Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
Da balança das águas venho de joelhos
Da balança das águas venho de joelhos
— aeroporto de Caracas —
ego sacerdos — vou me preparando para os ritos:
boa noite, Bolivar,
boa noite, Simón, — Simón Rodriguez
brincando de roda entre as crianças
e duty free e Hilton e Tropical Hotel — e vou
me preparando para
a tática dos ritos o luxo das rubricas litúrgicas
pois à volta das águas
dançam em roda as ruas degoladas e algumas pessoas
constroem o incidente da viagem — indo ou vindo
ou não seguindo mais — e a cabeça
de Balboa busca debalde
talvez os Hiperbóreos — decerto
uma terra e um mar e a terra
e o mar já não são mais entre o canal e a selva
do que o gosto do sal em sua língua
ao sol do Panamá:
resta o gosto do sal na boca
de Balboa e Malpartida e os outros
e vós sois pescadores de peixe e terras e homens
o sal da terra
quodsi sal evanuerit in quo salietur?
Por isso o olfato o paladar os olhos
e um aroma e um sabor e um rastro:
e é dado o signo
e habitamos o semáforo — por isso agora
boa noite, Guatemala — e ali
poderiam pescar-me o coração no rio
de teus cabelos, Antonieta Ovalle, o coração
neste bosque
neste bosque moram terras
mora a terra que roubou meu coração
e repito as pessoas e os lugares que encontro
e aprendi uns seios verdes em Honduras
e ao sol de Dirianbo amadureciam sobre a Nicarágua
as ancas magníficas — pois falo da viagem,
suas pousadas, o itinerário
pedestre
eqüestre
sigo os sinais do trânsito — passeio
passeia Pilar Morelos seu passeio de poldra
pela Avenida Juarez
e alí emprenharei a neta
de Hernán Cortez e a bisneta
de Cuauhtémoc em um leito de rosas
e sou — ego poeta
o guia do turismo o trotador do mundo
no avião da Braniff onde Doris
e no aeroporto de San Antonio — Texas
e em Dallas, Texas, os soldados
negros e ruivos
vão me encontrar erecto e brônzeo —
pois preparo a estratégia da morte
as manobras da vida
o estratagema da beleza
os ritos de Stepterion
— "Na bagagem? "
um coração embrulhado
numa carta de amor
e dois braços de abraçar
e dois lábios de beijar
e Abdias entoado
à canela e ao cravo
e às margaridas de Iemanjá do Nascimento.
E agora
a serpente no ninho de meus olhos
já sou eu mesmo a minha própria bússola
meu próprio ardil
e de tua rosa
brota o vento por onde
chega o chegador à laranja de ouro — chega
ao bote da serpente à seta desferida
chega ao bosque ao mármore
à mão da tecelã e ao fio e à flauta
e ao silêncio e ao canto
e ao beija-flor e ao assobio
e à salamandra e à estrela e ao encontro
da flecha e da serpente e à luz
à luz
Eleu
Eleu
Eleu
theria
Apó
Apol
Apolon
Fototrephos Fotophagos Fotopaidos Febo Apolo
puxam-te o carro de fogo
os capricórnios de fogo
e venho nele ao teu banquete
onde as nove meninas
em conchas de labaredas
servem lagostas de fogo
e verdes folhas de flamas
ego poeta — o diábolos sonoro
conservado em chamas — sou
minha própria fronteira
e tu, amor
a norte a sul
tu nascente e poente
nas lindes crepitantes:
e diz o portulano e ladro sua escrita
pois cartógrafo sou desde o país do Ceará e Mel Redondo
limita-se Ipueiras ao norte pelas
cabras monteses e os montes da Aquitânia
Delfos ao sul por Villaguay e Buenos Aires
e a leste e oeste a serra dos Mourões serranos o Amazonas
o oráculo a nordeste e segue
a linha da Mantiqueira por
Congonhas do Campo e Conceição,
Conceição, José, do Mato Dentro — a sudoeste
as coxas de Afrodite e o mar da Jônia
e os limites por baixo são o chão de Eleusis
e os limites por cima o Pentestrelo
do Cruzeiro do Sul e os Hiperbóreos
e noutras pétalas da rosa-dos-ventos
o mar de La Serena o mar
das Alagoas o mar
da Jônia as ondas
dos cabelos de Artemis
e o ananás e a romã e o buriti a noroeste:
pois a sopro de flauta fui riscando as divisas
num mapa de safiras e limões
e cravos macerados ao sereno
da madrugada de um canto
e viajar viajando
o lombo de teus chãos e tuas águas
é meu destino
chegar chegando:
nome —
profissão —
destino —
o destino —
da cifra de meu código e meus semáforos
oriundo.
Àquele tempo a musa pícara
Àquele tempo a musa pícara
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.
Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.
De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite
Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.
Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".
O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.
De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça
até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.
Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.
Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.
São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos
e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.
Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.
Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo
entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
Alexandre cavalga
Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.
Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.
Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade
"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.
O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.
— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.
Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim
antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.
Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele
E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:
Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:
na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.
"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"
E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.
Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.
Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,
Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele
nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"
e a semente do a
Hoje é dia de louras, Abdias
Hoje é dia de louras, Abdias,
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:
meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:
eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.
Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.
Na noite de Connecticut
Na noite de Connecticut
lambe a língua nos lábios a memória
de tua boca:
não profeta não sou, Amós, nem fiho de profeta
mas pastor e cultivador de canas e sicômoros — e Apolo
me tirou de detrás dos rebanhos
e comecei a andar cantando
os anjos saberão dos pés desse andarilho pelas
cidades sonolentas — e uma vez o Danúbio
anoiteceu teus olhos em Belgrado
e uma vez o Pacífico
madrugou-te a pupila no país cerúleo
de Viña del Mar — e outra vez
à pálpebra do crepúsculo
fulguraste e fugiste
no jardim de Manágua — e na matilha
das cadelas douradas tuas ancas
surgiam e sumiam
ao caçador da primavera essa tarde em Veneza —
e em Paris
eras a aurora persa a lima verde
entre os pendões de cana entre a baunilha em flor
do boulevard de salsas e alecrins
por Saint Michel e São Miguel dos Campos
talvez fronteira dos Hyperbóreos — pois
senhor dos coitos menciono sempre
os portos, as estações, a rota dos Hyperbóreos.
Elas Hellas — Hélas!
a adolescência prístina
imortal no coração da morte:
quando a máscara murcha
a flor do rosto atende à primavera
na esmeralda vegetal dos olhos
et jai vu quelquefois, Jean Arthur,
às vezes possuí, Francisco
o que o macho pensou possuir e perder:
pois por elas
Hellas
adelgaçada avena sou
soprado e sopram
nas jeiras desse tálamo a semente
e do leite
e do mel
do vinho mosto:
E nascem doces musas ébrias
Hesper —
— ma — ia
— ieu
ti
ka
Eleu
theria
Peregrina de ti mesma por ti mesma
te peregrinas
e o país viaja na planta de teu pé:
flor desta planta
pa —
ís
por —
tátil
ao tato a —
corda
dessa viola tua
nua
sobre os calcanhares
uma
noite em Copenhagen um
dia em Belo
Horizonte aquela
tarde em Maceió
e alguma vez a rosa oblíqua
— de que Kamakuras
talvez te disfarçaras
celestial cereja
às amêndoas e ao lótus:
a quem te viu
sabes voltar — pois
de onde não vir
ias?
caíram uma vez dos laranjais as luas
sobre teus olhos
negra e formosa ao sul do Senegal
por onde Arme Aribô e sobre
os lençóis brancos a beleza noturna de seu corpo — e entre
as virilhas ondul
ando
andam e ando as finas ser
pentes em pé — filtro
venenoso entre os pentelhos
o convite
a essa maçã de amor
e morre à concha ébria e ali
o amor é morte e a morte
o estratagema da ressurreição:
aparecida um dia e para sempre
me habitas a pupila
ouvi teu nome e desde então serias
moradora de meus ouvidos
e por isso — ocupado contigo
muitas outras coisas não sei:
mas aprendi a Musa
e ensino a Musa — e ela
no país de Apolo onde
sou corógrafo e recito
aos meninos a geografia de sua botânica
sua fauna de pássaros e os peixes
de seus golfos e seus pótamos
a orografla de seus Himetos e o monte
melodioso onde Melpômene e as outras
consultam a estrela e os ventos boreais
para compor a sílaba
Me
lo
Me
los
melo
dias
e noites
cantam amarradas ao mourão de minha herdade
as nove novilhas em flor ao touro adúltero
e um casto Dionísios cada noite
sabe o sabor do lírio em que se filtra
a doce castidade em cada corpo:
boa noite, Melpômene Mourão
e em teus veludos
adormeça fiel a sábia flecha
boa noite
Eleu
theria
Era uma vez um país
Era uma vez um país
onde o fruto alastra o chão
vastos campos onde os touros
nédios urram sobranceiros
entre os bandos de carneiros
pelas soltas dos Mourões:
"Não te aproximes daqui: descalça as alpercatas, porque o logar onde te encontras é
uma terra sagrada"
eles fundaram a terra sagrada e sobre ela
num círculo do chão foi abatida
a grande cajazeira com seus frutos de ouro
e o capitão mandou matar os gaviões
e à glória da cantaria da pedra de ângulo
das paredes de pedra
foram colhidos os tamarindos e derrubadas as jacas e abatidas as jaqueiras
e imolados os animais perigosos
e queimados à bala os forasteiros.
Bebam à minha saúde — ordenou o Capitão
quando assentou a cumieira da casa —
e entre os copos de aguardente parecia
um deus embriagado e cosmogônico
a criar seu mundo
no país dos Mourões
in illo tempore.
Venho desse país e desse tempo
e em seu chão e em seu dia o Capitão — o sabedor da guerra —
furldou meus olhos e meus pés
de sabedor do amor
e sabedor da morte.
Aquela que ainda não pariu — comece a parir;
aquele que ainda não matou — comece a matar:
e o país dos Mourões surgiu no fim das águas
surgiu do sangue de nascer e do sangue de morrer
in illo tempore
no tempo de parir e de matar
Pois faço aos tempos surdos
Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.
Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.
Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.
E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.
Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:
e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.
E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.
Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:
Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.
peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
Cantor de cântaros
Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.
De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.
E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:
Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.
E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.
Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.