Lista de Poemas

Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite contínua. Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do ópio, não tenho outra sede a não ser a de um licor desconhecido na Terra e que nem mesmo a farmacopéia celeste poderia me proporcionar; um licor que não é feito nem de vitalidade, nem de morte, nem de excitação, nem de nada. Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir, dormir e sempre dormir, tal é atualmente minha única aspiração. Aspiração infame e desanimadora, porém sincera.

 

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Só o bruto trepa bem: a trepada é o lirismo do povo.

 

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Ter vontade todos os dias de ser o maior dos homens!

 

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Sonhos! sempre sonhos! e quanto mais ambiciosa e fina é a alma, tanto mais os sonhos a afastam do possível. Cada homem traz em si sua dose de ópio natural, constantemente segregada e renovada. E, do nascimento à morte, quantas horas podemos contar preenchidas pelo verdadeiro prazer, pela ação feliz e resoluta?

 

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O comércio é natural e, portanto, vergonhoso. O menos vil de todos os comerciantes é o que diz: “Sejamos virtuosos, já que assim ganharemos mais dinheiro que os tolos desonestos”. Para o comerciante até a honestidade é especulação financeira.

 

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O pobre é constrangido a regatear a sua dor. O rico exibe a sua por inteiro.

 

24

É sempre coisa interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do olhar do pobre.

 

19

Este mundo adquiriu uma tal crosta de vulgaridade que o desprezo que ele suscita no homem de espírito adquire a violência de uma paixão. Mas este mundo pertence ao gênero daquelas carapaças que até mesmo o mais corrosivo veneno seria incapaz de perfurar.

 

3

Teoria da verdadeira civilização. Ela não está no gás, nem no vapor, nem nas plataformas giratórias, mas na atenuação das marcas do pecado original. Povos nômades, pastores, caçadores, agricultores e mesmo antropófagos, pela sua energia e dignidade próprias, podem ser todos superiores às nossas raças ocidentais.

 

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Este livro, essencialmente inútil e absolutamente inocente, não foi feito com outro propósito a não ser o de divertir-me e exercitar minha apaixonada afeição ao obstáculo.

 

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João Pedro Roncha

Gosto

Identificação e contexto básico

Charles-Pierre Baudelaire foi um poeta, crítico de arte e tradutor francês, amplamente considerado um dos mais importantes poetas do século XIX e um pioneiro da poesia moderna. Nasceu em Paris, França, a 9 de abril de 1821, e faleceu na mesma cidade a 31 de agosto de 1867. Filho de um funcionário público e pintor amador, Baudelaire teve uma infância marcada pela morte precoce do pai e pelo segundo casamento da mãe com um militar autoritário, o general Aupick, de quem o poeta sentiu sempre uma profunda aversão. A sua nacionalidade era francesa e escrevia em francês.

Infância e formação

A infância de Baudelaire foi marcada pela perda do pai, a quem era muito apegado, e por uma relação conflituosa com o padrasto. Enviado para a Índia pelos pais na adolescência, numa tentativa de o afastar das suas inclinações artísticas e de uma vida boémia, regressou a Paris sem completar a viagem. A sua educação formal foi intermitente e marcada por um espírito rebelde. Héritou uma considerável fortuna do pai, o que lhe permitiu levar uma vida de dandy e de artista, mas também o levou a contrair dívidas e a viver em dificuldades financeiras após dilapidar o seu património. Absorveu influências literárias de autores como Edgar Allan Poe (de quem se tornou um notável tradutor), Théophile Gautier e Victor Hugo, bem como do Romantismo e das correntes estéticas emergentes.

Percurso literário

Baudelaire iniciou a sua carreira literária como crítico de arte, publicando textos sobre exposições e artistas. A sua obra poética mais conhecida, "Les Fleurs du Mal" (As Flores do Mal), foi publicada pela primeira vez em 1857, causando escândalo e sendo alvo de um processo por ultraje à moral pública. A obra sofreu censura e teve de ser expurgada de seis poemas. A sua escrita evoluiu para uma profunda análise da condição humana, explorando o belo no feio, o sagrado no profano, a cidade moderna e os estados de alma como o tédio (spleen) e o ideal. A atividade de tradutor de Poe foi fundamental para a sua própria obra e para a difusão do escritor americano na Europa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra-prima de Baudelaire, "Les Fleurs du Mal", é um marco na história da poesia. Temas como a beleza (muitas vezes perversa ou mórbida), o amor (frequentemente tingido de sensualidade e melancolia), a morte, o tempo, a cidade, a solidão, o pecado e a busca por um ideal inatingível dominam a sua poesia. Baudelaire utilizou com mestria o soneto e outras formas poéticas tradicionais, mas infundiu-as com uma modernidade ímpar. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem precisa e evocativa, rica em imagens sensoriais, metáforas ousadas e sinestesias. A voz poética é frequentemente irónica, melancólica, desafiadora e confessional, explorando as contradições da alma humana. Baudelaire inovou ao trazer para a poesia temas considerados indignos e ao retratar a vida urbana com uma crueza e uma beleza paradoxais. É associado ao Simbolismo, sendo considerado um dos seus precursores.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Baudelaire viveu numa França em profunda transformação, sob o Segundo Império de Napoleão III, uma época de industrialização, urbanização e progresso técnico, mas também de desigualdade social e moralismo hipócrita. O seu estilo de vida boémio e a sua obra controversa colocaram-no em conflito com a sociedade burguesa da época. Foi amigo de escritores como Gustave Flaubert e Édouard Manet, e o seu círculo incluía artistas e intelectuais que desafiavam as convenções. A sua geração, marcada pela transição do Romantismo para novas correntes estéticas, viu em Baudelaire um espírito rebelde e inovador.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Baudelaire foi marcada por dificuldades financeiras, relações amorosas tempestuosas (notavelmente com a atriz Jeanne Duval) e um uso crescente de substâncias (ópio, álcool), que acabariam por minar a sua saúde. As suas relações familiares foram tensas, especialmente com o padrasto. A sua condição de dandy, a sua atração pelo exótico e pelo proibido, e a sua luta constante contra o "spleen" (um estado de melancolia profunda e tédio existencial) são aspetos centrais da sua biografia e da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Baudelaire foi um poeta controverso, ridicularizado por muitos e admirado por um círculo restrito. O processo judicial contra "Les Fleurs du Mal" e a condenação por "ultraje à moral pública" limitaram o seu reconhecimento imediato. No entanto, a sua obra começou a ganhar prestígio após a sua morte, especialmente entre os poetas simbolistas. Hoje, é unanimemente reconhecido como um mestre da poesia, cujas inovações formais e temáticas foram fundamentais para a evolução da literatura moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Baudelaire foi influenciado por autores como Edgar Allan Poe, Alfred de Vigny e Percy Bysshe Shelley. O seu legado é imenso: influenciou profundamente poetas simbolistas como Verlaine e Rimbaud, e posteriormente o Modernismo e o Surrealismo. A sua exploração da cidade moderna, da subjetividade e da beleza no mal estabeleceu um novo paradigma para a poesia. "Les Fleurs du Mal" é um clássico da literatura mundial, traduzido para inúmeras línguas e estudado em universidades de todo o mundo. A sua figura como poeta maldito e inovador tornou-se icónica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Baudelaire tem sido objeto de análise sob diversas perspetivas: psicológica, sociológica, estética e filosófica. A sua poesia é vista como uma exploração profunda da dualidade humana – o conflito entre o "spleen" e o "ideal", o corpo e o espírito, o bem e o mal. As críticas destacam a sua capacidade de capturar a "modernidade" da experiência urbana e a sua originalidade na articulação entre a beleza e a decadência. Debates centram-se na sua relação com a religião, a moralidade e a sua visão do progresso.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Baudelaire era conhecido pelo seu cuidado na aparência e no comportamento, adotando o estilo de um dandy. Tinha um fascínio por gatos, que aparecem em alguns dos seus poemas. A sua tradução de Edgar Allan Poe foi tão bem-sucedida que, para muitos leitores franceses, Poe era visto como um autor francês e não americano. A sua famosa "Correspondência" revela detalhes íntimos da sua vida e das suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Baudelaire faleceu aos 46 anos, vítima de sífilis e das consequências do abuso de substâncias, que o deixaram paralisado e com dificuldades de fala nos seus últimos anos. A sua morte prematura contribuiu para a sua imagem de poeta maldito. A memória de Baudelaire é a de um revolucionário da arte, um homem que soube perscrutar as profundezas da alma humana e a complexidade da vida moderna, deixando um legado poético que continua a ressoar.