Filipa Leal é uma poeta portuguesa contemporânea, conhecida pela sua obra que explora a intimidade, a memória e a busca por um sentido na experiência humana. A sua poesia caracteriza-se por uma linguagem cuidada e por uma sensibilidade que transita entre o lirismo e a reflexão existencial. Através dos seus versos, aborda temas como a identidade, as relações e a passagem do tempo, com uma voz que é simultaneamente pessoal e universal.
n. 1979-01-01, Porto
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Os meus primeiros passos em volta
Amo devagar o poeta que tem um cão que tinha um marinheiro. Pergunto-me se o poeta terá cinco dedos de cada lado, como eu. Pergunto-me se o cão algum dia se fez ao mar, depois da morte do marinheiro. Pergunto-me se envelhecer é sair de casa com os olhos contentes de pão e açúcar e chegar atrasado, anos depois, ao fim. O luto, Herberto. (Não o luto do cão – o meu.) O luto em Lisboa ou no Porto, o luto em Israel ou na Palestina, o luto é igual, deve ser igual, na tua rua e na minha. Ouve, Herberto: era Dia Mundial da Poesia. Eu tinha ido ao cabeleireiro. Vesti-me de preto e calcei aqueles sapatos de tacão alto. Eu ia de cabelo esticado. Eu ia maquilhada e feliz. Ia de preto mas ia-me esquecendo da morte. (Aos 33 anos, eu ia imortal.) Quando o telefone tocou, como nos filmes, disseram-me que era urgente. Estava a vinte minutos de subir ao palco com o meu poema, mas era urgente. Estava a vinte minutos do fim da minha juventude, porque era urgente. O luto, Herberto. Tão urgente que só pode ser mentira, ou ficção, ou poesia. Todos tão vivos naquele dia. E ninguém há-de morrer se levamos sapatos de tacão. Não é possível tanta inabilidade para a corrida. Não é possível tanta falta de Mãe.
Se eu quisesse, Herberto, enlouquecia.
Por isso hoje venho apenas perguntar-te se o teu cão se fez ao mar. Diz-me que ele se fez ao mar.
(O poema tem passagens de poemas de Herberto Helder, dos livros Os Passos em Volta (“Cães, Marinheiros”; “Estilo”) e Ofício Cantante – Poesia Completa (“Aos amigos”, de «Lugar»; “Fonte”, de «A Colher na Boca»).
Filipa Leal é uma poeta portuguesa contemporânea. Embora o seu nome completo e datas de nascimento não sejam amplamente divulgados em fontes acessíveis, a sua obra escrita em português tem vindo a afirmar-se no panorama literário atual.
Infância e formação
Detalhes específicos sobre a infância e formação de Filipa Leal não são facilmente encontrados em fontes públicas. No entanto, a sua obra poética revela uma maturidade temática e uma profundidade de reflexão que sugerem um percurso de vida e leitura significativo.
Percurso literário
O percurso literário de Filipa Leal é marcado pela publicação de livros de poesia que lhe têm valido atenção e reconhecimento. A sua entrada no mundo literário e a sua evolução como poeta têm sido acompanhadas pela crítica e pelo público interessado em poesia contemporânea.
Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias
Entre as obras principais de Filipa Leal encontram-se 'A Casa das Estações' (2015), 'O Ano Mais Quente' (2018) e 'O Nosso Corpo é um Jardim' (2022). A sua poesia explora temas como a intimidade, a memória, a passagem do tempo, a natureza, o corpo e as relações humanas. O estilo de Filipa Leal é frequentemente marcado por um lirismo subtil, uma linguagem precisa e evocativa, e um tom reflexivo. Privilegia o verso livre e uma estrutura que favorece a exploração de sensações e pensamentos. A voz poética é, muitas vezes, pessoal e introspectiva, mas alcança uma dimensão universal ao tocar em emoções e experiências comuns.
Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico
Filipa Leal faz parte da nova geração de poetas portugueses que emergem num contexto de renovação literária. A sua obra dialoga com as inquietações da sociedade contemporânea, abordando a complexidade da vida moderna e a busca por significado.
Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal
Informações específicas sobre a vida pessoal de Filipa Leal não são detalhadas em fontes acessíveis. No entanto, a natureza íntima e confessional de alguns dos seus poemas sugere uma forte ligação entre a sua experiência de vida e a sua criação poética.
Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção
A poesia de Filipa Leal tem recebido uma receção positiva, sendo elogiada pela sua originalidade, pela beleza formal e pela profundidade dos temas abordados. A sua obra tem vindo a consolidar-se como uma referência na poesia portuguesa contemporânea.
Obra, estilo e características literárias
Influências e legado
O legado de Filipa Leal assenta na sua capacidade de criar uma poesia que é simultaneamente delicada e poderosa, oferecendo um olhar sensível sobre a experiência humana. A sua obra contribui para a vitalidade e diversidade da poesia escrita em português.
Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica
A obra de Filipa Leal convida a múltiplas interpretações, centradas na exploração da identidade, na relação com o tempo e na busca por um espaço de serenidade ou compreensão num mundo em constante mudança. A sua poesia é frequentemente associada a uma abordagem contemplativa e humanista.
Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos
A forma como a poesia de Filipa Leal consegue captar a efemeridade dos momentos e transformá-la em reflexão duradoura é um dos aspetos que a torna singular.
Obra, estilo e características literárias
Morte e memória
Até ao momento, não há registos de morte para Filipa Leal, indicando que a sua carreira literária está em curso.
Poemas
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Os meus primeiros passos em volta
Amo devagar o poeta que tem um cão que tinha um marinheiro. Pergunto-me se o poeta terá cinco dedos de cada lado, como eu. Pergunto-me se o cão algum dia se fez ao mar, depois da morte do marinheiro. Pergunto-me se envelhecer é sair de casa com os olhos contentes de pão e açúcar e chegar atrasado, anos depois, ao fim. O luto, Herberto. (Não o luto do cão – o meu.) O luto em Lisboa ou no Porto, o luto em Israel ou na Palestina, o luto é igual, deve ser igual, na tua rua e na minha. Ouve, Herberto: era Dia Mundial da Poesia. Eu tinha ido ao cabeleireiro. Vesti-me de preto e calcei aqueles sapatos de tacão alto. Eu ia de cabelo esticado. Eu ia maquilhada e feliz. Ia de preto mas ia-me esquecendo da morte. (Aos 33 anos, eu ia imortal.) Quando o telefone tocou, como nos filmes, disseram-me que era urgente. Estava a vinte minutos de subir ao palco com o meu poema, mas era urgente. Estava a vinte minutos do fim da minha juventude, porque era urgente. O luto, Herberto. Tão urgente que só pode ser mentira, ou ficção, ou poesia. Todos tão vivos naquele dia. E ninguém há-de morrer se levamos sapatos de tacão. Não é possível tanta inabilidade para a corrida. Não é possível tanta falta de Mãe.
Se eu quisesse, Herberto, enlouquecia.
Por isso hoje venho apenas perguntar-te se o teu cão se fez ao mar. Diz-me que ele se fez ao mar.
(O poema tem passagens de poemas de Herberto Helder, dos livros Os Passos em Volta (“Cães, Marinheiros”; “Estilo”) e Ofício Cantante – Poesia Completa (“Aos amigos”, de «Lugar»; “Fonte”, de «A Colher na Boca»).
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Europa
Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste? É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar. Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade. Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno, nem sequer contra o insólito, contra o desespero. Tu disparas contra a luz. Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas. Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira. Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz. Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar. Há tantos meses que não chove – reparaste? A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir. Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa. Quem deve. Quem empresta. Quem paga. Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro. Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer. Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos. Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto, nós não queremos disparar.
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No fundo dos relógios
Demoro-me neste país indeciso que ainda procura o amor no fundo dos relógios, que se abre como se abrisse os poros solitários para que neles caiam ossos, vidros, pão. Demoro-me no ventre desta cidade que nenhum navio abandonou porque lhe faltou a água para a partida, como por vezes desaparece a estrada que nos conduz aos lugares e ali temos que ficar.
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Nos dias tristes não se fala de aves
Nos dias tristes não se fala de aves. Liga-se aos amigos e eles não estão e depois pede-se lume na rua como quem pede um coração novinho em folha.
Nos dias tristes é Inverno e anda-se ao frio de cigarro na mão a queimar o vento e diz-se - bom dia! às pessoas que passam depois de já terem passado e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho e há sempre uma ave que pousa no cimo das coisas em vez de nos pousar no coração e não fala connosco.
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Vem à quinta-feira.
É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro -sei que isto não está fácil podemos ir a Guimarāes assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à quinta-feira.
A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego, e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare de acabar tão depressa.
Vem à quinta-feira. Mas não venhas nesta, vem na próxima. Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso profissional sabes que isto não está fácil talvez nos dê hipótese de imos a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo para arranjar o cabelo, para arranjar o coração, para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.
Vem à quinta-feira e não te demores. Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista (sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo) e afinal o que me falta fazer contigo não é caro: --- viajar de autocaravana, --- dançar na Estrada Nacional, --- ver-te chorar. Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes. Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da índia, as fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona. Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana. Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro. Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor --- Ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto para fazer. Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.
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A divisão do frango
Alguns ficaram com as minhas partes piores. Isto é como a divisão do frango em família numerosa. Faltam coxas para todos. Isto é como a aprendizagem da generosidade: o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa, fazíamos de conta que preferíamos outra coisa e dávamos as partes melhores aos irmãos. Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre uns dos outros as partes melhores. Parece-me justo e valioso. Parece-me informação digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos. Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia: "dava a parte melhor do frango aos seus irmãos".
E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango quando há coxas para todos: para dois. Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir. Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.
Alguns ficaram com as minhas partes piores. Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango. Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam. Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora. Um dia, nunca mais me quiseram ver.
Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me. Apenas eles ficaram para lá da refeição.
Não quero com isto justificar-me. Entendo. Parti bem o frango mas parti sempre mal.
Só que às vezes lamento ninguém ter esperado que eu crescesse. É natural. Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.
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O círculo temporário
I. Na cidade não se falava de amor mas eu amava e resistia à cidade porque falava de amor.
II. Uns viviam em ruas com nome de escultor, outros viviam em ruas com nome de pintor, muito poucos viviam em ruas com nome de gente.
III. Na cidade tudo era circular: terminava no mesmo ponto em que começava. Redondos, inúteis, sobrevivíamos como as montanha lá ao fundo.
369
A primeira ave
Há um homem que atravessa a rua. Leva sacos às costas, cordas que interrompem a noite de outros homens que passam. São negros, mas rebentam a noite de outros pesos, desfaz-se o corpo leve dos que não regressam.
O homem diz: – É noite na cidade de onde venho. São negros os sacos do homem, pensam os outros. É noite na cidade onde chegas, poderiam pensar. De onde vens? A cidade está presa nas palavras.
Há uma rua atravessada pelo homem que diz: – A cidade somos nós. E há os que náo se transportam no dia, os que não chegam de noite à noite de outros. Os que não se quebram na cidade partida. Os que dizem: A cidade está presa na memória.
Há no entanto uma cidade no início: sem rua e sem noite ponderada Sem costas. Que no lugar da torre, tem uma cratera, que no lugar do caminho, tem um poço sem espelho. Sem água. Que no lugar do relógio, tem o sol. Que no lugar do homem, tem a primeira ave. É uma cidade onde ninguém diz a verdade: A cidade está presa.
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Entrevista de emprego
Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um aspecto impeditivo, prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamento profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim, e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas, e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com respeito, o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas certas, desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor, e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão, sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas, sim, mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente pensei que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da palavra língua, sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres, podia soar a sedução, na verdade só procurava saber se o senhor era machista, desculpe, fui indelicada, sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das notícias que não vêm nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há algumas bem cruéis, não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos pés da câmara, não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse cama podia voltar a baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum interesse em si, tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse aspecto no currículo, não pensei que escrever poemas fosse uma condenação curricular, mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor não há-de precisar de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu horas a frio, não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo adequado a este diálogo, e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu tempo, desculpe, desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever, desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.
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Na fágil timidez de aves de papel
Na fágil timidez de aves de papel, balouçando, morrendo a cada queda, porque houve asas enrugadas, e um desespero de salitre e ervas aromáticas. E rasgámos as palavras, arquivámos o voo como se crescêssemos, ou tivesse amanhecido devagar.