de "Espumas Flutuantes" (1870), que reuniu poemas de diversas fases de sua produção. Castro Alves foi um poeta de transição, mesclando o lirismo amoroso da segunda geração romântica com o engajamento social da terceira. Apesar de sua vida relativamente curta, sua obra deixou uma marca indelével na literatura brasileira, especialmente por sua capacidade de empolgar e mobilizar o público em torno da causa abolicionista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais importantes estão o romance "O Navio Negreiro" (poema épico), "A Cachoeira de Paulo Afonso", "O Adeus", "O Grito do Ipiranga" e "Espumas Flutuantes". Seus temas centrais abordam o amor, a natureza e, principalmente, a denúncia da escravidão e a exaltação da liberdade. Castro Alves utilizava uma linguagem grandiosa e retórica, com versos longos e sonoros, em consonância com o estilo condoreiro. Seu tom poético é fervoroso, épico e de forte apelo emocional, buscando comover o leitor e incitar à ação. Ele inovou ao trazer para a poesia brasileira temas sociais e políticos com a mesma paixão com que tratava o amor e a natureza, consolidando o Romantismo como um movimento engajado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Castro Alves viveu em um período crucial da história brasileira, o Segundo Reinado, marcado pela continuidade da escravidão e pelas crescentes discussões sobre sua abolição. Ele se tornou a voz poética desse movimento, utilizando sua obra como arma de combate. Sua geração, a Condoreira, caracterizou-se pela temática social e pela grandiosidade formal. Ele conviveu com outros intelectuais e ativistas da causa abolicionista, fortalecendo o movimento através de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Castro Alves foi intensa, embora marcada pela doença que o acometeu precocemente. Ele era conhecido por seu temperamento boêmio e por suas paixões amorosas, que se refletiram em seus poemas líricos. Sua dedicação à causa abolicionista era inquestionável, e ele participava ativamente de debates e manifestações. Embora vivesse de sua propriedade herdada, sua vida foi relativamente modesta, totalmente voltada para a arte e para a luta por um ideal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Castro Alves alcançou grande fama em vida, sendo aclamado pelo público como o "Poeta dos Escravos". Sua poesia era declamada em público, especialmente "O Navio Negreiro", que causava grande comoção. Após sua morte, seu reconhecimento se consolidou, tornando-se um dos poetas mais estudados e reverenciados do Brasil. Sua obra é um pilar fundamental do cânone literário brasileiro, simbolizando a união entre arte e engajamento social.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Castro Alves foi influenciado por poetas românticos como Victor Hugo e Lord Byron. Seu legado é imenso, principalmente por ter elevado a poesia social a um patamar de excelência e por ter contribuído decisivamente para a conscientização abolicionista no Brasil. Ele influenciou gerações de poetas e escritores que viram em sua obra um exemplo de como a arte pode ser uma força transformadora. Sua poesia continua a ser lida e admirada pela sua força expressiva e pelo seu profundo humanismo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Castro Alves é frequentemente analisada sob a ótica do Romantismo social e da literatura engajada. Os críticos destacam a força de seus versos na denúncia da escravidão e a paixão com que defendia a liberdade. Sua poesia é vista como um documento histórico e um manifesto literário, que combina lirismo e protesto de forma magistral.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Castro Alves é que, apesar de sua fama como poeta, ele foi um orador inflamado e participou ativamente de comícios abolicionistas. Há relatos de que ele chegou a desferir um tiro para defender um escravo em uma situação de abuso. Sua obra "O Navio Negreiro" foi escrita após ele ter presenciado cenas de crueldade em uma viagem marítima, o que o marcou profundamente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Castro Alves faleceu em decorrência de uma tuberculose pulmonar, que o debilitou nos últimos anos de sua vida. Sua morte prematura, aos 42 anos, causou grande comoção nacional. Sua memória é celebrada como a de um herói nacional e um dos maiores poetas do Brasil, cujo legado abolicionista e literário permanece vivo.

Poemas

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Tirana

"MINHA MARIA é bonita,
Tão bonita assim não há;
O beija-flor quando passa
Julga ver o manacá.

"Minha Maria é morena,
Corno as tardes de verão;
Tem as tranças da palmeira
Quando sopra a viração.

"Companheiros! o meu peito
Era um ninho sem senhor;
Hoje tem um passarinho
Pra cantar o seu amor.

"Trovadores da floresta!
Não digam a ninguém, não!...
Que Maria é a baunilha
Que me prende o coração.

"Quando eu morrer só me enterrem
Junto às palmeiras do val,
Para eu pensar que é Maria
Que geme no taquaral . . ."

4 570

Penso em Ti

EU PENSO em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.

Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto...
Contigo a sombra não me tolda o seio.

Quando a teus pés o meu viver sescoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minhalma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver sescoa ...

Bendito o riso desses lábios túmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar...
E o riso, o riso desses lábios túmidos

Ai! volve! volve peregrina estrela...
Minhalma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela...
À tua espera perfumou-se a nave...
Ai! volve! volve peregrina estrela!

3 110

O Sol e o Povo

Le peuple a sa colére et le volcan sa lave.
V. Hugo

Ya desatado
El horrendo huracán silba contigo
¿ Qué muralla, qué abrigo
Bastaran contra ti?
M. Quintana

O sol, do espaço Briaréu gigante,
P’ra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.

Então em meio dos Saarás — o Egito
Humilde curva a fronte e um grito errante
Vai despertar a Esfinge de granito.

O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!...

Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.

2 934

O Laço de Fita

Não sabes, criança? Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente quenlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minhalma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
Nalcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... f ico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por croa...
Teu laço de fita.

3 150

AS TREVAS

(Traduzido de Lord Byron)

A meu amigo, o DR. Franco Meireles,
inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...

O sol brilhante se apagava: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões: E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se. . . e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!

Hórrida esprança acalentava o mundo!
As florestas ardiam! ... de hora em hora
Caindo seapagavam; crepitando,
Lascado otronco desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontesao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo — espectro —,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!

Lúgubre grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto coas inúteis asas!
As feras stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando senroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento sextinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor! ... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.

Mordiam-se entre si os moribundos
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todos exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava ...
Mas, gemendo num uivo longo e triste,
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.

Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias de espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram! ...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!

O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva.
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem,
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.

5 615

Sonho da Boêmia

DAMA NEGRA

I

VAMOS, meu anjo, fugindo,
A todos sempre sorrindo,
Bem longe nos ocultar...
Como boêmios errantes,
Alegres e delirantes
Por toda a parte a vagar.

II

Há tanto canto na terra
Que uma vida inteira encerra!...
E que vida!... Um céu de amor!
Seremos dois passarinhos,
Faremos os nossos ninhos
Lá onde ninguém mais for.

III

Uma casinha bonita,
Lá na mata que se agita
Do vento ao mole soprar,
Com as folhas secas da selva
Com o lençol verde da relva
Oh! quanto havemos de amar!...

IV

De manhã, inda bem cedo,
Hás de acordar, anjo ledo,
Junto do meu coração...
Ao canto alegre das aves
As nossas canções suaves,
Quais preces se ajuntarão.

V

Passearemos à sesta...
Sonharemos na floresta,
Sempre felizes, meu Deus!...
Nalma lânguida esteira,
Quanta cantiga faceira
Ouvirei dos lábios teus!...

VI

E à noite, no mesmo leito
Reclinada no meu peito,
Hei de ouvir os cantos teus.
A cada estrofe bonita
No teu seio, que palpita,
Terás cem beijos, por Deus!

VII

Farei poesias ou versos
Aos teus olhinhos perversas
Aos teus "anhos, meu bem!
Tu cantarás, é Manola,
Aquela moda espanhola
Que tantos requebros tem!

VIII

Depois, que lindas viagens!...
Veremos novas paisagens,
No sul, no norte, onde for...
Voando sempre, querida,
Coa primavera da vida,
Coa primavera do amor.

IX

Vamos, meu anjo, fugindo,
A todos sempre sorrindo
Bem longe nos ocultar.
Como boêmios errantes
Que repetem delirantes:
"Pra ser feliz basta amar"!

5 176

A Criança

— Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux?
— Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
Je veux de la poudre et des balles.
VICTOR HUGO - Les Orientales.

Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.

É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.

Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.

Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear a noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.

Recife, 30 de junho de 1865.


Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
4 696

Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!...
...................................
Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.
ÁLVARES DE AZEVEDO


I

Rebramam os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

..........................................


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986

NOTA: Poema composto de 5 partes, datado de Recife, maio de 1865
6 133

A D Joana

(No dia do seu aniversário)

SENHORA, eu vos dou versos, porque apanho
Das flores dahna um ramalhete agreste
E são versos a flora perfumada,
Que de meu seio a solidão reveste.

E vós que amais a parasita ardente,
Que abre como um suspiro em pleno maio,
E o aroma que anima o cálix rubro
— Talvez de uma alma perfumoso ensaio,

E esse vago tremer de níveas pétalas,
Que faz das flores meias borboletas,
O escarlate das malvas presumidas,
A modéstia infantil das violetas,

E essa linguagem transparente e meiga
Que a natureza fala nas campinas
Pelas vozes das brisas suspirosas,
Pela boca rosada das boninas ...

Hoje, na vossa festa, em vosso dia,
Em meio aos vossas íntimos amores...
Juntai aos ramalhetes estes versas,
Pois versas de afeição... também são flores!

2 958

A Volta da Primavera

Aime, et tu renaítras; fais-toi fleur pour éclore,
Après avoir souffert, il faut souffrir encore;
Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.
A. DE MUSSET

AI! Não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros — na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.

Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!

Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!

Já viste às vezes, quando o sol de maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: "Que suave raio!"
Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"

E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente ...

Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minhalma reviver ovante?

É que teu riso me penetra nalma —
Como a harmonia de uma orquestra santa —
É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!

Que eu digo ao ver tua celeste fronte,
"O céu consola toda dor que existe.
Deus fez a neve — para o negro monte!
Deus fez a virgem — para o bardo triste!"

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Castro Alves

Mickeilla🍃🍃
Mickeilla🍃🍃

Uai

Mickeilla
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Ele viveu por 24 anos apenas??

Talita de Menezes Cerqueira
Talita de Menezes Cerqueira

Castro Alves nasceu em Cabaceiras do Paraguaçu, na época era um pequeno distrito da cidade de Muritiba-BA.