Lista de Poemas

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

33 893

ANNABEL LEE

Tradução de: Fernando Pessoa

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


12 139

A Cidade no Mar

Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.

Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.

Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

6 780

Um sonho num sonho

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
2 373

Palavras não têm poder de impressionar a mente sem o requintado horror da realidade.

 

29

Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho.

 

41

É de se apostar que toda ideia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.

 

29

Os demônios devem dormir, ou eles nos devorarão; devem ser mergulhados no sono, ou nós pereceremos! Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite.

 

37

A morte de uma bela mulher é incontestavelmente o tópico mais poético do mundo.

 

31

Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.

 

39

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Identificação e contexto básico

Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe) foi um escritor, poeta, editor e crítico literário americano. É amplamente reconhecido como uma figura central do Romantismo na sua nação e nos Estados Unidos, e como um dos pioneiros da ficção científica e do conto de mistério. Sua escrita, muitas vezes caracterizada pelo macabro e pelo gótico, explorou as profundezas da psique humana, a morte, a perda e o sobrenatural.

Infância e formação

A infância de Poe foi marcada por tragédias precoces. Nascido em Boston, Massachusetts, seus pais atores, David Poe Jr. e Elizabeth Arnold Poe, faleceram quando ele ainda era muito jovem. Órfão aos três anos, foi acolhido por John e Frances Allan, um casal abastado de Richmond, Virgínia. Embora John Allan o tenha educado e financiado seus estudos, a relação entre os dois era frequentemente tensa, especialmente após o casamento de Poe com sua jovem prima, Virginia Clemm. Poe frequentou a Universidade da Virgínia e a Academia Militar de West Point, mas não completou seus estudos em nenhuma das instituições, possivelmente devido a dificuldades financeiras e conflitos pessoais com John Allan.

Percurso literário

Poe começou a escrever poesia ainda na adolescência. Seu primeiro livro publicado, "Tamerlane and Other Poems", surgiu em 1827, de forma anônima. Após um período de serviço militar, ele se dedicou à escrita e à crítica literária, trabalhando para diversas publicações. Foi como contista que Poe ganhou maior notoriedade com obras como "The Fall of the House of Usher" (A Queda da Casa de Usher) e "The Murders in the Rue Morgue" (Os Assassinatos da Rua Morgue), este último considerado o marco inicial da ficção de detetive. Sua carreira foi marcada por altos e baixos financeiros e pela luta contra o alcoolismo e a dependência.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Poe abrange poesia e prosa. Seus poemas, como "The Raven" (O Corvo) e "Annabel Lee", são conhecidos por sua musicalidade, melancolia e temas como a morte de uma bela mulher. Em sua prosa, Poe explorou o horror psicológico, o mistério e o raciocínio dedutivo. Seus contos de detetive estabeleceram as bases para o gênero, com um protagonista brilhante e um assistente narrador. O estilo de Poe é denso, com vocabulário rico e uma atmosfera carregada. Ele frequentemente utilizava simbolismo e alusões, criando um universo literário sombrio e introspectivo. Sua busca pela "unidade de efeito" em seus contos visava provocar uma única e intensa impressão no leitor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Poe viveu no século XIX, um período de grandes transformações nos Estados Unidos, incluindo a expansão territorial e debates sobre escravidão. Ele era um crítico ácido da sociedade literária de sua época, especialmente da revista "The Saturday Evening Post", e frequentemente se envolvia em polêmicas. Poe é frequentemente associado ao movimento Romântico Americano, mas seu estilo sombrio e sua exploração do gótico o distinguem de muitos de seus contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Poe foi profundamente marcada pela perda e pela instabilidade. O falecimento de sua esposa, Virginia Clemm, em 1847, devido à tuberculose, foi um golpe devastador que o afetou imensamente e se refletiu em sua obra. Seus relacionamentos, incluindo com a mãe adotiva, foram complexos e muitas vezes tensos. Poe lutou contra o alcoolismo e problemas financeiros ao longo de sua vida, o que contribuiu para um fim trágico e prematuro.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora Poe tenha sido uma figura reconhecida em seu tempo, especialmente por seus contos de detetive e poemas como "The Raven", seu legado se consolidou após sua morte. Foi um crítico literário influente, embora muitas vezes mordaz. A recepção de sua obra variou, com alguns admirando sua originalidade e outros criticando seu estilo sombrio. Hoje, é considerado um dos maiores escritores americanos e uma figura seminal na literatura de horror, mistério e ficção científica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Poe influenciou inúmeros escritores, tanto na literatura de horror (como H.P. Lovecraft) quanto no gênero de detetive (Arthur Conan Doyle). Seu conceito de "unidade de efeito" e sua técnica narrativa foram amplamente estudados. A exploração da psique humana e o uso de atmosferas sombrias continuam a ressoar na literatura e no cinema contemporâneos. Sua obra foi traduzida para diversas línguas, garantindo sua difusão internacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Poe tem sido objeto de inúmeras interpretações. Alguns veem em seus contos e poemas uma profunda reflexão sobre a mortalidade, a loucura e a fragilidade da mente humana. Outros exploram as influências do romantismo gótico e do transcendentalismo em sua escrita. Debates críticos frequentemente abordam a relação entre sua vida pessoal turbulenta e sua produção literária, e a natureza de seu gênio.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poe era conhecido por sua inteligência aguçada e por um certo dândismo em seu comportamento social. Sua relação com seu pai adotivo, John Allan, era notoriamente difícil, chegando a ponto de discussões públicas e cortes. Poe era um leitor ávido e um crítico literário temido, com opiniões fortes e muitas vezes impiedosas sobre seus contemporâneos. A causa exata de sua morte ainda é objeto de especulação, com teorias que vão de alcoolismo a raiva ou envenenamento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Edgar Allan Poe morreu em circunstâncias misteriosas em 10 de outubro de 1849, em Baltimore, Maryland. Foi encontrado em um estado de delírio, vestindo roupas que não eram suas. A causa de sua morte nunca foi definitivamente estabelecida. Sua memória perdura através de sua obra imortal, de estudos acadêmicos e de homenagens em locais como o cemitério de Westminster, em Baltimore, onde seu túmulo se tornou um local de peregrinação.