Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

1861–1898 · viveu 36 anos BR BR

João da Cruz e Sousa foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Simbolismo, conhecido pelo seu nome de artista Cruz e Sousa. A sua obra poética é marcada por uma profunda espiritualidade, misticismo, musicalidade e um uso inovador da linguagem, explorando o transcendente e o etéreo. Enfrentou o preconceito racial e a pobreza ao longo da sua vida, o que se reflete na sua escrita com temas de dor, sofrimento e busca pela redenção através da arte.

n. 1861-11-24, Florianópolis · m. 1898-03-19, Antônio Carlos

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LIVRE

Últimos Sonetos

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

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Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** João da Cruz e Sousa **Pseudónimo:** Cruz e Sousa **Nascimento:** 24 de novembro de 1861 **Local de nascimento:** Complexo de São José, Desterro (atual Florianópolis), Santa Catarina, Brasil **Morte:** 25 de março de 1898 **Local de morte:** Curicica, Rio de Janeiro, Brasil **Origem familiar:** Filho de um português e uma escrava liberta, cresceu numa família de poucos recursos, mas com algum acesso à educação informal. A sua origem racial, como mulato, marcou profundamente a sua vida e obra. **Nacionalidade:** Brasileira **Língua de escrita:** Português **Contexto histórico:** Viveu e produziu durante o final do Império Brasileiro e o início da República, um período de grandes transformações sociais e políticas, mas ainda marcado pela escravatura e pelo racismo.

Infância e formação

Filho de um branco português e uma negra escrava liberta, Cruz e Sousa foi educado informalmente pelo seu padrasto, o militar e professor Galdino Jacobs, que lhe deu acesso a livros e conhecimento. A sua juventude foi marcada pela pobreza e pela discriminação racial, desafios que moldaram a sua visão de mundo e a sua sensibilidade artística. Teve pouca educação formal, mas era autodidata, devorando obras literárias e filosóficas.

Percurso literário

Começou a sua carreira literária muito jovem, escrevendo sonetos que já demonstravam uma inclinação para o lirismo e a melancolia. A sua obra inicial é por vezes associada ao Parnasianismo, mas logo evoluiu para o Simbolismo, movimento do qual se tornou um dos expoentes máximos no Brasil. Publicou os seus primeiros poemas em jornais e revistas da época, ganhando reconhecimento pela originalidade do seu estilo. A publicação de "Broquéis" (1890) e "Faróis" (1891) consolidou a sua posição como um dos poetas mais inovadores do período.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais:** "Broquéis" (1890), "Faróis" (1891), "Antologia Poética" (póstumo, 1901). **Temas dominantes:** Espiritualidade, misticismo, transcendência, o etéreo, a dor, o sofrimento, a morte, a busca por um ideal de pureza e transcendência, o amor platónico, o mistério da existência, o sofrimento racial. **Forma e estrutura:** Predominantemente o soneto, mas com um uso inovador da métrica e da rima, explorando a sonoridade e o ritmo. Usou também o verso livre em alguns poemas. **Recursos poéticos:** Uso intensivo de aliterações, assonâncias, sinestesias, metáforas e símbolos. Grande musicalidade e sugestão, com um vocabulário que evoca o sublime e o impalpável. **Tom e voz poética:** Lírico, elegíaco, místico, soturno. A voz poética é frequentemente a de um ser torturado pela realidade terrena, buscando refúgio no mundo espiritual e na transcendência. **Linguagem e estilo:** Linguagem erudita, com um vocabulário que remete para o etéreo, o celestial, o misterioso, o sombrio. A densidade imagética e a sugestão são as suas marcas. **Inovações:** Introduziu no Brasil uma poesia de cunho marcadamente simbolista, explorando a subjetividade, o inconsciente e a musicalidade da palavra de forma inédita. **Movimentos literários:** Principal representante do Simbolismo no Brasil. **Obras menos conhecidas:** "Os Segredos do Reinado" (poesia, 1878), "Escárnios" (prosa, 1892).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cruz e Sousa escreveu num período de efervescência cultural e política no Brasil, com o fim da escravatura e a Proclamação da República. No entanto, o racismo persistia como uma forte barreira social. O Simbolismo no Brasil, embora com menor impacto que na Europa, encontrou em Cruz e Sousa o seu principal arauto, com uma obra que se distanciava do realismo e do cientificismo então em voga. O seu convívio com outros intelectuais foi por vezes difícil, devido à sua condição social e racial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Cruz e Sousa foi marcada pela tragédia. Casou-se com Gavita, que morreu precocemente, e depois comtermilk, que o acompanhou em seus últimos anos de sofrimento. A pobreza extrema, a tuberculose e o alcoolismo minaram a sua saúde e a sua capacidade de trabalho. A sua condição de mulato numa sociedade racista adicionou um peso imenso à sua existência, sendo um tema subjacente em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha tido algum reconhecimento em vida, o seu legado só foi plenamente compreendido e valorizado postumamente. A sua obra é hoje considerada fundamental para a literatura brasileira, sendo um marco do Simbolismo. A sua poesia, com a sua profunda musicalidade e desespero existencial, continua a cativar leitores e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas simbolistas europeus como Verlaine e Mallarmé, mas também por autores como Camões e Dante. A sua obra influenciou poetas brasileiros posteriores, especialmente aqueles que buscavam uma maior liberdade formal e expressiva e uma exploração da dimensão espiritual da arte. É considerado um dos maiores poetas líricos da língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Cruz e Sousa é frequentemente interpretada como uma expressão do seu sofrimento pessoal e social, transfigurado num lirismo etéreo e místico. Os críticos destacam a sua capacidade de usar a linguagem para evocar o indizível e o transcendente, assim como a sua profunda melancolia. A sua obra é um testemunho da luta contra as adversidades e da busca pela redenção através da arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso é o facto de ele ter sido jogador de xadrez, um jogo que exige estratégia e abstração, qualidades que se podem encontrar na sua poesia. Foi também conhecido por ter uma caligrafia peculiar. A sua vida humilde contrastava com a sofisticação e a profundidade da sua obra poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cruz e Sousa morreu em 1898, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose e do alcoolismo, em condições de extrema pobreza. Várias obras foram publicadas postumamente, como a "Antologia Poética" (1901), que ajudou a consolidar a sua imagem como um dos grandes nomes da poesia brasileira. A sua memória é honrada como a de um artista que, apesar de todas as adversidades, conseguiu criar uma obra de beleza e profundidade singulares.

Poemas

66

Flor do Mar

És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afecto
As dormencias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas
Acres aromas de algas e sargaços...
5 009

Mundo Inacessível

Tua alma
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível

Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!

É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!

2 166

Humilde Secreta

Fico parado,
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.

Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.

De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.

Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.

1 765

A UMA ATRIZ

trechos do
poema O Botão de Rosa

Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.

Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.

O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.

A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.

Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...

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O ASSINALADO

Tu és o Louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tualma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

1 908

Inspirações do claustro (trechos)

Aqui – já era noite... eu reclinei-me
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.

Aqui – inda era noite... eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.

...

Aqui – era manhã... via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.

...

Aqui – oh quantas vezes! ... eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.

Aqui – oh quantas vezes!... eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!

2 425

Obras

1

Videos

50

Comentários (4)

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Josias Pereira
Josias Pereira

Para quem n entendeu, ele ta falando de, atenção - tire as crianças da sala - sexo.

niro
niro

cala a boca cuié vai lavar a louça

JCDINARDO

Meu poeta preferido. A musicalidade e o ambiente de sonhos de seus versos me fascinam e inspiram.

Maria:)
Maria:)

Que pena que ele morreu era muito bom em poesia