Lista de Poemas
Nocturno para Varsóvia
Gostava de te convidar para minha casa,
como aos amigos nos velhos tempos.
Abria uma garrafa de vinho e contava-te de quando era pequeno
e tu contavas-me como te corre o emprego, o amor.
Vemo-nos todos os dias e falamos tão pouco.
Estendo-te a mão e às vezes dás-me uma moeda,
mas falamos tão pouco.
Gostava de te convidar para minha casa
mas não tenho casa, vai ter de ficar para a próxima.
O princípio do amor
As pessoas ordenavam-se mal.
Ordenavam mal
o princípio do amor, da cidade.
Faziam filas (e filhos) à porta.
Ordenavam-se talvez
como quem conhece o trajecto
para casa.
Sonâmbulas, repetidas:
ordenavam, ordenavam.
Algumas enlouqueciam
pacientemente à porta,
antes de entrar.
Entende: ordenavam-se
tão sem desordem
nessa espera
que algumas morriam
imediatamente à porta
logo que entravam.
A cidade esquecida
Para o António
Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.
Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.
Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.
Ele disse: Sou um rio exacto.
Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.
Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.
De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele riu.
A primeira ave
Há um homem que atravessa a rua. Leva sacos às costas, cordas
que interrompem a noite de outros homens que passam.
São negros, mas rebentam a noite de outros pesos,
desfaz-se o corpo leve dos que não regressam.
O homem diz: – É noite na cidade de onde venho.
São negros os sacos do homem, pensam os outros.
É noite na cidade onde chegas, poderiam pensar.
De onde vens?
A cidade está presa nas palavras.
Há uma rua atravessada pelo homem que diz: – A cidade somos nós.
E há os que náo se transportam no dia, os que não chegam de noite
à noite de outros. Os que não se quebram na cidade partida.
Os que dizem:
A cidade está presa na memória.
Há no entanto uma cidade no início: sem rua e sem noite ponderada
Sem costas. Que no lugar da torre, tem uma cratera,
que no lugar do caminho, tem um poço sem espelho.
Sem água. Que no lugar do relógio, tem o sol.
Que no lugar do homem, tem a primeira ave.
É uma cidade onde ninguém diz a verdade:
A cidade está presa.
Vem à quinta-feira.
É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro -sei que isto não está fácil podemos ir a Guimarāes
assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à quinta-feira.
A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.
Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso
profissional sabes que isto não está fácil talvez nos dê hipótese de imos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.
Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
--- viajar de autocaravana,
--- dançar na Estrada Nacional,
--- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da índia, as
fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube
como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor
--- Ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.
São João
Lembro-me que o Miguel saiu com o manjerico
debaixo do braço.
O manjerico pertencia ao restaurante Batalha,
como os cães pertencem aos seus donos
e os humanos aos seus amantes.
O Miguel roubou o manjerico, é certo,
mas o dono do restaurante devia ter estado mais atento.
O dono do restaurante já devia ter idade para saber amar
as suas plantas.
Na fágil timidez de aves de papel
Na fágil timidez de aves de papel,
balouçando, morrendo a cada queda,
porque houve asas enrugadas,
e um desespero de salitre e ervas aromáticas.
E rasgámos as palavras,
arquivámos o voo como se crescêssemos,
ou tivesse amanhecido devagar.
O círculo temporário
I.
Na cidade não se falava de amor
mas eu amava
e resistia à cidade
porque falava de amor.
II.
Uns viviam em ruas com nome
de escultor,
outros viviam em ruas com nome
de pintor,
muito poucos viviam em ruas com nome
de gente.
III.
Na cidade tudo era circular:
terminava no mesmo ponto
em que começava.
Redondos, inúteis,
sobrevivíamos
como as montanha lá ao fundo.
Comentários (2)
Gostei de todos!
Beleza de texto poético... bem fico a te lembrar que a data do poema que fiz para ti é 23.06.24 , uma singela homenagem. abraços Ademir.
FILIPA LEAL
Nos Dias Tristes Não Se Fala De Aves | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
#LerDoceLer | Filipa Leal
Dia Mundial da Poesia: Filipa Leal lê Mario Benedetti
Ode Louca | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
No Murmúrio Apagado | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
"Os Poetas não Servem para Nada" de Filipa Leal - Filomena Cautela - 5 para a Meia-Noite
#LaPoesíaEsNuestraCasa - Filipa Leal lee un poema de Adília Lopes
Se Ao Menos A Morte Tivesse Revistas| Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
Filipa Leal :: O quadro do futuro
A Recusa Do Amor | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
Dia Mundial da Poesia: Filipa Leal lê Adélia Prado
FILIPA LEAL LÊ POEMA LA CIUDAD OLVIDADA
A NOITE INÉDITA - FILIPA LEAL
FILIPA LEAL CONVERSA COM RAQUEL MARINHO
Vem À Quinta Feira | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
CHARLA| Filipa Leal y Mafalda Veiga conversan con Juan Vicente Piqueras
Filipa Leal | Autores que nos unem
DIA MUNDIAL DA POESIA: FILIPA LEAL
PORTUGAL, Alexandre O'Neill - Filipa Leal
FILIPA LEAL LÊ O POEMA EN LOS DIAS TRISTES NO SE ABLA DE AVES
FILIPA LEAL LÊ ADÍLIA LOPES
José Gomes Ferreira - Viver sempre também cansa! (lido por Filipa Leal)
FILIPA LEAL DIRIGE-SE AOS LEITORES MEXICANOS
Filipa Leal, Adília Lopes Lopes
Quase Um Poema De Amor | Poema de Filipa Leal com narração de Mundo Dos Poemas
Filipa Leal #memoriasparaguardar
"O sentido da vida é só cantar" | Filipa Leal
"EUROPA, segunda carta" de filipa leal
Prólogo: O Quadro do Futuro, de Filipa Leal
Filipa Leal - Loch Ness
Filipa Leal - Verbetes A Europa Face à Europa
Dia Mundial da Poesia: Filipa Leal lê Carlos Drummond de Andrade
3º Ciclo Masterclass 'O Enigma Sophia' - # 02 'Sophia foi enigmática?' com Filipa Leal
Dia Mundial da Poesia: Filipa Leal lê Ana Cristina Cesar
Clarice Lispector por Filipa Leal
Interlúdios - Série de Entrevistas do Viver o Porto | Filipa Leal | Ep.06
Filipa Leal - Wembley Park
Filipa Leal e Raquel Marinho (risos) : "O Poema Ensina a Cair" - Expresso Diário 2014
Filipa Leal - "Pelos Leitores de Poesia"
Porto de Encontro - Filipa Leal, 23/03/19
Dia Mundial da Poesia: Filipa Leal lê Alejandra Pizarnik
"Os que viam" de filipa leal
Loch Ness - Filipa Leal
ESCREVIA À MÃO A CIDADE - Poesia de Filipa Leal
MULHERES ASSIM, série de TV criada por Filipa Leal (2016) – promo
“A Recusa do Amor” de Filipa Leal in Este poema não é meu – Fevereiro de 2021 - Mês do Amor
Curtas Poéticas | O futuro – Filipa Leal
Filipa Leal - Consejos para entrar en los cuarenta
Recital poético con Yolanda Castaño y Filipa Leal