Lista de Poemas

A divisão do frango

Alguns ficaram com as minhas partes
piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
"dava a parte melhor do frango aos seus irmãos".

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com as minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.
 

734

O problema de ser norte

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que

um
raro
silêncio ainda

me interrompa?

908

Vale Formoso

No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.
 

810

Do medo em diante

Trazia a novidade de não ter medo
de descer a rua e atravessar a sombra
dos prédios atirada como arma
de granito, como festejo de civilização.

Perdera subitamente o medo do seu século,
do século que se vivia naquela rua
onde alguns se morriam à injecção,
do século das luzes dos seus vizinhos
a apagarem se ao mesmo tempo
sem nunca terem trocado nada que não
essa distância de garagem, essa coincidência
dos horários civilizacionais.

Trazia a consciência de ser europeia
(África doera-lhe nos olhos como holofotes)
e de não querer escrever sobre esse assunto.
Mas não ter medo de descer aquela rua,
não ter medo de apagar sozinha a luz àquela hora,
não ter medo de nunca estacionar o carro na garagem
e de estar por isso sempre mais só do que os vizinhos,

pensava,

era suficientemente novo
para o poema.

487

Entrevista de emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse um aspecto impeditivo,
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas, sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres, podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista, desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.

587

SMS

Porto. 20h. Ninguém canta.

752

A nossa aldeia

Era uma aldeia sem luz
directa. Uma aldeia de paredes
amarelas cujos habitantes reagiam
à sombra das palavras e as mediam
(de que tamanho o verbo?),
lavavam, preparavam para os outros.
Era uma aldeia onde se decidia a palavra
do dia seguinte, a ideia do dia seguinte,
a vida e a morte do dia seguinte.
Era uma aldeia com um plano:
o plano era simples: o plano era concreto:
o plano era difícil como a luz.
Era uma aldeia interdita na possibilidade
do sol mas tão plena de esforço na linguagem.
Era uma aldeia cujos habitantes só poderiam
comprar uma aldeia com janelas, uma aldeia
cor de mundo, se os outros habitantes,
os que estavam lá fora, lessem realmente
as palavras que eles para eles preparavam.
Era, apesar de tudo, uma velha aldeia
sem ressentimentos.
Porque a nossa aldeia era única.
Era a única aldeia no centro
da cidade.

154

Ode louca

Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.

572

Eva abriu a arca

Eva abriu a arca, dela retirou o pó e a serpente em forma do coração. A nudez de todas as coisas começou a assombrá-la. Percorria a pele com aquela forma indefinida. Colocou-a sobre a árvore como se a coroasse. Depois sentou-se, e chorou.  Sentia um profundo cansaço. Não dormira durante muitos dias, porque quisera estar atenta. Tão atenta. Agora não sabia descansar. Não sabia corno ocupar o espaço. Não havia, em suma, um lugar que não fosse dessa árvore que se tornara branca como as paredes e as maçãs agora apodrecidas a urn canto, gastas.
 

646

Vale Formoso II

Apareceu para jantar no Vale Formoso um pianista.
O pianista trazia a mulher pianista, o filho
que preferia jogar às cartas, e um grande saco de maçãs.

À refeição, servida no alpendre, contou que vivia no campo
e que procurava em Lisboa uma casa onde coubesse
com a sua mulher, o filho de ambos, e três pianos.

Fiquei preocupada com a família do pianista
— eram três —
e com a família de pianos
— eram três —
e pareceu-me melhor avisá-los de que seria difícil encontrar uma casa onde coubesse tudo aquilo
e a macieira.

 

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Comentários (2)

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Raquel (do Brasil), embora isso não importe.
Raquel (do Brasil), embora isso não importe.

Gostei de todos!

Beleza de texto poético... bem fico a te lembrar que a data do poema que fiz para ti é 23.06.24 , uma singela homenagem. abraços Ademir.

Identificação e contexto básico

Filipa Leal é uma poeta portuguesa contemporânea. Embora o seu nome completo e datas de nascimento não sejam amplamente divulgados em fontes acessíveis, a sua obra escrita em português tem vindo a afirmar-se no panorama literário atual.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a infância e formação de Filipa Leal não são facilmente encontrados em fontes públicas. No entanto, a sua obra poética revela uma maturidade temática e uma profundidade de reflexão que sugerem um percurso de vida e leitura significativo.

Percurso literário

O percurso literário de Filipa Leal é marcado pela publicação de livros de poesia que lhe têm valido atenção e reconhecimento. A sua entrada no mundo literário e a sua evolução como poeta têm sido acompanhadas pela crítica e pelo público interessado em poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as obras principais de Filipa Leal encontram-se 'A Casa das Estações' (2015), 'O Ano Mais Quente' (2018) e 'O Nosso Corpo é um Jardim' (2022). A sua poesia explora temas como a intimidade, a memória, a passagem do tempo, a natureza, o corpo e as relações humanas. O estilo de Filipa Leal é frequentemente marcado por um lirismo subtil, uma linguagem precisa e evocativa, e um tom reflexivo. Privilegia o verso livre e uma estrutura que favorece a exploração de sensações e pensamentos. A voz poética é, muitas vezes, pessoal e introspectiva, mas alcança uma dimensão universal ao tocar em emoções e experiências comuns.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Filipa Leal faz parte da nova geração de poetas portugueses que emergem num contexto de renovação literária. A sua obra dialoga com as inquietações da sociedade contemporânea, abordando a complexidade da vida moderna e a busca por significado.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Filipa Leal não são detalhadas em fontes acessíveis. No entanto, a natureza íntima e confessional de alguns dos seus poemas sugere uma forte ligação entre a sua experiência de vida e a sua criação poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Filipa Leal tem recebido uma receção positiva, sendo elogiada pela sua originalidade, pela beleza formal e pela profundidade dos temas abordados. A sua obra tem vindo a consolidar-se como uma referência na poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Filipa Leal assenta na sua capacidade de criar uma poesia que é simultaneamente delicada e poderosa, oferecendo um olhar sensível sobre a experiência humana. A sua obra contribui para a vitalidade e diversidade da poesia escrita em português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Filipa Leal convida a múltiplas interpretações, centradas na exploração da identidade, na relação com o tempo e na busca por um espaço de serenidade ou compreensão num mundo em constante mudança. A sua poesia é frequentemente associada a uma abordagem contemplativa e humanista.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A forma como a poesia de Filipa Leal consegue captar a efemeridade dos momentos e transformá-la em reflexão duradoura é um dos aspetos que a torna singular.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, não há registos de morte para Filipa Leal, indicando que a sua carreira literária está em curso.