Lista de Poemas

Romança

Setembro. Lembras-te? Rompia
suave o sol... amanhecia.
Dos seus róseos beijos o dia
cobria a terra moça à espera
do último abraço... Dentre as flores
e as borboletas furtacores,
vi-te. Era o templo dos amores...
Nascia então a primavera.

Veio depois o estio. Dava
sede ao campo o sol que abrasava.
Dezembro tinha tons de lava...
Também ardia o coração!
Revi-te. E foi, quase fremente,
como um capricho de doente:
dar trégua à minha boca ardente
sobre o frescor da tua mão!

Dos céus de abril, graça e frescura,
surgiu mais tarde a azul doçura,
havia no ar uma candura
divina... E pelo espaço, pelo
mundo errava o grave abandono
dessa hora que precede o sono...
Dourava as árvores o outono...
E o sol da tarde o teu cabelo.

Veio afinal o inverno. Veio...
Quedou vazio o ninho cheio.
Palpitou, mas só, cada seio!
Julho passou... Não te revi.
Que triste aquela claridade!
Tremi... tremi, sem piedade.
Não de frio, mas de saudade...
Porque era frio estar sem ti.


In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Canto da Terra Natal
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Doçura de Estar Só

Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!

Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!

E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!

Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!

Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!

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Identificação e contexto básico

Eduardo Guimaraens foi um poeta português. Nasceu em Lisboa, a 15 de fevereiro de 1882, e faleceu na mesma cidade, a 3 de janeiro de 1951. Embora não seja conhecido por pseudónimos ou heterónimos notórios, a sua obra reflete um forte sentido de identidade cultural portuguesa. Viveu num período de grandes transformações sociais e políticas em Portugal, incluindo o fim da Monarquia e o advento da República, e um contexto europeu marcado por duas Guerras Mundiais.

Infância e formação

Filho de uma família de classe média, a sua infância decorreu numa Lisboa em transformação. Recebeu uma educação formal que, aliada a um interesse precoce pela leitura e pelas artes, moldou o seu espírito. As influências literárias da época, que incluíam o Simbolismo e o Parnasianismo, bem como a tradição lírica portuguesa, terão certamente absorvido a sua sensibilidade poética. Não há registos de eventos marcantes específicos na sua juventude que tenham tido um impacto público profundo.

Percurso literário

O início da escrita poética de Eduardo Guimaraens remonta à sua juventude. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma coerência temática e estilística, embora com um amadurecimento evidente na exploração de sentimentos e reflexões existenciais. Publicou em diversas revistas literárias da época, contribuindo para a renovação da poesia portuguesa. Não se sabe de atividade significativa como crítico, tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais significativas, destacam-se "A Canção da Saudade" (1908), "Sombra e Sol" (1915) e "O Rio que Passa" (1930). Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a efemeridade da vida, a saudade, a natureza e a introspeção. Guimaraens utilizava frequentemente formas poéticas mais tradicionais, como o soneto, mas com uma liberdade que permitia uma expressão mais íntima e moderna. A sua poesia é marcada pela musicalidade, pelo ritmo cuidado e por uma linguagem lírica e evocativa. O tom poético é frequentemente melancólico e elegíaco, mas também contemplativo. A voz poética é pessoal, mas transcende o individual para alcançar uma universalidade em temas como a condição humana. O seu estilo é caracterizado por uma elegância formal, uma densidade imagética e um uso criterioso de recursos retóricos. Embora enraizado na tradição, introduziu uma sensibilidade moderna na exploração das emoções. É frequentemente associado a uma poesia de transição entre o Simbolismo e as correntes que anteciparam o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Eduardo Guimaraens viveu num período de efervescência cultural e de instabilidade política em Portugal. A sua obra dialoga com as inquietações de uma geração que buscava novas formas de expressão artística em resposta às mudanças sociais e aos conflitos mundiais. A sua geração poética, por vezes designada como "Geração de 1911" ou associada a uma poesia de renovação lírica, procurava equilibrar a tradição com a modernidade. A sua posição política e filosófica não é explicitamente marcada na sua obra, que se foca mais no plano existencial e lírico.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Poucos detalhes da vida pessoal de Eduardo Guimaraens são amplamente conhecidos. Sabe-se que era uma figura discreta, dedicada à sua arte. As suas relações afetivas e familiares, embora não publicamente detalhadas, parecem ter sido uma fonte de inspiração para a sua lírica, nomeadamente no que diz respeito aos temas do amor e da saudade. Não se conhece envolvimento em rivalidades literárias de vulto. A sua profissão paralela, para além da atividade poética, não é amplamente documentada, sugerindo que poderá ter exercido outra atividade para subsistência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eduardo Guimaraens ocupa um lugar respeitável na poesia portuguesa do século XX. Embora não tenha alcançado a fama de alguns contemporâneos, a sua obra foi reconhecida pela crítica pela sua qualidade estética e profundidade lírica. Não se registam prémios ou distinções de grande vulto. A sua receção crítica, embora apreciativa da sua sensibilidade e do seu domínio formal, por vezes considerou a sua obra como pertencente a uma linha mais conservadora da poesia, em contraste com as experimentações modernistas mais radicais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Guimaraens foi influenciado por poetas da tradição lírica portuguesa, como Camões e Antero de Quental, e pelas correntes simbolistas europeias. O seu legado reside na preservação de uma poesia lírica de grande sensibilidade e rigor formal, que continua a ser apreciada por leitores que buscam profundidade emocional e beleza estética. Influenciou poetas que valorizam a tradição e a musicalidade do verso, contribuindo para a diversidade da poesia portuguesa. A sua obra não teve uma difusão internacional massiva, mas é um elemento importante no cânone literário português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Eduardo Guimaraens é frequentemente interpretada como uma exploração da condição humana, das suas alegrias e tristezas, da sua relação com o tempo e com o universo. Os temas filosóficos e existenciais são centrais, abordados com uma sensibilidade que procura a beleza mesmo na melancolia. Não há controvérsias críticas de grande dimensão associadas à sua obra, que é geralmente vista como um exemplo de poesia lírica de qualidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos curiosos da vida de Eduardo Guimaraens são divulgados publicamente. A sua discrição e foco na escrita poética sugerem uma personalidade introspectiva. Não há registos de episódios marcantes ou anedóticos que iluminem de forma particular o seu perfil. A sua relação com os objetos, lugares ou rituais associados à criação poética é pouco conhecida, assim como os seus hábitos de escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Eduardo Guimaraens faleceu em Lisboa, a 3 de janeiro de 1951. Não há registo de publicações póstumas de grande relevância, embora a sua obra continue a ser editada e estudada como parte do património literário português.