Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

1930–2016 · viveu 86 anos BR BR

José Ribamar Ferreira de Araújo da Costa, conhecido como Ferreira Gullar, foi um dos mais influentes poetas e intelectuais brasileiros. Sua obra abrange diversas fases, desde a poesia concretista até uma poesia mais existencial e reflexiva, sempre marcada por um profundo engajamento com a realidade social e humana. Gullar também se destacou como cronista, crítico de arte e ensaísta, deixando um legado multifacetado na cultura brasileira.

n. 1930-09-10, São Luís · m. 2016-12-04, Rio de Janeiro

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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

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na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ferreira Gullar, nome de batismo José Ribamar Ferreira de Araújo da Costa, foi um poeta, ensaísta, crítico de arte e memorialista brasileiro. Nasceu em São Luís, Maranhão, em 10 de setembro de 1933, e faleceu no Rio de Janeiro em 4 de dezembro de 2015. Sua obra é considerada um marco na literatura brasileira do século XX, atravessando diferentes movimentos e fases estéticas.

Infância e formação

Nascido em uma família de classe média baixa em São Luís, Gullar teve uma infância marcada por dificuldades econômicas, mas também por um ambiente de efervescência cultural. Iniciou seus estudos em colégios religiosos e, posteriormente, ingressou no curso de Direito, embora sua paixão pela literatura tenha sido predominante. Desde cedo, demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências diversas, incluindo a poesia brasileira e a literatura universal.

Percurso literário

O percurso literário de Ferreira Gullar começou na década de 1950, com a publicação de seu primeiro livro, "Prisma", em 1952. Ele se tornou um dos expoentes do Neoconcretismo, movimento que buscava romper com a rigidez do Concretismo, propondo uma arte mais participativa e voltada para a experiência humana. Ao longo de sua carreira, Gullar transitou por diversas fases, explorando a poesia social, a poesia existencial e a poesia de cunho mais lírico. Colaborou ativamente com jornais e revistas literárias, consolidando-se como um importante crítico de arte e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Gullar incluem "A Luta Corporal" (1954), "Prêmio Jabuti" (1959), "Poemas Teatrais" (1960), "João Ternura" (1970), "Poema Sujo" (1975) e "Muitas Vozes" (2005). Seus temas recorrentes abrangem o amor, a morte, o tempo, a busca por sentido, a identidade, a crítica social e a experiência humana. Seu estilo evoluiu de uma poesia mais experimental e visual para uma linguagem mais direta e profunda, com forte musicalidade e densidade imagética. Gullar foi um inovador na poesia brasileira, especialmente com sua contribuição para o Neoconcretismo e com a força expressiva de poemas como "Poema Sujo". Sua obra dialoga tanto com a tradição quanto com a modernidade, apresentando uma voz poética que é ao mesmo tempo pessoal e universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ferreira Gullar viveu em um período de intensas transformações políticas e sociais no Brasil, incluindo a ditadura militar, que o levou ao exílio. Sua obra reflete esse contexto, com poemas que abordam a repressão, a luta pela liberdade e a esperança por um futuro melhor. Ele integrou a Geração de 60 da poesia brasileira e manteve relações com diversos artistas e intelectuais de sua época, como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Sua posição política, inicialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro, marcou sua trajetória e influenciou sua produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ferreira Gullar teve uma vida pessoal marcada por seu ativismo político e por sua dedicação à arte e à literatura. Seu casamento com a arquiteta Lygia Bojunga e seus filhos tiveram um papel importante em sua vida. As experiências vividas durante a ditadura militar e o exílio também moldaram sua visão de mundo e sua obra. Ele era conhecido por sua inteligência aguçada, seu humor e sua generosidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ferreira Gullar é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Recebeu diversos prêmios, incluindo o Prêmio Camões em 2010, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. Sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos acadêmicos e é parte fundamental do cânone literário brasileiro. Sua poesia é popular tanto no meio acadêmico quanto entre leitores em geral.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Gullar foi influenciado por poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Pablo Neruda. Por sua vez, sua obra influenciou gerações de poetas brasileiros e latino-americanos, especialmente aqueles engajados com a poesia social e com a exploração das possibilidades da linguagem. Seu legado reside na força de sua poesia, na profundidade de suas reflexões e em seu compromisso com a arte como forma de intervenção social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ferreira Gullar tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a análise de seu engajamento social e político, a exploração das questões existenciais e a maestria com que lidou com a linguagem poética. As contradições entre o lirismo e o engajamento, a busca por um sentido em meio ao caos e a relação entre arte e vida são temas constantes em sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos sabem que Ferreira Gullar, além de poeta, foi um exímio crítico de arte, escrevendo textos fundamentais sobre o concretismo e o neoconcretismo. Sua paixão pela arte visual era tão intensa quanto sua paixão pela poesia. Ele também se dedicou à tradução e à escrita de livros infantis. Seus hábitos de escrita eram disciplinados, mas ele também era conhecido por sua espontaneidade e sua capacidade de improviso.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ferreira Gullar faleceu em 4 de dezembro de 2015, no Rio de Janeiro, aos 82 anos, devido a complicações de uma doença pulmonar. Sua morte gerou grande comoção nacional e reafirmou seu lugar de destaque na cultura brasileira. Publicações póstumas continuam a manter sua obra viva e a ampliar o conhecimento sobre sua trajetória e seu pensamento.

Poemas

16

Coito

Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode

e se fundem
no gozo

depois
desenfia-se de ti

a teu lado
na cama
recupero a minha forma usual

3 417

Lição de Um Gato Siamês

Só agora
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
3 450

Extravio

Onde começo,
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.

Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.

2 278

Infinito Silêncio

Houve
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas

antes da luz

a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente

esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.

3 862

Verde


                              verde   verde   verde

                              verde   verde   verde

                              verde   verde   verde   erva

2 180

Um sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

4 347

Citações

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15

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Comentários (1)

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Grande escritor e poeta... belo seu versos em partes de mim... jamais serás esquecido.