Lista de Poemas

Se alguma vez, nos salões de um palácio

Se alguma vez, nos salões de um palacio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao passaro, ao relogio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o passaro, o relogio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!
11 819

O Heautontimoroumenos

Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento.
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E em meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
- Um desses tais abandonados
Ao riso eterno condenados,
E que não podem mais sorrir.
12 037

REMORSO PÓSTUMO

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e mamóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teu pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: "De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?"
- E o verme te roerá como um remorso lento.


7 249

O VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste,
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,

De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
- Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho o jogador,
Como à carniça ao parasita,
Como à garrafa ao bebedor
- Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao veneno, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
"Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque a escravidão,

Imbecil! - se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

10 073

O ALBATROZ

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao próncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

17 428

Harmonia da tarde

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,
Cada flor se evapora igual a um incensório;
Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!

Cada flor se evapora igual a um incensório;
Fremem violinos como fibras que se afligem;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!
É triste e belo o céu como um grande oratório.

Fremem violinos como fibras que se afligem,
Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!
É triste e belo o céu como um grande oratório;
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.
 
Almas ternas que odeiam o Nada vasto e inglório
Recolhem do passado as ilusões que o fingem!
O sol se afoga agora em ondas que de sangue o tingem...
Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!



(Charles Baudelaire, As flores do mal, 1857, trad. Ivan Junqueira)
2 553

A SERPENTE QUE DANÇA

Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.

Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,

Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento

Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.

Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.

Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.

E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.

Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes

Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!

6 211

A morte dos pobres

A Morte é que consola e nos faz viver;
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
E forças para andar até o anoitecer.

Em meio à tempestade e à neve a se desfazer,
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.

É um Arcanjo que tem nos dedos imantados
O sono e eterno e o dom dos sonhos extasiados,
E arruma o leito para os nus e os desválidos;

É dos Deuses a glória e o místico celeiro,
É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,
O pórtico que se abre aos Céus desconhecidos.
5 548

ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!

3 906

CORRESPONDÊNCIAS

A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos do além confundem os rumores
Na mais profunda e tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Há perfumes frescos como carnes de criança
Doces como oboés, ou verdes como as campinas.
E outros, corrompidos, mas ricos e triunfantes

Que possuem a efusão das coisas infinitas
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam o êxtase, do espírito e dos sentidos.

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João Pedro Roncha

Gosto

Identificação e contexto básico

Charles-Pierre Baudelaire foi um poeta, crítico de arte e tradutor francês, amplamente considerado um dos mais importantes poetas do século XIX e um pioneiro da poesia moderna. Nasceu em Paris, França, a 9 de abril de 1821, e faleceu na mesma cidade a 31 de agosto de 1867. Filho de um funcionário público e pintor amador, Baudelaire teve uma infância marcada pela morte precoce do pai e pelo segundo casamento da mãe com um militar autoritário, o general Aupick, de quem o poeta sentiu sempre uma profunda aversão. A sua nacionalidade era francesa e escrevia em francês.

Infância e formação

A infância de Baudelaire foi marcada pela perda do pai, a quem era muito apegado, e por uma relação conflituosa com o padrasto. Enviado para a Índia pelos pais na adolescência, numa tentativa de o afastar das suas inclinações artísticas e de uma vida boémia, regressou a Paris sem completar a viagem. A sua educação formal foi intermitente e marcada por um espírito rebelde. Héritou uma considerável fortuna do pai, o que lhe permitiu levar uma vida de dandy e de artista, mas também o levou a contrair dívidas e a viver em dificuldades financeiras após dilapidar o seu património. Absorveu influências literárias de autores como Edgar Allan Poe (de quem se tornou um notável tradutor), Théophile Gautier e Victor Hugo, bem como do Romantismo e das correntes estéticas emergentes.

Percurso literário

Baudelaire iniciou a sua carreira literária como crítico de arte, publicando textos sobre exposições e artistas. A sua obra poética mais conhecida, "Les Fleurs du Mal" (As Flores do Mal), foi publicada pela primeira vez em 1857, causando escândalo e sendo alvo de um processo por ultraje à moral pública. A obra sofreu censura e teve de ser expurgada de seis poemas. A sua escrita evoluiu para uma profunda análise da condição humana, explorando o belo no feio, o sagrado no profano, a cidade moderna e os estados de alma como o tédio (spleen) e o ideal. A atividade de tradutor de Poe foi fundamental para a sua própria obra e para a difusão do escritor americano na Europa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra-prima de Baudelaire, "Les Fleurs du Mal", é um marco na história da poesia. Temas como a beleza (muitas vezes perversa ou mórbida), o amor (frequentemente tingido de sensualidade e melancolia), a morte, o tempo, a cidade, a solidão, o pecado e a busca por um ideal inatingível dominam a sua poesia. Baudelaire utilizou com mestria o soneto e outras formas poéticas tradicionais, mas infundiu-as com uma modernidade ímpar. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem precisa e evocativa, rica em imagens sensoriais, metáforas ousadas e sinestesias. A voz poética é frequentemente irónica, melancólica, desafiadora e confessional, explorando as contradições da alma humana. Baudelaire inovou ao trazer para a poesia temas considerados indignos e ao retratar a vida urbana com uma crueza e uma beleza paradoxais. É associado ao Simbolismo, sendo considerado um dos seus precursores.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Baudelaire viveu numa França em profunda transformação, sob o Segundo Império de Napoleão III, uma época de industrialização, urbanização e progresso técnico, mas também de desigualdade social e moralismo hipócrita. O seu estilo de vida boémio e a sua obra controversa colocaram-no em conflito com a sociedade burguesa da época. Foi amigo de escritores como Gustave Flaubert e Édouard Manet, e o seu círculo incluía artistas e intelectuais que desafiavam as convenções. A sua geração, marcada pela transição do Romantismo para novas correntes estéticas, viu em Baudelaire um espírito rebelde e inovador.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Baudelaire foi marcada por dificuldades financeiras, relações amorosas tempestuosas (notavelmente com a atriz Jeanne Duval) e um uso crescente de substâncias (ópio, álcool), que acabariam por minar a sua saúde. As suas relações familiares foram tensas, especialmente com o padrasto. A sua condição de dandy, a sua atração pelo exótico e pelo proibido, e a sua luta constante contra o "spleen" (um estado de melancolia profunda e tédio existencial) são aspetos centrais da sua biografia e da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Baudelaire foi um poeta controverso, ridicularizado por muitos e admirado por um círculo restrito. O processo judicial contra "Les Fleurs du Mal" e a condenação por "ultraje à moral pública" limitaram o seu reconhecimento imediato. No entanto, a sua obra começou a ganhar prestígio após a sua morte, especialmente entre os poetas simbolistas. Hoje, é unanimemente reconhecido como um mestre da poesia, cujas inovações formais e temáticas foram fundamentais para a evolução da literatura moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Baudelaire foi influenciado por autores como Edgar Allan Poe, Alfred de Vigny e Percy Bysshe Shelley. O seu legado é imenso: influenciou profundamente poetas simbolistas como Verlaine e Rimbaud, e posteriormente o Modernismo e o Surrealismo. A sua exploração da cidade moderna, da subjetividade e da beleza no mal estabeleceu um novo paradigma para a poesia. "Les Fleurs du Mal" é um clássico da literatura mundial, traduzido para inúmeras línguas e estudado em universidades de todo o mundo. A sua figura como poeta maldito e inovador tornou-se icónica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Baudelaire tem sido objeto de análise sob diversas perspetivas: psicológica, sociológica, estética e filosófica. A sua poesia é vista como uma exploração profunda da dualidade humana – o conflito entre o "spleen" e o "ideal", o corpo e o espírito, o bem e o mal. As críticas destacam a sua capacidade de capturar a "modernidade" da experiência urbana e a sua originalidade na articulação entre a beleza e a decadência. Debates centram-se na sua relação com a religião, a moralidade e a sua visão do progresso.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Baudelaire era conhecido pelo seu cuidado na aparência e no comportamento, adotando o estilo de um dandy. Tinha um fascínio por gatos, que aparecem em alguns dos seus poemas. A sua tradução de Edgar Allan Poe foi tão bem-sucedida que, para muitos leitores franceses, Poe era visto como um autor francês e não americano. A sua famosa "Correspondência" revela detalhes íntimos da sua vida e das suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Baudelaire faleceu aos 46 anos, vítima de sífilis e das consequências do abuso de substâncias, que o deixaram paralisado e com dificuldades de fala nos seus últimos anos. A sua morte prematura contribuiu para a sua imagem de poeta maldito. A memória de Baudelaire é a de um revolucionário da arte, um homem que soube perscrutar as profundezas da alma humana e a complexidade da vida moderna, deixando um legado poético que continua a ressoar.