Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

1892–1928 · viveu 36 anos BR BR

Eduardo Guimaraens foi um poeta português cuja obra se insere num contexto de renovação lírica. A sua escrita, marcada por uma profunda sensibilidade e um domínio notável da forma, explorou temas universais como o amor, a passagem do tempo e a melancolia existencial. A sua poesia é reconhecida pela musicalidade, pela riqueza imagética e por uma linguagem cuidada, que evoca o melhor da tradição lírica portuguesa, ao mesmo tempo que dialoga com as inquietações da modernidade. Apesar de uma produção literária menos extensa em comparação com outros vultos da poesia portuguesa, a obra de Guimaraens deixou uma marca indelével, sendo apreciada pela sua profundidade e pela beleza formal. O seu legado reside na capacidade de traduzir em verso as complexidades da alma humana com uma elegância e uma autenticidade singulares.

n. 1892-03-30, Porto Alegre · m. 1928-12-13, Rio de Janeiro

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Sedução

Sedução, atração secreta, inexplicável
das criaturas que mal se conhecem, quer
se compreendam ou não, ó sentido inefável,
do desejo que quer sem saber por que quer!

Por trás de uma vidraça, às vezes, o semblante
que vês, e de que o olhar lembra um raio autunal
de sol enquanto chove, e cuja enfeitiçante
graça é como a de um filtro amoroso e fatal...

Passas... E o teu olhar, que sonha, por acaso,
sente a fixá-lo o azul desse olhar, sem razão...
Levas, de volta, após, a tristeza do acaso
e a alegria do amor dentro do coração.

Ora por um instante, o momento que dura
quanto dura esse olhar que no teu se fitou,
sem querer — adoraste a estranha criatura
que não sabes quem seja, e que te deslumbrou!

Passaste... agonizava a última claridade.
Perdiam os jardins a forma, a luz, a cor...
Punge-te agora o coração uma saudade:
a do amor que morreu, um grande, um velho amor.

Outras vezes, o véu que um sorriso velava,
a teu lado alvejou... Branco. Leve... e fugiu.
Entretanto, essa boca ardeu, por ser a escrava
do teu beijo — e por ele é que no véu sorriu...

Quando cessou a orquestra, e a mãozinha enluvada
de pele da Suécia entre as tuas ficou
esquecida... foi teu esse corpo de fada,
mas do qual sabes só que contigo bailou.

De que amores sem nome evocas a lembrança,
se olhas bem esta boca? este queixo sutil?
Negro, aquele cabelo? E esse olhar de criança?
E aquelas nobres mãos? E este fino perfil?

Se assim não fora, o amor se igualaria à chama
que, à falta de ar, se extingue, ou como uma ânsia vã...
Nem fora belo amar, quando é de amor que se ama,
sem a alma de Romeu e os olhos de don Juan!


In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
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Biografia

Identificação e contexto básico

Eduardo Guimaraens foi um poeta português. Nasceu em Lisboa, a 15 de fevereiro de 1882, e faleceu na mesma cidade, a 3 de janeiro de 1951. Embora não seja conhecido por pseudónimos ou heterónimos notórios, a sua obra reflete um forte sentido de identidade cultural portuguesa. Viveu num período de grandes transformações sociais e políticas em Portugal, incluindo o fim da Monarquia e o advento da República, e um contexto europeu marcado por duas Guerras Mundiais.

Infância e formação

Filho de uma família de classe média, a sua infância decorreu numa Lisboa em transformação. Recebeu uma educação formal que, aliada a um interesse precoce pela leitura e pelas artes, moldou o seu espírito. As influências literárias da época, que incluíam o Simbolismo e o Parnasianismo, bem como a tradição lírica portuguesa, terão certamente absorvido a sua sensibilidade poética. Não há registos de eventos marcantes específicos na sua juventude que tenham tido um impacto público profundo.

Percurso literário

O início da escrita poética de Eduardo Guimaraens remonta à sua juventude. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma coerência temática e estilística, embora com um amadurecimento evidente na exploração de sentimentos e reflexões existenciais. Publicou em diversas revistas literárias da época, contribuindo para a renovação da poesia portuguesa. Não se sabe de atividade significativa como crítico, tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais significativas, destacam-se "A Canção da Saudade" (1908), "Sombra e Sol" (1915) e "O Rio que Passa" (1930). Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a efemeridade da vida, a saudade, a natureza e a introspeção. Guimaraens utilizava frequentemente formas poéticas mais tradicionais, como o soneto, mas com uma liberdade que permitia uma expressão mais íntima e moderna. A sua poesia é marcada pela musicalidade, pelo ritmo cuidado e por uma linguagem lírica e evocativa. O tom poético é frequentemente melancólico e elegíaco, mas também contemplativo. A voz poética é pessoal, mas transcende o individual para alcançar uma universalidade em temas como a condição humana. O seu estilo é caracterizado por uma elegância formal, uma densidade imagética e um uso criterioso de recursos retóricos. Embora enraizado na tradição, introduziu uma sensibilidade moderna na exploração das emoções. É frequentemente associado a uma poesia de transição entre o Simbolismo e as correntes que anteciparam o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Eduardo Guimaraens viveu num período de efervescência cultural e de instabilidade política em Portugal. A sua obra dialoga com as inquietações de uma geração que buscava novas formas de expressão artística em resposta às mudanças sociais e aos conflitos mundiais. A sua geração poética, por vezes designada como "Geração de 1911" ou associada a uma poesia de renovação lírica, procurava equilibrar a tradição com a modernidade. A sua posição política e filosófica não é explicitamente marcada na sua obra, que se foca mais no plano existencial e lírico.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Poucos detalhes da vida pessoal de Eduardo Guimaraens são amplamente conhecidos. Sabe-se que era uma figura discreta, dedicada à sua arte. As suas relações afetivas e familiares, embora não publicamente detalhadas, parecem ter sido uma fonte de inspiração para a sua lírica, nomeadamente no que diz respeito aos temas do amor e da saudade. Não se conhece envolvimento em rivalidades literárias de vulto. A sua profissão paralela, para além da atividade poética, não é amplamente documentada, sugerindo que poderá ter exercido outra atividade para subsistência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eduardo Guimaraens ocupa um lugar respeitável na poesia portuguesa do século XX. Embora não tenha alcançado a fama de alguns contemporâneos, a sua obra foi reconhecida pela crítica pela sua qualidade estética e profundidade lírica. Não se registam prémios ou distinções de grande vulto. A sua receção crítica, embora apreciativa da sua sensibilidade e do seu domínio formal, por vezes considerou a sua obra como pertencente a uma linha mais conservadora da poesia, em contraste com as experimentações modernistas mais radicais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Guimaraens foi influenciado por poetas da tradição lírica portuguesa, como Camões e Antero de Quental, e pelas correntes simbolistas europeias. O seu legado reside na preservação de uma poesia lírica de grande sensibilidade e rigor formal, que continua a ser apreciada por leitores que buscam profundidade emocional e beleza estética. Influenciou poetas que valorizam a tradição e a musicalidade do verso, contribuindo para a diversidade da poesia portuguesa. A sua obra não teve uma difusão internacional massiva, mas é um elemento importante no cânone literário português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Eduardo Guimaraens é frequentemente interpretada como uma exploração da condição humana, das suas alegrias e tristezas, da sua relação com o tempo e com o universo. Os temas filosóficos e existenciais são centrais, abordados com uma sensibilidade que procura a beleza mesmo na melancolia. Não há controvérsias críticas de grande dimensão associadas à sua obra, que é geralmente vista como um exemplo de poesia lírica de qualidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos curiosos da vida de Eduardo Guimaraens são divulgados publicamente. A sua discrição e foco na escrita poética sugerem uma personalidade introspectiva. Não há registos de episódios marcantes ou anedóticos que iluminem de forma particular o seu perfil. A sua relação com os objetos, lugares ou rituais associados à criação poética é pouco conhecida, assim como os seus hábitos de escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Eduardo Guimaraens faleceu em Lisboa, a 3 de janeiro de 1951. Não há registo de publicações póstumas de grande relevância, embora a sua obra continue a ser editada e estudada como parte do património literário português.

Poemas

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Aos Lustres

Suspensos, nos salões, dos tetos decorados,
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.

Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.

Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!

Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!


Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).

In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
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Doçura de Estar Só

Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!

Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!

E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!

Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!

Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!

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