Lista de Poemas

O leitor de poesia não é menos leitor

O leitor de poesia não é menos leitor
do que o leitor de romance.
O leitor de poesia não é menos
culto do que o leitor de romance.
Ser leitor de poesia não é um
defeito.
Ser leitor de poesia não é ter lido
menos.
A literatura não é um concurso
de palavras.
A literatura não se faz com
fita métrica.
Não obriguem o leitor de poesia
a ler o que não quer. A não ser que
se comprometam a ler poesia também.
E nem assim.
O leitor de poesia tem o direito
de não ler os romances na integra,
como o leitor de romance lê um
poema aqui, outro ali.
O leitor de poesia tem o direito
de só ter lido Tolstoi. Ou Thomas
Mann. Ou Clarice Lispector. Ou
Philiph Roth. Ou nenhum deles.
O leitor de poesia tem o direito
de não conhecer as novidades.
A poesia também é literatura

671

A cidade líquida

A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum
lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água.
Como sobreviver a uma cidade líquida?

(Eu tentava sustentar-me como um barco.)

As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios,
os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na
soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os
marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a
entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em
plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os
lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A
cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras
cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.
Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam
aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e
de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior
das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram
soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade
líquida.

(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

712

Hoje, também os carros dançam

Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que
mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei
de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu – que mudei de computador
e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei
de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu – que
mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de planos, de lençóis,
de secretária... Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô,
de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de tudo que em quase nada
mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

684

O peso dos livros

Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.

Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.

E um hálito branco a querer ser página.

588

Estátua da liberdade

E ali estava - nós a atravessarmos de barco
a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho,
a mãe de óculos e écharpe, a Marta que em breve seria mãe também
mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro,
o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não doessem
de tantas avenidas, e o João Pedro, tão recém-casado, tão recém-feliz,
tão quase pai também sem o saber;
nós ao sol, de costas para ela, de frente uns para os outros, pressentindo
que Nova Iorque só interessaria por ali termos estado muito juntos,
e que na passagem dos anos apenas isso importaria, apenas isso:
termos ali estado distraídos, sentadíssimos, confortáveis
como os nossos corações.

E de repente ali estava ela a imitar os montes, de um verde indecifrável,
ali estava a imitar os homens invadidos, pesada, com picos na cabeça,
de braço esticado a tentar a luz, de livro pendurado,
ali estava séria, muda, quieta,
toda feita de pausa como um susto, como se jogássemos mímica,
como se a seguir nos pregasse uma partida, um grito,
e desfizesse a pose e risse de boca muito aberta à brincadeira,
livre então dos curiosos que empunhavam câmaras como se vê-la
assim, parada e incapaz, fosse espectáculo digno de registo.

Nós a chegarmos à ilha, a desembarcarmos do alheamento,
nós do tamanho familiar, todos de cabeça ao alto na inacessível sombra,
nós a rirmos das pessoas que lhe descobríamos na cabeça,
eles literalmente à varanda da cabeça, os visitantes,
ignorando que um futuro dia de Setembro inibiria aquela subida aos céus.

E ali estava ela de nariz empinado, recusando o gesto de anfitriã:

alta e ofendida
estátua
que era preciso limpar.

641

A recusa do amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.

655

Teve nessa tarde uma criança

Teve nessa tarde uma criança
desconhecida a segurar-lhe na mão.
Uma criança agarrada com força, uma criança
que apanhou em flagrante a sua mão vazia
e a ocupou como território de criança.
O dia começara assim: primeiro o rio, depois o verde
no terreno da família, agora o mar.
Foi na terceira tentativa que encontrou a criança,
criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo
o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia
rimado: criança rima com esperança, criança rima.
E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis,
tão sem a criança anterior. Foi na terceira caminhada,
quando a incerteza parecia cada vez maior, quando
o pensamento não acompanhava o passo decidido
junto à marginal, quando o pai da criança lhe falou
no perigo de dar a mão a estranhos, sem entender que
o verdadeiro perigo
era a mão outra vez vazia de criança.

570

Manual de despedida para mulheres sensíveis

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

726

O primeiro homem

Era um homem viciado na luz
As mulheres que diziam "o homem, o homem"
levantavam-se ou levantavam os olhos
ofuscados e repetiam o homem
e apontavam confusas para dentro do olhar
do homem.
O homem achava estranho que elas
dissessem apenas isso: "o homem"
e um dia disfarçou-se de mulher
para se esconder da luz.

Da primeira solidão do homem
ninguém falou.
Ninguém repetiu
a primeira solidão do homem.
 

180

Se ao menos a morte

Ela morria tantas vezes
em tiroteios à porta de casa
que já não sabia morrer para sempre
assim
de uma só vez.
Se ao menos marcasse um dia
para a morte, uma hora certa
como no dentista
que apesar de tudo nos faz esperar
onde apesar de tudo
não sabemos quando será a nossa vez.
Se ao menos a morte tivesse revistas
e gente na sala de espera
não estaríamos tão sós
tão vivos nessa ideia final
nesse desconforto.
Poríamos o nome na lista
quando estivéssemos prontos
sabendo que seria fácil desmarcar
marcar para outro dia
ou simplesmente
não comparecer.
Depois, ficaríamos com a dor,
com o terror
de passar sequer naquela rua
como ela à porta de casa.
Ela que morria tantas vezes
porque morria de medo de morrer.

579

Comentários (2)

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Raquel (do Brasil), embora isso não importe.
Raquel (do Brasil), embora isso não importe.

Gostei de todos!

Beleza de texto poético... bem fico a te lembrar que a data do poema que fiz para ti é 23.06.24 , uma singela homenagem. abraços Ademir.

Identificação e contexto básico

Filipa Leal é uma poeta portuguesa contemporânea. Embora o seu nome completo e datas de nascimento não sejam amplamente divulgados em fontes acessíveis, a sua obra escrita em português tem vindo a afirmar-se no panorama literário atual.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a infância e formação de Filipa Leal não são facilmente encontrados em fontes públicas. No entanto, a sua obra poética revela uma maturidade temática e uma profundidade de reflexão que sugerem um percurso de vida e leitura significativo.

Percurso literário

O percurso literário de Filipa Leal é marcado pela publicação de livros de poesia que lhe têm valido atenção e reconhecimento. A sua entrada no mundo literário e a sua evolução como poeta têm sido acompanhadas pela crítica e pelo público interessado em poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as obras principais de Filipa Leal encontram-se 'A Casa das Estações' (2015), 'O Ano Mais Quente' (2018) e 'O Nosso Corpo é um Jardim' (2022). A sua poesia explora temas como a intimidade, a memória, a passagem do tempo, a natureza, o corpo e as relações humanas. O estilo de Filipa Leal é frequentemente marcado por um lirismo subtil, uma linguagem precisa e evocativa, e um tom reflexivo. Privilegia o verso livre e uma estrutura que favorece a exploração de sensações e pensamentos. A voz poética é, muitas vezes, pessoal e introspectiva, mas alcança uma dimensão universal ao tocar em emoções e experiências comuns.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Filipa Leal faz parte da nova geração de poetas portugueses que emergem num contexto de renovação literária. A sua obra dialoga com as inquietações da sociedade contemporânea, abordando a complexidade da vida moderna e a busca por significado.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Filipa Leal não são detalhadas em fontes acessíveis. No entanto, a natureza íntima e confessional de alguns dos seus poemas sugere uma forte ligação entre a sua experiência de vida e a sua criação poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Filipa Leal tem recebido uma receção positiva, sendo elogiada pela sua originalidade, pela beleza formal e pela profundidade dos temas abordados. A sua obra tem vindo a consolidar-se como uma referência na poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Filipa Leal assenta na sua capacidade de criar uma poesia que é simultaneamente delicada e poderosa, oferecendo um olhar sensível sobre a experiência humana. A sua obra contribui para a vitalidade e diversidade da poesia escrita em português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Filipa Leal convida a múltiplas interpretações, centradas na exploração da identidade, na relação com o tempo e na busca por um espaço de serenidade ou compreensão num mundo em constante mudança. A sua poesia é frequentemente associada a uma abordagem contemplativa e humanista.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A forma como a poesia de Filipa Leal consegue captar a efemeridade dos momentos e transformá-la em reflexão duradoura é um dos aspetos que a torna singular.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, não há registos de morte para Filipa Leal, indicando que a sua carreira literária está em curso.